Discurso de um aniversariante branco

Por ocasião do dia em que se celebram meus anos, meus pensamentos derivam entre ponderações e avaliações: quanto realizei? Quão bem me saí? Que fiz de mim?
Nesse contexto percebo, com algum espanto, que os parâmetros me faltam. Percebo que ao longo dos meus anos de formação estipulei, sim, amplos, altos e variados sonhos e metas projetos – mas eram, todos, vagos, sem contorno.
Queria ter sucesso como escritor. Mas nunca associei isso a altas vendas, nem a turnês, nem a papparazzi me seguindo, nem a dinheiros ganhos e empenhados em luxos e frivolidades. O que queria, então? Suponho que queria ser validado, ser aceito e bem quisto; queria ser admirado, e queria ser querido.
Acabei percebendo algo semelhante em diversas dimensões da minha vida. Eu não queria ser um valinhense típico, nem um paulistano, nem um brasileiro – queria ser mais. Mas queria ser o quê? Não sei, e acho que nunca soube. Quis, por um tempo, ir à Europa – mas não como quem se torna um europeu, ou um expatriado, mas sim como alguém que conquista o tipo de reconhecimento que brasileiros outorgam a quem alça esse tipo de voo. Então encontramos aí, uma vez mais: queria ser validado, aceito, bem quisto, admirado, querido.
Ainda assim, sei que queria essas coisas sem que fossem coisas, mas como se fossem direções: eu estaria alçando voos sempre ascendentes, sempre crescendo. Não por arrogância ou pretensão, mas com a tranquilidade de um titã numa terra de formigas – um titã, no entanto, generoso a ponto de ser um bom companheiro para todas formigas com que convivesse, que fosse mesmo, na verdade, uma formiga que é um titã.
A história que Ícaro continuaria para si mesmo, se ele fosse um herói em sua história: Ícaro que era tão dedicado e inteligente, prenhe de tanta futuridade que construiu asas que o levaram ao sol. E ele se banhou no sol, e o sol era de todos, e todos o admiravam por isso, e ele era querido. E era vago, e era bom.
Acontece que, com o tempo, aprendi a estranhar essas minhas propensões e desejos; passei a ver a arrogância, a vaidade e a mesquinhez dessas aspirações. Passei a ver que o caráter vago e genérico desses sonhos dizia do quanto eles eram, no fundo, desejo de poder, e como a ausência de contornos servia para me proteger de reconhecer meus limites e de lidar com minhas frustrações e inseguranças.
Aí olho para mim mesmo hoje e vejo que não voei tão alto quanto aspirava; não sou tão feliz, tão bem sucedido, tão inteligente, tão realizado quanto aspirei.
Vejo, por fim e sobretudo, que isso em grande medida me alegra. Afinal, se deixei de alçar vôos rumo ao onipotente sol, em grande medida isso se deu porque me fiz mais próximo ao rés do chão, à terra à minha volta e sob meus pés; se deixei de mirar os grandiososo e grandiloquentes objetivos, isso se deveu em grande medida à percepção do quanto isso diverge daqueles que são, ao fim e ao cabo, meus maiores e principais objetivos: estar presente, viver uma vida digna e interessante, ser fiel e leal aos meus, ser justo.
Tem uma música do Bend Folds que sempre me chamou atenção, que chama “The ascent of Stan”; a letra se refere a um protagonista (chamado Stan), que cresceu para se tornar alguém relevante, mas para fazer isso se desvencilhou dos seus objetivos primeiros. Numa passagem a letra diz: “um tempo atrás você desejava a revolução / agora você é a instituição/ como se sente, sendo “o cara”? / Não é tão divertido ser o cara”.
Por muito tempo me bati com esse tipo de conflito (me ocupa até hoje, como bem vê quem lê esse texto): sempre quis voar alto e etc, mas com o passar do tempo fui percebendo que isso tinha um tantão de armadilha. Hoje, honestamente, vejo que me encaminho para uma trajetória bem menos “espetaculosa” do que a que sonhei na infância – ao mesmo tempo, fico contente por saber que me desvencilhei do que se revelava uma vida pautada pela busca por reafirmação e poder, negando minhas inseguranças e vulnerabilidades e perpetuando mitos que aqueles cercados de privilégios contam a si mesmos para se convencerem de que são “gente de bem”.
E aí, enfim, eu faço 37 anos e não sou, em absoluto, “o cara”; e olho pra pessoas que se acham “o cara”, e que eu por muito tempo achei que eram/seriam “o cara”, e fico feliz com o caminho que fui trilhando. Já que estou falando disso, agradeço a todos e todas que me ajudaram a perceber que eu era pedante, metido, arrogante ou babaca; todos e todas que me ajudaram a perceber elitismos, machismos e racismos que eu acabava perpetuando; todos e todas que me ensinaram, que me acompanharam, que me aturaram, que me enxergaram para além do virtuosismo intelectualoide e da sorridência vazia; todos e todas que encontram maneiras de seguir ao meu lado, errante e eremita e pentelho que sou.

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Um comentário em “Discurso de um aniversariante branco

  1. Meu querido , que bom que possamos sempre rever nossos sonhos e trazer para uma realidade mais palpável aqui que nos é possível viver, sem deixar de sonhar . Parabéns!!!!

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