Ascensão e queda e ascensão do muro

Fazia um frio estranho, com a neve caindo preguiçosa ao sabor do vento, desenhando um ou outro redemoinho no ar, acariciando os galhos das árvores – mais ou menos como eucaliptos, mas um pouco “gordinhos” demais para ser eucaliptos (eu, de minha parte, nunca fui bom em distinguir árvores, então só me espantava com o caráter meio surreal da cena toda). Estava o mais próximo que podia da fogueira que lutava como podia contra a neve, tostava um marshmallow ou outro mas já sem grande empolgação (estava com a boca um tanto pegajosa pelo excesso de açúcar). Senti uma certa irritação quando me dei conta que uma parte do incômodo com o frio era, na verdade, incômodo com o silencia e a pasmaceira que tomava o grupo.

– Donald!

Estranhei um pouco minha espontaneidade e, um pouco surpreendentemente, estranhei minha voz, que soava como uma dublagem de mim mesmo por mim mesmo (como quando assistimos a um vídeo em que falamos e não reconhecemos a nós mesmo ali). Donald olhou pra mim rapidamente, aquela ponta ridícula de seu boné ridículo de marinheiro jogou para o lado em resposta.

– Quê?

– Foi você que organizou isso aqui, não foi?

– Não, foi o Mickey.

– E onde ele está?

– Não sei, deve estar metido em algum heroísmo por aí. Posso pegar seu marshmallow?

Passei a ele um bocado – estava com o saco inteiro de mashmallows aos meus pés, não sei bem por quê.

– Claro. Escuta… de onde eu te conheço?

– Você não lembra?

– Não… parece que acordei agora, não sei nem como cheguei aqui. Na verdade não sei bem onde estamos.

– Hmmmm…. ok.

Ele me olhou com uma cara que era um misto de preocupação e previsibilidade, como se esperasse que aquilo pudesse acontecer. Nesse momento os sobrinhos dele chegaram fazendo a maior bagunça nos tocos de madeira e nas mochilas ao redor da fogueira, contando aventuras todos ao mesmo tempo, de forma que eu não entendia quase nada; entendi que Mickey estava com eles, e que aconteceram muitas coisas nesse passeio, e que aparentemente estávamos numa espécie de camping em meio à floresta.

-Ufa… que aventura!

Era o Mickey, que chegava pelo mesmo caminho por onde chegaram Huguinho, Zezinho e Luizinho. Ao lado dele vinha um homem, baixinho, bem esquisito. Sem falar nada, sentou bem ao meu lado e abaixou levemente a cabeça em minha direção num cumprimento discreto. Reparei que ele tinha pés imensos e peludos, o que me tomou de um susto enorme que custei a disfarçar – era Sam Gangee, do Senhor dos Anéis! Não conforme o filme (lembrava mais a versão do desenho dos anos 80, que eu nunca assisti direito; mas ao mesmo tempo eu sentia ele como real, e não como um desenho), mas era ele, certinho e sem dúvida.

Senti que tinha que fazer alguma coisa.

– Gente…

Todos me olharam, com um olhar complacente que achei bem estranho.

– Que eu estou fazendo aqui?

Eles se entreolharam, como se tivessem entendido algo que eu não entendi, mas ao mesmo tempo não soubessem bem o que fazer. Donald interrompeu Mickey, que se preparava para falar:

– Olha, eu não sei, também! Você não ajudou a montar as barracas, nem a acender o fogo, não foi às aventuras com o Mickey, o Sam e as crianças, e comeu metade dos marshmallows sozinho.

Mickey espantou-se por ser interrompido, inicialmente, mas pareceu conformado com o encaminhamento que Donald deu à situação, e ajeitou-se em seu banquinho de acampamento.

– Entendi. Bom, desculpa quanto a isso – eu posso ajudar em alguma coisa depois, se quiserem. Mas eu queria entender como eu cheguei aqui, tipo… de onde vocês me conhecem?

De novo um silêncio – mas dessa vez talvez porque eu fiz uma pergunta genérica num grupo que parecia um tanto heterogêneo, agora que eu começava a me ambientar melhor. Quem falou dessa vez foi Sam:

– Olha, eu não sei quanto a eles, e não sei se você vai se lembrar, mas eu te conheço há uns três meses; te encontrei ali perto do Central Park, naquele dia em que o Harry Potter salvou uns trouxas (e não salvou outros, que morreram) quando uns bichos do Jurassic Park apareceram por lá. Você estava morrendo de medo, como eu, e a gente se escondeu junto num mesmo café, acho que chamava Central Perk, e ficamos lá uns dois dias até a comida acabar e sentirmos que estávamos seguros. Te adicionei no Facebook, descobri que você frequentava a mesma academia que eu e passamos a nos falar. Você não lembra de nada disso?

Parecia um sonho, em função da bizarrice da situação, e ao mesmo tempo não parecia um sonho, porque eu sentia aquilo tudo real. Era muito esquisito, porque eu estava sentado ao redor de uma fogueira com o Pato Donald, que é um pato que fala, e do Mickey Mouse, que é um rato gigante, e no entanto tudo aquilo parecia normal, de alguma forma.

Mas o fato é que eu não lembrava de nada daquilo que Sam dizia – sentia uma amizade verdadeira no jeito de ele falar daquilo, e eu estava realmente inclinado a acreditar que aquilo era, de algum jeito, verdade. Mas não podia fingir – pelo menos não pra ele (pro Donald eu fingiria, não tinha ido muito com a cara dele).

– Então, Sam, eu não lembro, desculpa. Na verdade, cara, eu sinto que só te conheço porque eu li os livros do Senhor dos Anéis, e assisti aos filmes depois, mas por mim é só daí que te conheço. O Mickey, o Donald e os sobrinhos eu conheço de revistinha, e que eu saiba é só. Sinceramente não sei como eu vim parar aqui, e diria que é um sonho se não sentisse tudo tão real.

Eles pareceram chocados, e a cada coisa que eu dizia eu sentia a tensão crescer entre nós. A fogueira crepitava de um jeito que começou a me chamar atenção, um pouco artificial demais, como aqueles sons de figueira em aplicativos de relaxamento, e eu senti um certo tremor na sensação de realidade. Por trás disso tudo senti também uma pontada de medo – nada que me intimidasse, mas de alguma forma aproximou-se uma iminência que eu ainda não distinguia bem de que tratava.

Percebi então que Mickey mudou – parece ter se dado conta de alguma coisa, inclinou-se de novo em seu banquinho e disse: “mas… você disse que está sentindo ‘isso tudo tão real’?”.

– É. Racionalmente é muito estranho, porque por tudo que eu conheço vocês não deviam existir, e eu entendo que isso não deveria ser real, mas o que eu estou sentindo agora é que tudo isso é real. É a sensação, mesmo, e só, e eu tô inclinado a duvidar disso tudo, mas não sinto nada disso falso.

Ele ficou pensativo por um tempo e, então, começou a pensar em voz alta, buscando apoio nos rostos de Donald e Sam conforme falava.

– Isso é estranho. Talvez você tenha de fato vindo de algum outro lugar e chegado aqui como quem chega “de fora” – mas isso não existe mais, já que não existe mais ‘fora’. Ao mesmo tempo você parece real aqui, então se você veio de outro lugar, você veio, mesmo assim, e então talvez não haja mais nada relevante quanto a isso.

Eu sabia que ele não estava falando comigo, mas me irritei com a naturalidade com que ele me deixou de lado de tudo.

– Cara, desculpa, mas… quê?

Ele me olhou, deu uma inclinada com a cabeça para o lado, como se eu fosse um bicho ou alguma coisa esquisita; depois, ainda olhando para mim, pôs-se pensativo, o olhar virando um pouco pros pensamentos e me deixando de fora. De repente, de um jeito muito, mas muito caricatural, ele apoiou o queixo sobre o indicador, o polegar estendido apoiando a bochecha, levantou a sobrancelha e olhou para o alto – era o Mickey das revistinhas, escarrado! – e disse “Puxa, mas que encrenca!”.

Sam pareceu preocupar-se, tornou-se mais nítido, de repente, inclinou-se em minha direção e tomou as rédeas:

– Escuta, é muita coisa, mas ao mesmo tempo é relativamente simples. Algumas pessoas dizem que estamos no começo de uma nova era, e que as coisas antes eram diferentes. Segundo essa lenda, havia uma separação, uma “linha”, como dizem, entre dois reinos – a “realidade” e a “ficção”. Nesse tempo os seres “reais” sabiam da existência dos seres de “ficção”, e eles liam e assistiam filmes e desenhos que retratavam lendas e histórias ligadas aos seres da “ficção”; quanto aos seres da ficção, esses não sabiam da existência da “realidade”, e viviam suas vidas como se elas fossem, enfim, o que eram: a realidade, o dia-a-dia, isso tudo. Houve, então, uma crise, deflagrada quando a “realidade” começou a perder sua estabilidade – pessoas traçavam linhas pra cá e pra lá, confundindo a realidade, ou tornando a realidade ficcional, ou mais estranha ainda que a ficção; houve tumulto, e alguns seres “reais” tentaram levantar muros e paredes e barreiras, fortalecendo linhas que pudessem protegê-los de alguma forma… mas a transformação já estava a caminho: os muros caíam assim que erguidos, as ficções se tornavam reais conforme a realidade se tornava ficção, tudo parecia possível e impossível ao mesmo tempo, e num certo dia, que seria o “começo da nossa era”, a linha sumiu. O que vivemos, então, teria essa aparência de “caos” que essas pessoas denunciam porque elas lembram, sem poder lembrar, de um momento em que haviam essas separações, em que os reais sabiam da ficção mas sabiam-na “do lado de lá”, e os “ficcionais”, do lado de lá, sabiam da realidade de sua vida e por isso sabiam em que lado estavam (porque nem havia questão).

Sam parou por um momento, como se fosse mudar de parágrafo, ou de ponto de vista.

– O ponto é que ninguém lembra desse período anterior. Ninguém sabe como as coisas eram quando a tal linha existia, nem sabe bem onde ela fica. Então as pessoas ficam dizendo que as coisas desandaram, e que elas deviam voltar a ser como eram, e que tudo voltará a ser grandioso se pudermos restabelecer os limites e tudo isso, mas ninguém sabe que linha é essa, nem sabe o que ela separa. Alguns, que são conhecidos como “herdeiros da grande linha”, dizem que os “iluminados” sabem onde fica a divisão, e devem se reunir e acabar com os “ficcionais” – que no entendimento deles estão invadindo a “realidade” – e restituir a linha, já que com isso os “ficcionais” só vão poder ser acessados pelos livros e filmes e quadrinhos, que seria o lugar deles; outros dizem que essa lenda é na verdade uma profecia, e que chegará o Grande Dia, que pode ser (para alguns) a Grande Divisão, quando a linha se fará notar e tudo cairá em seu lugar, ou poder (para outros) a Grande União, que é quando a lembrança de uma separação enquanto tal desaparecerá e todos se reconhecerão como partícipes de uma mesma coisa, que é a realidade ou o mundo ou o que seja, e nesse dia a lembrança da linha desenhará na mente de todos o Grande Círculo que unirá a todos em paz e comunhão.

Sam tinha perdido, aparentemente, o fio do raciocínio (em meio a todas as linhas, provavelmente); procurou com os olhos o fio, e parece ter encontrado quando voltou a falar:

– Mas isso tudo são teorias, e essas pessoas são em geral bem estranhas, são fanáticos mesmo.

Parece ter lembrado de algo, de repente, como num susto; olhou para Donald, que continuava com a cara carrancuda de sempre. Retomou, parecendo mais cauteloso.

– O fato é que não sabemos de nada disso, mas não deixa de chamar atenção essa tua fala sobre “real” e “irreal” e sobre “filmes” e “revistinhas”. É isso.

Peguei-me com um certo medo. Todo o discurso de Sam teve um efeito um tanto encantatório, fui ouvindo aquilo como quem ouve uma história, e por isso quando ele terminou eu me dei conta que não tinha pensado em absoluto no que aquilo poderia significar, ou se aquilo me parecia verdade ou não. Ao mesmo tempo não sabia o que fazer com qualquer outro cenário, já que estava ali com eles, no meio do mato, sem nenhum apoio que me lembrasse a vida que eu sentia, de algum jeito, que tinha que ser a “real”.

Eu procurava o que dizer rapidamente, sabendo que eles esperavam algo de mim. Não tinha a menor condição de fingir que lembrava de tudo como eles esperariam normal e que não sentia a tal “irrealidade”, mas sabia  que se eu fosse sincero estaria dizendo que era um fanático, ou um profeta – e não sabia qual hipótese me soava pior. A ideia que se formava em mim, então, era propor ajuda, como se eu estivesse doente, ou muito confuso, e precisasse de cuidados para me recuperar; não estava certo de que era uma boa ideia, mas eu claramente não tinha tempo para pensar.

Aí, quando eu ia dizer isso, as coisas ficaram loucas de vez. Ouvimos ruídos vindos do mato, do lado oposto àquele de onde tinham vindo Sam e os outros, bem em frente a mim, e todos se voltaram para olhar e tentar discriminar o que era. Pareciam passos, claramente, mas vinham de todos os lugares daquela região, como um grupo que tivesse preparado uma emboscada. Donald puxou os sobrinhos para perto de si, Mickey posicionou-se numa certa prontidão heroica (ele era muito caricato!), Sam encolheu-se, e esperamos.

De repente apareceu um homem – alto, imenso, parecia um quadrado ambulante. Ele avançou em direção à luz e percebi que não era tão grande, mas usava uma capa (sim, uma capa!). Todos ao meu redor se encolheram, parecendo que sabiam de que se tratava.

Quando enfim o vi – ou melhor, o ouvi – tomei-me de um sentimento incompreensível, uma mistura de vontade de rir com medo e uma sensação de iminência ainda mais forte e uma espécie de despertar para alguma responsabilidade esquisita que eu portaria comigo, na minha alma ou genes ou sei lá onde. Aquele cara era ninguém mais ninguém menos que Darth Vader!  A respiração agora era nítida, aquela respiração estranha dele. Ele avançou mais rapidamente a partir daí, talvez percebendo que a entrada teatral já estava fracassada. Olhou-nos a todos, um por um, fixando o olhar, por fim, em mim.

Num movimento brusco, que assustou a nós todos, que esperamos por uma espada jedi ou um tiro ou um sufocamento à distância, ele tirou o capacete, e ele era Morpheus, do Matrix.

Fazia todo sentido, afinal de contas, que Morpheus aparecesse num momento como esse. Percebi, no entanto, que ele certamente seria um fanático, e fiquei com medo.

Ele percebeu meu medo. Apertou os olhos, calculando alguma coisa que não entendi. Olhou um tanto para o lado e disse “ele sabe. Venham” – muito calmamente, e num tom de voz natural (a voz bem grave, mas o tom natural). De repente surgiram seres de todos os tipos em nossa clareira – cavaleiros de épicos medievas, Jack Nicholson, Wolverine (não Hugh Jackman, mas parecido com ele), Stormtroopers atirando para todos os lados (e não acertando ninguém), samurais, narcotraficantes mexicanos, índios americanos, um bocado de figurante (ou gente “do mundo real”, não saberia dizer), todos despencando em direção a nós em meio a brados de guerra, gritos de fúria, sonoplastias à la George Lucas, cavalos galopantes, um caos.

Olhei para o Donald e senti um assombro ao ver, não o pato, mas Trump; olhei para o Mickey e vi Michel Temer, vestido de Conde Drácula. Olhei em direção a Sam e ele não estava mais lá.

De repente entendi alguma coisa – não sei bem o quê, mas entendi. Procurei Morpheus em meio à balbúrdia (que avançava surpreendentemente devagar) e encontrei-o ali, parado, as mãos cruzadas nas costas (como no filme), contemplando aquilo tudo na maior calma. Ele me olhava, ainda. Dei um leve sorriso, a que ele retribuiu, contendo uma certa euforia que pude, no entanto, perceber.

Era o fim.

Ou o começo.

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