O avesso de um sentimento

Um tempo atrás conheci um cara. Ele frequentava o mesmo bar que eu frequentava com meus amigos de faculdade, e como ele sempre estava lá até a derradeira hora, quando a conta chegava por conta e o garçom lavava nossos pés e mochilas aos baldes, eventualmente acabamos entabulando conversa; passado um tempo ele já vinha juntar-se a nós antes mesmo de os gatos ficarem pardos – acho que é o mais próximo de amizade que cheguei a ter com ele. Enfim, tinha já esquecido dele, quando fui lembrado de sua existência da forma mais insólita: o cara ficou famoso e sai nos jornais, agora, dia sim outro também.

Sempre me pareceu uma figura triste, isso me é bem claro; muitas vezes estava sozinho, lendo jornal, trabalhando ao telefone, jantando petiscos com alguma puta (ele variava), coisas desse gênero. Quando sentava conosco falava muito de si, mas daquele jeito bêbado de dizer que expõe só o obsceno e o inapropriado sem oferecer nunca um relance honesto de quem, afinal de contas, se é.

Confesso que nunca liguei pro cara. Pra mim o bar com os amigos era uma ocasião de baixar a guarda e estar à vontade, e a presença daquele cara tão estranho a mim sempre causava inquietação e indisposição; acontece que eu ainda não lidava bem com o fato de morar sozinho e, entre a casa escura e o bar decrépito, ficava no bar. Quem chamava ele à mesa, enfim, era sempre o Pêérre, todo ligado em falsos espontaneísmos e ébrias alegrias tristes, não perdia uma chance de chamar o cara quando ele voltava do banheiro ou do cigarro. “Senta com a gente, amigo”, “que tá fazendo por aqui, capitalista?”.

Capitalista… era assim que Pêérre chamava o cara. O Pêérre era envolvido com um coletivo da faculdade, fazia aula particular de Marx e usava uma boina verde – o que obviamente o habilitava a tratar com ironia e condescendência os representantes (assim nomeados por ele) da burguesia decrépita. Coube a esse cara, desconhecido a mim como ao Pêérre, o título de “O capitalista”. O cara não parecia se incomodar, e levava mesmo a coisa com certa graça – chamava o Pêérre de “Che” e a mim de “Kafká” (forçando um sotaque francês, pronunciando mesmo “Kafká”).

Toda essa alegre camaradagem de machos bêbados em bar de fim de festa não dava conta, apesar de tudo, de camuflar minha estranha disposição em relação ao cara. Havia, é claro, o estranhamento familiar, digamos assim, diante de um desconhecido qualquer num bar, mas não era só isso: além de estranho, ele emanava algo estranho – era algo, em sua estranhice, que eu reconhecia, algo familiarmente indesejável que eu discriminava nele. Como se ele fosse um desses personagens soturnos de livros de suspense, um ricaço decrépito que decaiu dum castelo distante pra me trazer algum recado macabro.

Conforme essa sensação foi se acomodando, se organizando em mim, eu passei de alguma forma a esperar encontra-lo no bar. Não é que quisesse vê-lo, porque não gostava de vê-lo, mas a recorrência desse estranhamento, e essa característica tão marcante dela foram como que me fascinando, aderi-me a isso como um viciado a uma droga. Era um desencontro – já que não era um encontro – mas era um desencontro de que eu precisava, que eu esperava repetir e que me esvaziava a cada vez que acontecia.

É claro que, em algum nível, essa expectativa incluía, em algum lugar, a expectativa de que algo acontecesse. Como nessas narrativas dos homens sem narrativa, tão comum no cinema de hoje em dia, a falta de acontecimentos precisava culminar em algum acontecimento que “cravasse” essa falta de acontecimentos. Em algum momento seria inevitável que, ao encontra-lo, algo acontecesse – ele brigasse com o Pêérre, ou dissesse coisas reveladoras sobre si mesmo, ou tivéssemos alguma experiência estranha, talvez com algum caráter sexual, enfim: algo teria que acontecer.

Só que não aconteceu nada. Ele, a estranheza dele, essa presença vazia dele, essas performances vazias dele com o celular e os negócios e as putas, com o Pêérre e a baixaria e o machismo e a decadência, tudo isso ia se empilhando, indiscriminadamente, incompreensivelmente, repugnantemente.

Sumimos uns dos outros: Pêérre passou a incluir seus colegas revolucionários de apartamento em tudo que fazia, de forma que tive que me afastar dele, eu deixei de frequentar aquele bar porque o Tinder passou a exigir de mim maior sofisticação e variabilidade, e ele passou a não estar ali vez ou outra, sumindo sem se mover como o gato da Alice. Nada aconteceu.

Eventualmente reconheci nele, de repente, o prefeito de minha cidade. Era o mesmo cara, e não sei como não o reconheci antes: não sei dizer o que aconteceu, mas é como se nos debates e na corrida eleitoral não fosse ele, ainda. Só que ele se elegeu, surpreendentemente, como quem vem do nada, e quando o vi, já como prefeito, o vi enfim: era ele. Aí tudo fez sentido, retrospectivamente: nos debates ele estava lá, era o mesmo machismo, a mesma degradação, o mesmo celular, acima de tudo a mesma presença impresente, o mesmo discurso que nada dizia. E era tão impresente, tão nada, tão vazio, que não o vi lá, e quando vi ele já estava lá – lá em todos os lugares, eu digo: era o prefeito, e era um prefeito que estava em todos os lugares, e no entanto não estava em lugar nenhum.

Era como se ele fizesse coisas, mas as coisas não eram feitas; ele decretava coisas, decidia coisas, mudava coisas, e é como se nada acontecesse, como se ele não estivesse lá.

Ele era odiado, isso é certo. Mas, em sendo odiado, não era efetivamente odiado, já que nada se passava – como se o ódio que nutrissem por ele (e muita gente manifestava nutrir muito ódio) fosse do mesmo material que meu estranhamento familiar, como se ele fosse alguém que promovia sentimentos furados, murchos. E ele era adorado, certamente, mas também da mesma forma: adorado por fazer muita coisa, e por dizer muita coisa – mas, de novo, é como se ele não fizesse coisas, ou como se as coisas não acontecessem de fato; elas eram alardeadas, eram impostas, eram postas em movimento, e nada acontecia.

Hoje eu acordo, ligo o celular e há inúmeras notícias sobre ele. Grupos de Whatsapp se organizam para se opor a ações dele que afetam moradores de rua, feirantes, mulheres, ambulantes, carnavalescos, motoqueiros, motoristas de ônibus, todos, tudo, em todo lugar. Ligo a televisão e fala-se dele, das coisas terríveis que ele fez, das coisas terríveis que ele não fez, das coisas fantásticas que ele fez, das coisas fantásticas que ele não fez. No rádio, no jornal, nos relógios de rua.

No Facebook.

No Instagram.

Nos intervalos comerciais.

No café, no intervalo do trabalho.

Nos encontros com as minas do Tinder.

Eu fico imaginando que em algum momento alguma coisa vai acontecer. Aí não acontece, nada, e continua tudo acontecendo, e nada acontece.

E eu fico sentindo, um monte de coisas, e estranhando essa familiaridade, e vou ficando familiar com esse estranhamento.

Tenho esperado o dia onde ele vai bater em minha porta, e vai derrubar minha porta. Vai ter uma puta a seu lado, e PMs à sua frente. Vai me dizer obscenidades, os PMs vão bater em mim, vai comer a puta na minha cama, pegar meu dinheiro e pagá-la com ele, abrir minha geladeira e tomar minhas cervejas.

Em minha garganta colocavam-se as mãos de um dos PMs, enquanto o outro cravav a faca profundamente em meu coração e o virava duas vezes. Com olhos que se apagam eu ainda vejo os PMs perto de meu rosto, apoiados um no do outro, as faces coladas, observando o momento da decisão.

– Como um cão – eu direi. Como K.

E é como se o estranhamento, e a familiaridade, devessem sobreviver a mim.

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