In_completa Sim_cronia

E agora o moleque está dormindo. Enfim.

Agora posso perambular essa casa toda a passos largos, varrê-la livre e desimpedida, posso transitar acelerada entre o quarto e a sala, e o banheiro e a cozinha. Posso fazer o que quiser, e posso querer o que quiser, e posso conseguir querer fazer algo que eu possa de fato fazer.

Eu posso cansar da ansiedade, me irritar com a inquietação. Posso me jogar no sofá, ligar a tevê, bufar irritada e sentar no chão.

Posso chorar, quanto quiser.

E posso escrever.

Haverá um dia uma história. Haverá o futuro do pretérito presente, quando saberei escrever, enfim, as histórias começo meio e fim que sei que, nalgum lugar, alguém cobra de mim. Escreverei dragões e desventuras, paixões e som e fúria, a glória toda narrativa dos romances imortais.

Deles e do tempo que corre.

Mas isso noutros tempos. Hoje, ainda hoje, é tanto o hoje que soterra o plano, revolve essa sincronia, desengano diminuto, progredindo andante, tragicômico, resolvendo em contratempo, no acidente da escala grega, todo errado na vala que engole o tempo circular em progressivo. E eu aqui, livre como uma vaca a ruminar, sagrada, largada no chão, assistindo tevê, rabiscando notas que ninguém vai ver, me enganando que isso tudo é a lama de onde vai se moldar um romance, um bom, um novo romance, nascido quebrado, água viva, sempre viva, sempre morta.

Um romance costurado, pintado e pendurado, penduricalho na estante, a posar cultura, a esbanjar distâncias, brindar borbulhas, “notas sobre o afresco morto a me pagar as tontas contas com que rolo a dívida minha com a natureza: a morte”.

Belo título pra se deitar fora, na grande lixeira dos futuros pretéritos, junto a tudo o mais que eu poderia ter sido e feito. Tudo que eu, tendo podido, fiz por não ter feito. E que mergulhe lá o afresco morto, a lama disforme que jamais viverá, a água viva afogará, o tempo há de suspeitar que eu, correndo em passá-lo pra trás, me perdoe, talvez um dia, talvez jamais.

E agora posso desistir de mim. E agora posso desligar a tevê. E agora posso ir me deitar, desdormida,  desperdoada,  desredimida. Posso ir me deitar ao lado do meu moleque, a dormir o sono dos justos, a regalar-se na inocência, a sobreviver a mim.

E agora posso ter pena – pena dele, mais pena de mim. E posso ter raiva, de mim, pela pena que eu não mereço.

E agora, agorinha, o amanhã já vem, mais um hoje travestido de amanhã, enganando ninguém, enganando todo mundo. Cuidadosamente desenganados, cada um no seu cubículo, eu João Beto Pedro Nietzsche, todos os nomes do mundo, cubículo após cubículo.

Poderiam querer de mim um começo meio e fim, que eu bem espero que esperem. Poderiam querer a estúpida beleza das margaridas. Os bons conselhos que se dão de graça, pra se ir dormir a ver se a dor desgasta. As aventuras dos dragões a ser mortos pelos brancos príncipes em amor às brancas castas donzelas. Poderiam esperar o começo o meio e o fim. Que sei que esperam. E esperarão. Que se deitem aqui, se quiserem, e aguardaremos juntos, desdormidos, os olhos fechados a esperar, cada um dentro de suas cerradas pálpebras, o amanhã que tão cedo não vem.

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