As botas (e Lino)

As botas cruzadas sobre o banquinho não se ocupavam da réstia de sol a escorregar para fora do alpendre, não. Com o que podiam da atenção, ao sabor da leseira que arrasta o fim de um dia abafado, miravam, sim, o mar de zinco morro abaixo, rebrilhando ao sol como mil peixes esperneando numa tarrafa recém sacada do rio; mas um tanto da atenção restava, atacada pelas varejeiras e mosquitinhos pentelhando o ar.

Logo viria a noite, e com ela a Geni. Geni chegava sempre por volta das nove, que era o limite da tolerância, mas ela nunca deixava de vir.

Mas antes… as botas pisam o chão, irritadas, pra buscar a garrafa que ele provavelmente tinha esquecido ali perto do banheiro da última vez que foi mijar. E estava ele indo lá, buscar a garrafa (ou encher o copo e esquecer a garrafa ali uma vez mais), quando tomou um puta de um susto.

– Ô louco, Zé!

– Boa tarde, patrão, peço perdão que assustei o senhor.

– Que foi?

– Falcão pediu pra avisar que os menino vêm alimentar os cachorro hoje à noite.

– Porra, de novo? Quando foi a última vez, foi ontem?

– Segunda, patrão, tem quatro dias, já.

– Mas o Falcão tinha dito pro Arnaldo que era quinzenal esse transtorno, porra!

– Não sei o que o chefe disse, seu Lino. Mas a orientação é que os menino vêm, então hoje não entra visita e é pro senhor ficar em casa a partir das dez.

– Eu sei como funciona, Zé, tô aqui desde setembro, e já tinha entendido o combinado. Eu não sou burro. Mas isso aí não tá certo, o combinado não foi esse: me disseram que os cachorros eram alimentados quinzenalmente.

O Zé fica em silêncio por um momento.

– Informo o chefe que o senhor não está satisfeito, Lino. Falcão vai saber o que fazer.

Silêncio, de novo. Lino cede:

– Não precisa, Zé, tenho certeza de que o Falcão sabe o que combinou, e tenho certeza de que sabe da importância de respeitar acordos.

– Não tem nem como duvidar disso, Lino, isso não é nem assunto.

Zé já estava virando as costas para partir quando Lino pergunta “Então Geni não vem?”.

Zé para; fica em silêncio mais um instante, brevilongo.

– Geni nem existe, seu Lino.

*

No fim das contas a garrafa estava no balcão da pia do banheiro. Só tinha um restinho, e o gelo já tinha acabado, e o calor já estava cedendo, então Lino vira o que restava do whisky ali mesmo, direto da garrafa, de pé no banheiro.

Filhos de umas putas do caralho.

Lá fora já tinha escurecido. As ruas do Matilha se revelavam ali, meio faceiras, à luz amarela das janelas das salas das casas. Já se ouvia o burburinho que antecede o culto, ali pros lados do Rio Bonito, já descendo pro asfalto; também começavam a surgir algumas batidas de funk e um sertanejo sofrência – nada parecido com o pancadão que certamente viria mais tarde.

Mas o pancadão, claro, era o de menos essa noite.

Essa noite ele teria que suportar o barulho dos cachorros.

Foi puxar o celular do bolso, subitamente decidido, mas o celular não estava lá. Então as botas, recém cruzadas sobre o banquinho, uma vez mais bateram o taco, e lá se foi ele em busca do celular – que, obviamente, não estava na sala, nem na cozinha, nem na porra do quarto (por fim estava lá, também, no banheiro, no mesmo balcão da pia, ao lado da garrafa agora vazia).

Na primeira chamada o Arnaldo, como de hábito, não atende, o filho da puta nunca atende de primeira. Mas o Lino tem a noite inteira, e o Lino está puto, então ele ligaria a noite inteira, até que o filho da puta atendesse. Mas na segunda tentativa, no terceiro toque, ele já atende.

– E aí, marajá!

-E aí, Arnaldo.

– Como tá o vidão aí na casa grande?

– Porra, Arnaldo, tá de brincadeira?

– Que foi, Lino, tá irritado? Que aconteceu?

– Você não sabe?

– Saber de quê, Lino?

– Do puto do Falcão, e da caralha dos cachorros, porra!

Silêncio; breve, mas nítido. Lino percebe, na hora ele percebe.

– Pô, Lino, não fala assim.

– Foi mal, Arnaldo. Mas então, o combinado não está sendo respeitado!

– Lino, meu querido. Olha só: você está bem acomodado, numa casa excepcional, com serviços diferenciados, e financeiramente fez um negócio que em nenhum outro lugar você conseguiria. Não é?

Silêncio.

– Sei que às vezes a adaptação vai ser… custosa, Lino. Mas olha só: eu posso combinar com o Falcão, no domingo subo aí e a gente faz um churrasco fino, que você acha? O Falcão providencia aquele serviço das gurias, a gente convida o Beto… que tal?

– Porra, Arnaldo, você falando assim eu me sinto uma amante te enchendo o saco.

Arnaldo ri alto, longamente.

– Lino, fica em paz. Você fez um puta negócio! Aproveita aí a sexta-feira, no domingo eu subo aí e a gente se fala. Beleza?

– Beleza. Vai no Tiziu hoje?

Silêncio. Breve, mas nítido.

– Claro que não, Lino, como é que eu ia armar alguma coisa no Tiziu sem você, cara? Não faria sentido aquilo ali sem você. Vou ficar aqui, a patroa anda arisca, vou pagar um chamego.

– Entendi. Beleza. Abraço, Arnaldo.

*

O celular encosta ali, ao lado da poltrona, enquanto as botas tentam, uma vez mais, estar cruzadas sobre o banquinho.

Só pra fracassar uma vez mais. Já não há varejeiras voando; mas a poltrona parece desconfortável, a gritaria do culto atormenta, o pancadão e a sofrência batem fora de ritmo, nada parece no lugar. A ideia de ficar uma vez mais preso na sala de tevê, esperando o barulho dos caras e dos cachorros deixar de soar obscenamente enlouquecedor, por si mesma é enlouquecedora. Não vai dar: Lino vai ter que dar algum outro jeito – não pode ficar preso ali, humilhado, caseiro dos queima-arquivos do Falcão; precisa dar um jeito de virar o jogo.

Mas não tem nenhuma ideia, por uns cinco minutos, e num rompante decide que poderia abrir a outra garrafa, já que o Arnaldo sobe no domingo e deve trazer mais whisky.

*

A garrafa ali, e o copo. As botas nem tentaram se cruzar tranquilas sobre banquinho: estiraram ali, viradas pra fora.

Lino acorda com os primeiros ruídos: os carros chegando velozes, as portas, alguns gritos abafados, ordens emitidas com firmeza e a meia voz.

Ele deveria estar do lado de dentro. As janelas deveriam estar fechadas. As luzes deveriam estar apagadas.

Ele perdeu a hora.

Por sorte, as janelas já estavam fechadas – nem tinham sido abertas. As luzes não tinham sido acesas, tampouco. Só ele estava no lugar errado – e agora não tinha tempo ou meios para consertar isso.

Mas o alpendre ficava nos fundos da casa, e eles tinham passado do portão direto para o portão dos cachorros, na lateral oposta. Então, se ele ficasse quieto, talvez não o percebessem, e tudo ficaria bem.

Mas ele estava com muita, muita sede. E precisava desesperadamente mijar. Quanto à sede não poderia fazer nada enquanto o inferno da alimentação dos cães não passasse; mas poderia mijar ali na terra, junto ao alpendre, contanto que não fizesse barulho. Era isso ou mijar nas calças, então no fundo não tinha escolha.

Quando foi levantar, chutou o celular – e foi aí que teve a ideia.

Mas primeiro foi mijar. Acocorou-se no chão próximo na terra (com o tronco voltado em direção à descida do morro, claro) e apontou o jato o mais verticalmente possível, para evitar ruídos. Respingava um tanto nele, mas não havia escolha: se apontasse para longe o jato faria barulho e ele poderia ser descoberto (com consequências óbvias: o canil já estaria até aberto, a essa altura).

Mas logo percebeu que o barulho dele mijando jamais seria percebido: o canil já estava aberto, e o barulho era insuportável.

Não que fosse um barulho muito alto, isso ele não era. Mas era nojento – muito, muito nojento.

Fechada a braguilha, respirou fundo: era hora. Pegou o celular, deixou a função de gravação de vídeo ali, no jeito.

Pensou que seria bom deixar as botas ali, porque elas faziam muito barulho quando ele andava. Então cuidadosamente puxou o zíper, retirou-as e deixou-as ali onde estava, curiosamente postadas diante do pequeno riacho de mijo. Pareceria, inclusive, que as botas tinham de alguma maneira mijado por si mesmas, ou que um ser invisível, de quem só víamos as botas, tinha acabado de mijar.

Lino reparou nisso, e esboçou um breve sorriso, mas na verdade estava ocupado com outras coisas, mas urgentes: pensava na sede, naquela puta sede desgraçada; e na sua cabeça, que doía demais (talvez o Arnaldo estivesse levando whisky clandestino pra ele, aquele filho da puta); e no medo, que ele não chamaria por esse nome, mas que ele sentia nitidamente ali, apertando sua garganta.

De qualquer forma, se ele conseguisse uma boa gravação da cena, talvez conseguisse derrubar o Falcão e se livrar da dívida e daquele acordo de merda; ou talvez conseguisse chantagear o Falcão (isso talvez fosse arriscado demais). Talvez conseguisse denunciar o Falcão pro povo otário do Matilha, pra eles perceberem de uma vez que o Falcão era um filho da puta e tinha que ser expurgado da comunidade. Enfim: a gravação poderia ser útil pra ele, poderia livrar ele daquele pesadelo – essa era a questão.

E portanto era nisso que Lino pensava, dentro do que poderia existir de pensamento através da dor de cabeça e da embriaguez que restava, quando subiu o degrau para o alpendre e viu que não estava sozinho.

– Zé!

– Seu Lino, boa noite. O Falcão recebeu sua reclamação quanto ao acordo e pediu que eu te mostrasse esse áudio aqui.

Apontou para o Lino o celular, que reproduzia um áudio de um número não salvo nos contatos. A voz de Falcão dizia: “Lino, boa noite. José me contou de sua insatisfação com os cuidados que o canil requer. Sinto muito pelos transtornos. Acredito que você possa ficar mais aliviado se conhecer os animais e o cuidado que dispensamos a eles. José e dois outros funcionários meus, Bico e Zica, vão acompanha-lo na visita. Espero que faça bom proveito. Peço que fique tranquilo: tratarei com Arnaldo a situação referente à sua pendência financeira, que poderá ser dissolvida com a colaboração da Janete e da Alice. Boa noite”.

Antes que finalizasse a reprodução do áudio Lino sentiu a presença de dois homens atrás de si, e quando a repdorução do áudio finalizou ele já estava com a cabeça inteiramente coberta por um saco plástico, firmemente amarrado em seu pescoço.

Mas as botas, provavelmente, seguiriam ali. Elas jamais repousariam cruzadas tranquilamente sobre o banquinho, mas restariam ali, entreabertas, irrigando o Jardim Matilha com constrangido mijo e abundante sangue, os respingos manchando a camurça, mas nada disso prejudicaria os cultos e fluxos e batidões, que seguiriam firmes noite adentro e vida afora.

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