Te escrevi uma carta. Estava eu lá, todo tinta preta, vertido e versado em palavra, estava eu todo lá. Eu, todo lá, a ser entregue a você. Me escrevi numa carta, a remeter a você. E eu estaria contigo, como nunca estive sequer comigo. Eu seria a mancha que diz dos interiores, a mancha de … Continue lendo Aviãozinho
Tag: cotidiano
Lamento do Império Colonial
Vínhamos - não todos, todos. Era um engano imenso, do tamanho de um país. Estávamos unidos, uma farsa só, bandeiras a tremular, corações a tremular, pensamentos, todos tão seguros, hasteados nos mais altos mastros. Sorríamos uns aos outros, encantados conosco. Era uma festa, e era uma redenção, uma luta ganha de antemão. Uma luta ganha … Continue lendo Lamento do Império Colonial
In_completa Sim_cronia
E agora o moleque está dormindo. Enfim. Agora posso perambular essa casa toda a passos largos, varrê-la livre e desimpedida, posso transitar acelerada entre o quarto e a sala, e o banheiro e a cozinha. Posso fazer o que quiser, e posso querer o que quiser, e posso conseguir querer fazer algo que eu possa … Continue lendo In_completa Sim_cronia
Demora
Ao Martin, ao seu ser de outro tempo, e ao meu não entendê-lo o melhor que posso Corre o tempo. Corre como um rio, convida à serena habitação de seu burburinho. Em meio ao outro, menor, mais afoito burburinho, corre o rio em seu mudo, pacato, inevitável, inaudível burburinho. Habitar o sereno burburinho do tempo … Continue lendo Demora
Café sem prosa em poema
Ao Donatinho, meu primo, pela saudosa inspiração em forma de poesia: "conhece a piada do não nem eu? Não? Nem eu". Que haja leveza na vida de seus filhos, e na sua. O mundo acordou atrasado, corre, acelera e bufa, desvairado - calma, mundo, tá tudo bem. Eu pego o copo e tomo um … Continue lendo Café sem prosa em poema
o ponto cego, o nó da costura do tempo e a solda improvisada com isqueiro
É certo, quase certo, que quando naufragar de vez esse nosso verde-amarelo submarino, terá vindo da avenida paulista a derradeira e decisiva rachadura. sabemos, como se soubéssemos, que é lá que se jogam no presente os trucos do passado e os blefes do futuro. é lá que se olham nos olhos os parceiros, certos de … Continue lendo o ponto cego, o nó da costura do tempo e a solda improvisada com isqueiro
Genesis Reloaded (dublado pt-br)
No princípio Zé-ninguém foi criado. Pressionado, acuado, malvisto, malquisto e maltratado; cresceu a sombra, sumiu o homem: Zé-ninguém. E foi o canto, o espanto e o medo, o dia primeiro. E o chefe disse, “que haja prazo”, e “que haja resultado”, e fez-se a urgência, a iminência e o pânico. Acossado, acuado, emboscado, atacado, por … Continue lendo Genesis Reloaded (dublado pt-br)
O avesso de um sentimento
Um tempo atrás conheci um cara. Ele frequentava o mesmo bar que eu frequentava com meus amigos de faculdade, e como ele sempre estava lá até a derradeira hora, quando a conta chegava por conta e o garçom lavava nossos pés e mochilas aos baldes, eventualmente acabamos entabulando conversa; passado um tempo ele já vinha … Continue lendo O avesso de um sentimento
Ascensão e queda e ascensão do muro
Fazia um frio estranho, com a neve caindo preguiçosa ao sabor do vento, desenhando um ou outro redemoinho no ar, acariciando os galhos das árvores – mais ou menos como eucaliptos, mas um pouco “gordinhos” demais para ser eucaliptos (eu, de minha parte, nunca fui bom em distinguir árvores, então só me espantava com o … Continue lendo Ascensão e queda e ascensão do muro
Baba de baleia
Minha cara, mesmo. Chego na Paulista imaginando encontrar a história sendo escrita, decidido a participar e convencido de que minha decisão seria, de alguma forma, também a decisão do mundo. “Claro, meu querido, se você saiu de casa e veio pra cá, parece mesmo que está na hora de as coisas acontecerem”. Eu chegaria animado, … Continue lendo Baba de baleia
