O eurocentrismo que lastreia as histórias da Psicologia e da Psicanálise

            Esse texto coaduna algumas reflexões que me ocorreram por ocasião do belíssimo livro de Saulo Araujo, “O projeto de uma psicologia científica em Wilhelm Wundt: uma nova interpretação”, lançado pela UFJF em 2010 e decorrente da tese de doutorado de Araujo na Unicamp, defendida em 2007; mas se trata, estritamente falando, de reflexões: não é um fichamento, uma resenha ou uma análise crítica.

As reflexões se situam em um campo intermediário entre a psicanálise e a história da psicologia, particularmente no horizonte da reflexão acerca do caráter eurocêntrico no ensino e na transmissão destas duas disciplinas – então suponho que o texto possa interessar a quem se interessa por um ou mais desses campos.

*

Tomei contato com o trabalho de Saulo Araujo em 2014, quando comecei a dar aulas de História da Psicologia. Procurei amigos que tinham mais experiência que eu com o tema, e um deles, o Marcelo Ferretti, me recomendou o livro “História da Psicologia: Rumos e Percursos”, organizado por Ana Maria Jacó-Vilela, Arthur Arruda Leal Ferreira e Francisco Teixeira Portugal. Eu acabei estruturando o curso a partir de uma estratégia bem distinta daquela que um apoio mais firme no livro implicaria, mas o fato é que o texto de Araujo compondo o livro me impressionou particularmente.

Depois de dois anos ocupado com a disciplina eu saí da Universidade em que dava essas aulas, e com isso o assunto ficou temporariamente de lado. Aí em 2019 voltei ao curso de História da Psicologia, numa outra universidade. Só que no meio tempo, entre 2015 e 2019, muita coisa tinha acontecido, e meu percurso ao longo desses anos fez com que eu interagisse com o ensino da matéria em termos bem diferentes.

A estrutura do meu curso, a bem da verdade, seguiu a mesma: uma articulação crítica entre três perspectivas diferentes para o campo da história da Psicologia, que eu apelidava de “história longuíssima da Psicologia” (que dá notícias do tratamento oferecido às questões ligadas à psyché desde a Grécia Clássica, num arco multimilenar e portanto bem panorâmico), “história longa da Psicologia” (que dá notícias do lugar que coube à Psicologia na Modernidade, de Descartes até a constituição da dita “psicologia científica” na segunda metade do século XIX) e, por fim, a “breve história da Psicologia” (que dá notícias da estruturação e dos elementos principais em causa na dita “Psicologia Científica”). Então, como dizia, eu ainda estruturava o curso nos mesmos termos que o fazia ainda em 2014 e 2015, esses aí que citei; mas nesses anos em que estive afastado do ensino da matéria eu estava ocupado com minhas pesquisas de doutoramento, e nesse contexto eu acabei me deparando com a obra de Edward Said e, através dela, com uma série de autores críticos das bases do pensamento que chamamos de “Ocidental”. E por conta disso aconteceu que eu, ainda que já soubesse em 2014 e 2015 que o curso era centrado na trajetória que chamamos de “ocidental”, e mais especificamente na Europa, eu compreendi muito melhor como isso operava e, em 2019, pude articular isso de forma muito mais eficiente dentro da proposta pedagógica da disciplina.

O que não significa, evidentemente, que ela deixou de ser “ocidental” ou eurocêntrica – isso só significa que eu pude apresentar com mais clareza como isso se articulava na consolidação dos argumentos (digo “argumentos” no plural porque cada um dos arcos históricos que a disciplina incluía, como numa boneca russa, contava com um fulcro argumentativo próprio: a “longuíssima história” era articulada nos termos da “longa duração”, em estilo magistral e como recuperação crítica dos conteúdos de história geral que compõem, de qualquer forma, as diretrizes curriculares brasileiras; a “longa história” se amparava sobretudo no argumento estruturado por Luís Cláudio Figueiredo, em “A invenção do psicológico”, e na colaboração deste com Pedro de Santi nas publicações deles nessa época; e apenas a “breve história” se apresentava nos termos clássicos do ensino de faculdade particular paulista, com sua configuração panorâmica e conteudista usual). Enfim: eu tentava mostrar essa característica eurocêntrica do nosso curso e de nossa disciplina, fazendo mapas-múndi na lousa e tudo o mais.

Por que estou contando isso tudo? Antes de mais nada, porque sinto falta: em virtude de dificuldades vividas pela Universidade em que tinha acabado de começar a lecionar, vi-me saindo uma vez mais da docência universitária, decepcionado inclusive (não só, mas inclusive) porque tinha passado as férias de verão estudando para fundamentar melhor o curso.

E é aí que entra, por fim, o livro de Saulo Araujo que intitula esse texto, “O projeto de uma psicologia científica em Wilhelm Wundt”: porque uma das coisas que eu sentia que precisava melhorar em meu curso era a apresentação desse período crítico, na segunda metade do século XIX e primeiras décadas do XX, em que são lançadas as bases para as principais vertentes teóricas que embasam a práxis psicológica, e nesse intuito o trabalho de Araujo é imbatível. Imbatível, claro, porque a obra de Wundt é incontornável ao se tratar desse tema, e porque no contexto da obra de Wundt Araujo é referência (internacionalmente, inclusive, e não só no Brasil).

Essa seria, digamos, a “longuíssima história” por trás da presença do livro do Araujo em minha estante, de onde ele enfim foi retirado para que eu pudesse lê-lo agora, mais de um ano depois de eu me desvincular (uma vez mais) do ensino de História da Psicologia. E nesse contexto ele seria, ainda, bastante relevante: no livro (como no artigo que já tinha lido em 2014) Araujo fundamenta sua denúncia de que a imagem de Wundt oferecida pelos livros básicos de História da Psicologia são, em geral, deturpadas e caricaturais, não contemplando a complexidade da obra de Wundt (o que, honestamente, não importa muito) ou da parcialidade enviesada com que essa mesma obra foi incorporada pelos autores que viriam, por fim, a criar alguns dos principais movimentos em Psicologia (e essa, sim, é uma discussão importantíssima). Lendo o livro de Araujo se compreende a violência conceitual que se impetra quando se eviscera (como em geral se faz) o famoso “laboratório de Psicologia experimental que Wundt funda em Leipzig em 1876” do programa intelectual wundtiano em seu arco amplo, e das consequências que isso tem para – perdoem meu francês – estupidificar a concepção de Psicologia que daí decorre. Fato é que é isso que alguns autores importantes (como Titchener) fizeram, e é isso que é repetido em diversos livros-texto de História da Psicologia (como o de Schultz e Schultz), e numa visada simplista como essa Wundt é praticamente um Ford universitário (o que faz parecer que o fordismo seria uma espécie de psicologia wundtiana aplicada, o que é simplesmente bizarro).

Acontece que o ponto em que o livro mais me cativa, atualmente, nem é tanto esse, mas sim um outro em que ele se articula às pesquisas que fiz durante meu doutorado – mais especificamente um eixo de pesquisa histórica que sustentei por um tempo e que chamei de “genealogia da clínica psi”. Esse tema me ocorreu dando aulas (eu acredito de verdade que aprendia mais dando aulas do que os alunos que assistiam a elas), por conta de uma confluência entre os temas das aulas de História da Psicologia, Psicanálise e Psicopatologia: fui percebendo que na famigerada segunda metade do século XIX houve uma curiosa convivência (basicamente silenciosa) daqueles que viriam a ser considerados os pais da Psicologia, da Psicanálise e da Psiquiatria – respectivamente Wundt, Freud e Kraepelin; todos ali, na Europa germânica, e próximos a Universidades, e basicamente na mesma época.

Essa “coincidência” (no sentido literal, de coisas diversas que incidem sobre um mesmo ponto) foi me chamando atenção, e quando entrei no doutorado esse era um ponto central de minha pesquisa. (Na tese final – anedota – isso resta apenas de forma subliminar, num argumento segundo o qual a psicanálise não é, como o diz Mezan, “um tronco com ramos”, mas sim, diria eu, “um ramo de um tronco que o antecede”; esse tronco a que me refiro é justamente esse Zeitgeist das pesquisas germânicas no “campo psi”). Mas o que afinal isso significa? Bom, praticamente nada – as obras desses autores são independentes entre si, claramente independentes. Mas “praticamente nada” não é igual a “nada em absoluto”: uma coisa que isso significa (e não é pouca coisa) é que há algo no espírito da época e no contexto germânico que de alguma maneira inspira esses projetos (de uma psicologia científica, da “psicologia para neurologistas” que vai ser o “elo perdido” ligando o Freud experimentalista à psicanálise e da “psiquiatria científica” de Kraepelin), e isso no mínimo nos ajuda a substanciar essa alegação com cara de bravata de que a Psicologia científica é fruto de um projeto eurocêntrico.

            Há de se notar, de qualquer maneira, que o livro do Saulo não dialoga explicitamente com nada disso – ele, afinal, deixa claro desde o início que fará uma abordagem “internalista”, pautada primordialmente pela análise da obra escrita de Wundt e da forma como as questões se formulam e se encaminham ali (na obra), o que deixa de fora todas essas especulações sociais, conjunturais e, bem “externalistas” que caracterizam tudo isso que eu disse (e todo meu estilo de trabalhar enquanto pesquisador e professor). Minha sorte é que ele não consegue fazer isso 100% (acho que isso seria impossível), de forma que aqui e ali ele se dedica a contextualizar discussões e citações de Wundt – e nesse movimento a obra é muito esclarecedora. Afinal o método e o rigor do trabalho de Saulo fazem com que o livro tenha muito foco, e por isso quando ele discute uma questão contextual sua discussão é muito esclarecedora – ele lança luz sobre os problemas de forma muito nítida, e a interação de Wundt com o debate científico “psi” de sua época surge vívido e colorido; e aqui a verve “social construtivista” e polemista deste que vos escreve encontra uma boa fonte de esclarecimento.

            Cabe notar, de qualquer forma, que o debate não passa em absoluto pelo “tripé de pais fundadores psi” que referi: Kraepelin não é citado em absoluto, e Freud é mencionado en passant e sem nenhum destaque. Mas pra mim isso só reforça o ponto que interessa: o debate intelectual com que Wundt se ocupa, e que Saulo retrata, não toma Freud como interlocutor, mas se endereça a autores que são anteparo para a consolidação do projeto freudiano – ou seja, ele não cita Freud, mas cita diversos autores que são citados por todos aqueles que estudam a “pré-história da psicanálise” (que é, no fim das contas, a história da fundamentação intelectual do estilo freudiano). Dessa forma, poderíamos reportar tanto Wundt quanto Freud (para ficar naqueles que me importam) a um ambiente intelectual específico, pautado por um conjunto mais ou menos compartilhado de pressupostos, problemas em pauta… um campo compartilhado, digamos, de regras discursivas (como diria Foucault em “Ordem do discurso”), com tudo que essas regras discursivas implicam em termos de poder e práxis.

A grande diferença na forma como Wundt e Freud circulam nesse ambiente – numa síntese arriscada que faço por conta própria – é que Freud “extraviou” do ambiente estritamente científico e universitário em direção a problemáticas mais marcadamente clínicas, se aproximando assim daqueles profissionais clínicos que são citados e celebrados por todo historiador da psicanálise como interlocutores privilegiados no Bildungsroman freudiano: Breuer, Charcot, Bernheim, Fliess.

            Uma aproximação com um recurso do próprio Araujo talvez ajude a ilustrar o ponto que estou tentando trazer à baila aqui. Araujo sugere, no fim de seu livro, uma periodização para o acesso à obra de Wundt, que conta com um período inicial (1858-1863), um período de transição (1864-1879), um de consolidação (1880-1889) e um de maturidade (1890-1920), considerando sempre a relação de Wundt com seu próprio projeto de “psicologia científica”. Pois bem: o que acho interessante é supor que Freud flertou com a perspectiva de um projeto para uma psicologia científica, num período que vai basicamente de 1886 (quando ele se encanta com o trabalho de Charcot e mergulha nas questões relacionadas a ele – a hipnose, a histeria, as moléstias funcionais dos nervos etc) a 1895 (quando ele escreve, de forma um tanto quanto frenética, seu “projeto para uma psicologia científica para neurologistas”). Esse nexo temporal (que cobre um período de basicamente dez anos, entre 1886 e 1895) está, evidentemente, inscrito em um arco maior, que é o da dita “pré-história da psicanálise” – que vai de 1882, quando Freud inicia suas colaborações “sênior” nos laboratórios da Universidade de Viena, já na condição de médico formado, até 1897, quando abandona seu modelo nosográfico abrangente para as moléstias da mente (sua “neurotica”) e mergulha decisivamente no processo que culminaria com a publicação de “Interpretação dos Sonhos” (a “máquina de transferência” que estabelecerá a psicanálise como um movimento crescentemente dissociado da cena universitária e pautado pela “associação” de psicanalistas).

            Uma das primeiras coisas que fica clara aqui é que não há esquema fácil em termos de “genealogia da clínica psi”. Afinal, o modelo simplista que preveria um psiquiatra (Kraepelin), um psicólogo (Wundt) e um neurologista (Freud) como “pais fundadores” simplesmente não para em pé[1]. Temos, antes de mais nada, a complicação wundtiana: o livro de Saulo Araujo estabelece decisivamente que as contribuições de Wundt à psicologia científica são tributárias de seu trabalho enquanto filósofo, estando a psicologia científica que ele prevê associada a um projeto intelectual que, a bem da verdade, não foi levado em conta pelos “seguidores”, que sistematizaram modelos “cientificistas” de psicologia ao longo do século XX. Mas quando olhamos para Freud a coisa complica de vez: ele, afinal, não entra para a história por seus trabalhos enquanto neurologista, mas sim como fundador de uma outra coisa (a psicanálise); seu modelo de uma “psicologia científica” (o manuscrito de 1895) não foi aceito sequer por ele, e só é incorporado  ao cânone freudiano postumamente; pior: o estabelecimento do modelo de psicologia científica vai, a bem da verdade, palmilhar o caminho para seu distanciamento progressivo em relação aos debates universitários no “campo psi”, até o cenário em que (de 1906 em diante) ele virtualmente não publica mais nada em ambientes científicos consagrados (apenas em periódicos e editoras psicanalíticos, ou a convite de editores em função de seu trabalho enquanto psicanalista). Em resumo: Wundt era filósofo, e é daí que contribui para a psicologia científica, e Freud só contribui para a psicologia científica a partir do momento em que abdica das pretensões a tanto (abdica à formulação de um modelo de psicologia científica, ou à formulação de uma grade nosográfica abrangente para as moléstias nervosas).

            Mas, ainda que não haja conforto num modelo clássico e simples do tipo “pais fundadores”, persiste um ponto crucial derivado da “coincidência” de Wundt, Freud e Kraepelin: o compartilhamento de um horizonte intelectual de referência, particularmente entre Freud e Wundt.

Neste ponto, efetivamente, o livro de Saulo oferece uma fonte generosa de reflexões e aprendizados ao psicanalista interessado pela história da disciplina: conforme lia sentia a peculiar alegria de quem reconhece os termos, os autores, os debates e os parâmetros em meio aos quais Wundt estabelecia seu trabalho – e o motivo para eu reconhece-los é porque eles tinham aparecido em diversas obras tratando da “pré-história da psicanálise” e são, a bem dizer, elementos decisivos na constelação de pressupostos intelectuais mobilizados por Freud no estabelecimento de seus posicionamentos.

Essa percepção, por sinal, aponta para uma divergência importante no horizonte da “genealogia da clínica psi”: Kraepelin, e com ele todo o movimento da psiquiatria “experimentalista”, parece circular por referências um tanto distintas daqueles que Wundt e Freud, grossamente, comungam. Uma interrogação mais prolongada quanto aos motivos para essa divergência, no entanto, exigiria um desvio que acho que não nos convém, de forma que podemos situar provisoriamente o ponto diferencial num recurso presente nas trajetórias de Wundt e de Freud e ausente (até onde sei) da trajetória de Kraepelin: a metafísica. O fato é que para os dois autores a metafísica é um pivô importante – eles compartilham inclusive uma tendência a querer se distanciar do termo e do campo; mas é evidente para qualquer leitor de Freud que a “metapsicologia” tem fortes ligações com a perspectiva de uma “metafísica psicanalítica” (não é isso que ela é, já que, como tudo em psicanálise, “é complicado”, mas essa dimensão não me parece ausente, e pelo contrário, me parece uma dimensão importante), e Saulo Araujo deixa claro em seu texto sobre Wundt que a metafísica era um elemento central (ainda que retoricamente desqualificado) de seu sistema. Isso, por sua vez, parece ter relação com o interesse, compartilhado por ambos, de associar a um forte lastro evidenciário (lastreado na clínica ou nos experimentos, tanto faz) um pendor explicativo que lhes parecesse robusto e consistente do ponto de vista teórico – nisso eles se diferenciam decisivamente de Kraepelin que, a julgar pela análise avançada por Berrios na “História da Psiquiatria Clínica”, não tinha de forma geral esse arrojo explicativo.

Mas me parece que os pontos em que Wundt e Freud podem ser aproximados se encerram por aí, e daí em diante teríamos, basicamente, diferenças. Ainda assim, há algo crucial a ser mantido em vista, algo decisivo do ponto de vista de nossa discussão aqui: se é fácil perceber diferenças nas marcações teóricas de Wundt e de Freud, isso acontece primordialmente porque eles estão situados dentro de um mesmo campo de debate, e por isso comungam de um mesmo horizonte de pressupostos; isso é decisivo e não deve ser negligenciado. Ainda assim, voltando ao ponto: posto o recurso estratégico decisivo de ambos à metafísica, e o desapreço retórico de ambos diante dela, nos demais pontos referenciais de seus sistemas teóricos encontramos sobretudo diferenças. Elas dizem respeito à situação do fenômeno psíquico no horizonte das ciências (ambos pautados pela cartografia binômica de Dilthey, com Wundt advogando em defesa de um modelo sintético entre Natur– e Geisteswissenschaften para sua psicologia científica, e Freud advogando em defesa de uma adscrição de seu sistema teórico psicanalítico estritamente ao campo das Naturwissenschaften); aos campos do determinismo psíquico freudiano e à causalidade psíquica wundtiana (com Freud subsumindo o determinismo psíquico ao horizonte compreensivo da teoria psicanalítica, e Wundt submetendo a causalidade psíquica à condição de pressuposto teórico para o estabelecimento do modelo – havendo entre ambos, portanto, uma diferença de nível na situação do conceito no horizonte da estratégia conceitual geral); ao campo do fisicalismo e da relação mente-corpo (em que, ainda que ambos repudiem o localizacionismo, apontam para caminhos divergentes – com Freud basicamente amparado no modelo do “concomitante dependente” avançado por Hughling Jackson e Wundt ligado a um modelo que poderíamos denominar como “correspondência irredutível”). Sem que essa listagem se pretenda exaustiva, dou-me o direito de submetê-la a um elemento que me parece decisivo, de cunho “externalista”, para as distintas abordagens avançadas por ambos: acho que a questão central passa pela submissão estrita de Wundt à instituição universitária e aos mecanismos de regulação da práxis científica, ao passo que Freud se afasta progressivamente desse cenário e estipula outros mecanismos regulatórios para o estabelecimento do campo de interações que acolhe e debate seu sistema (campo que pressupõe a teoria postulada como um sistema especulativo provisório a lastrear o método e o avanço das investigações, na linha direta do que se preconizava no campo das Naturwissenschaften, e ao mesmo tempo se submete à soberania da clínica como fonte de confirmação e refutação de postulados hipotéticos, em filiação direta à tradição médica francesa da época); essa diferença, evidentemente, não “explica” as diferenças de posicionamento teórico, mas ajuda a compreender as diferenças gritantes no estabelecimento e consolidação do corpus teórico de cada um dos autores (e da recepção destes pelas comunidades endereçadas).

*

Seguem-se algumas breves considerações, a título de encerramento deste texto e retomando as questões centrais que pautaram as reflexões com que nos ocupamos no texto até aqui:

1. é importante conferir um destaque para o rigor impressionante de Saulo Araujo em relação ao seu tema de estudo, modelo a ser seguido no contexto das pesquisas teóricas e sobretudo no contexto de pesquisas dedicadas à obra de um autor específico. Se houvesse mais pesquisas deste calibre no campo psicanalítico, talvez pudéssemos contar hoje com uma sistematização unanimemente aceita para a referência a autores canônicos (uma sistematização de corpus para o cotejamento da obra de Freud, por exemplo, seria um ganho valiosíssimo); tenho claro que um mesmo nível de rigor é possível no campo da psicanálise, e inclusive no campo de pesquisas menos “internalistas”, e recomendo a obra inclusive como fonte de inspiração para pesquisadores (eu mesmo sei que não vou jamais fazer algo desse gênero, por questões de temperamento e gosto, mas sei admirar um trabalho admirável quando encontro um). O livro de Saulo Araujo até agora é um dos únicos exemplos que conheço de uma pesquisa que “atende” aos princípios bisonhamente exigentes apresentados por Umberto Eco em seu clássico (e já anacrônico, mas ainda assim informativo) “Como se faz uma tese”.

2. No contexto da História da Psicologia, o livro é realmente muito importante para demolir a caricatura de Wundt usualmente veiculada nos livros-texto (ainda que, nesse contexto específico, o artigo publicado em “História da Psicologia: rumos e percursos” dê bem para o gasto para professor que têm muito a fazer e por isso não têm condições de pesquisar a fundo os temas sobre os quais lecionam);

3. Ainda no contexto da História da Psicologia, a leitura do livro de Wundt é muito útil para situar de maneira mais qualificada o fato de que a psicologia que se ensina nas universidades brasileiras é largamente eurocêntrica, e portanto exótica à nossa cultura, condição e interesses. Isso não significa que ela deva ser proibida, ou substituída por algum tipo de “psicologia brasileira” feita às pressas – significa apenas que essa crítica deve ser veiculada de forma, justamente, crítica, ou seja: com menos bravatas e com um pouco mais de substanciação, para que se compreenda o que efetivamente está em jogo e quais as potenciais consequências disso para o exercício profissional dos psicólogos.

4. Para os psicanalistas, a leitura é importante para ajudar a situar o contexto em que Freud trabalhou e, nesta medida, as influências que se fazem presentes em sua obra; Freud não produziu a psicanálise ex nihilo, e ela não é destacada da cultura que a acolhe. Alguns bons comentadores em história da psicanálise, como Ola Andersson, Ellenberger, Roudinesco, Mezan e Jurandir Freire Costa sinalizam para esse elemento, mas a maioria deles (à exceção de Ellenberger) “recorta” a psicanálise como objeto de estudo, e por isso os determinantes contextuais tendem a ser tomados pelo leitor como “peça de mobília”, e não como o ambiente intelectual que ele de fato foi; e nesse sentido a leitura de obras como a de Saulo Araujo, que estão embebidas neste mesmo contexto, ajudam a arejar um pouco a imagem que se faz do contexto em que a psicanálise foi concebida.

5. Ainda para os psicanalistas, isso deve ajudar a compreender o lastro eurocêntrico da produção freudiana, e (por consequência) o trabalho crítico que espera o psicanalista em formação na busca por uma concepção de psicanálise e uma práxis psicanalítica que não mobilize acriticamente pressupostos que nos são exóticos e incompatíveis, mobilização que seria fonte fértil para uma psicanálise alienada e alienante.


[1] É daí que vem a percepção de que o que importa na consolidação das histórias disciplinares psi, conforme narradas hoje em dia, não depende tanto dos autores fundadores, mas da imago autoral canônica organizada em torno dos nomes desses autores. Ou seja: a questão não é a obra de Wundt, mas o tipo de imagem que se pode atribuir a Wundt de forma a situá-lo como “pai” das coisas de que a Psicologia quer se sentir tributária. De acordo com essa hipótese, a mesma coisa aconteceria no campo psicanalítico, claro. Como estou falando aqui das obras dos autores, e não das imagos autorais, o argumento segue outro rumo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s