o ponto cego, o nó da costura do tempo e a solda improvisada com isqueiro

É certo, quase certo, que quando naufragar de vez esse nosso verde-amarelo submarino, terá vindo da avenida paulista a derradeira e decisiva rachadura. sabemos, como se soubéssemos, que é lá que se jogam no presente os trucos do passado e os blefes do futuro. é lá que se olham nos olhos os parceiros, certos de saberem o que fazem, é de lá que partem as vociferações endereçadas aos adversários, vistos apenas de esgueio, demorados em seu errado passado, seu errado julgamento, suas erradas informações. haja o que houver, imagina-se que é de lá que sairá a saída. ninguém o diz, evidentemente, mas todo o mundo o sabe, como se o soubesse.

E é de lá, de dentro dessa certeza inconfessada e escondida, inflacionada e sorrateira nas piscadelas e lances de sorte, é de lá que quebra sobre o desengano de nossos cotidianos enganos o soturno jogo da senhora cega. é lá, nessa avenida paulista dos desfiles coloridos, que se erigiu, qual gigante desadormecido, esse estranho e sinistro jogo. é lá, nessa avenida de café torrado e escasso passado, de riqueza espoliada e velocidade inventada, é lá que se deu o que enfim haveria de nunca se dar.

Num desses dias fechados aos gases e aberto aos desfiles e as gentes, num desses tempos de costurar o passado em malha justa a dar forma ao futuro inventado, num desses domingos surgiu por lá uma senhora cega. não trazia consigo apoio ou cão guia, não parecia saber aonde ia, ninguém sabia que vento a trazia – deu por lá, perdida como cega em tiroteio (tiroteio que sempre há, longe onde a vista dos cegos não alcança, mas que na avenida paulista raramente dá as caras a sangue). trajada como inocente, entregue à escassa sorte que grassa pelo asfalto de lá, a senhora parecia brincar com o destino propriamente seu, propriamente das crianças que por ali andavam, cantavam, gritavam, bicicletavam, batiam em si, umas nas outras, cada uma em sua vazia panela.

Segura a velha cega, povo! onde vai a velha cega? está a brincar de cabra cega, sem haver combinado com ninguém quem pega e quem não pega, quem foge e quem se esconde, quem apagou a luz e quem responderia a seus chamados. a velha perambulante procurava sabe deus o que, havendo deus afinal sido destituído de arbitrar sobre esse tipo de litígio, e a velha perambulava sem saber bem o que, estando o bem perdido nas penumbras de um passado negociado, e a velha perambulava a perder-se do jogo e a guardar caixão e a estragar a brincadeira, tudo ao mesmo tempo e sem fazer sentido a si.

A uns, e por alguns momentos, parecia que a velha cega brincava de acertar o burro, como naquele jogo que parece mexicano, mas que bem se ajusta à nossa desamada pátria mãim-gentil. não que a velha golpeasse, pouco ou nada golpeava, e a golpes pouco ou nada acertava, mas a seu redor criava-se rebuliço, arranjavam-se afinidades e desafinidades, ardiam-se inimizades construídas logo ali, ao sabor dos erros da velha cega, rumo a pouco ou nenhum lugar, pouco ou nada de destino a que efetivamente se fiar.

Um belo dia, nessa costura do avesso de passados e futuros, plasmados num presente errado ao sabor do fogo baixo de juvenis isqueiros, um belo dia despontou na avenida paulista a velha cega. o povo ao redor da velha cega pululava, escondia escondia, corria corria, acusava e defendia, apontava, manipulava, entortava e endireitava conforme queria, e a velha cega caminhava como podia, rumo à rachadura que, mais dia menos dia, por fim racharia a casca de ovo que embrulha e embala esse nosso verde-amarelo submarino, submarindo, submergindo, vamos todos indo, pra frente brasil.

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