Lamento do Império Colonial

Vínhamos – não todos, todos. Era um engano imenso, do tamanho de um país. Estávamos unidos, uma farsa só, bandeiras a tremular, corações a tremular, pensamentos, todos tão seguros, hasteados nos mais altos mastros.

Sorríamos uns aos outros, encantados conosco. Era uma festa, e era uma redenção, uma luta ganha de antemão. Uma luta ganha diante não.

Custou-nos pouco: pensarmos sempre em frente, não olhar pros lados, ouvidos, olhos, pensamentos moucos.

Éramos, todos, não todos. Um olho no avesso, um olho no acaso. Sempre em frente. Chegamos longe, ao que parece. E desde sempre não houve retorno, desde que já não há mais retorno, sempre.

Quando eventualmente o engano, o erro, o tropeço, o hiato, o vazio, a loucura, a vida, a morte, a criatividade, o amor, o destempero, o outro – quando o outro chegar, ou quando chegarmos a isso, já não nos haverá resto a sobrar. Estaremos, então, entupidos de nós, de nossos gritos e sussurros,  certezas, hinos e murros, nossas pontas de faca hasteadas num hino a unir-nos, todos, não todos, numa sorte fechada, compacta, e nossa, tão nossa, efetivamente nossa.

Pátria pária amada nossa, por que já não tememos a própria morte, morte que não foge, e é nossa; reluta, refulgindo seu berço esplêndido, para onde marchamos, salve, salve.

E uma vez lá, transposto lá, enfim lá seremos grandes, grandes em fim.

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