Houve um governante, que governou muitas vezes, muitos lugares e por muitos tempos. Talvez eu devesse dizer que há um governante, e não que houve, dada a atualidade de seu jugo; mas o poder repressivo e dominador do tempo presente me intimida, de forma que recorro ao passado. Talvez eu devesse dizer também que ele, … Continue lendo A parábola do governante
O culpado (resistência)
Tenho tentado me manter ocupado. Tenho tentado matar o tempo, a ver se o tempo me mata. Tenho estado distraído em tribulações nebulosas, pensamentos confusos, fixações desgostosas. Tenho pensado em nós. Tenho lembrado de um tempo que acho que nunca foi. Tenho habitado ondas mornas de fotografias de você, Esperando que me veja, querendo estar … Continue lendo O culpado (resistência)
Espalhafatosamente
porque você sabe que essas coisas não começam - quando elas chegam elas já são tanto, já são demais. E elas transbordam em nós, e nós transbordamos por aí. E vai ser isso: eu vou transbordar por aí. As pessoas vão me ver por esse brilho que eu sobro, por esse sorriso idiota, porque estarei … Continue lendo Espalhafatosamente
Passagem murada, morada
sempre que tento me fazer entender na duração estrita de uma frase, com o propósito de evocar no leitor a sensação de fluidez que um movimento comunicativo com sua modulação e suas curvas e acentos promoveria, sempre que tento dobrar assim as idéias que a mim se afiguram em geral recurvadas e inflectidas por esse português … Continue lendo Passagem murada, morada
Aviãozinho
Te escrevi uma carta. Estava eu lá, todo tinta preta, vertido e versado em palavra, estava eu todo lá. Eu, todo lá, a ser entregue a você. Me escrevi numa carta, a remeter a você. E eu estaria contigo, como nunca estive sequer comigo. Eu seria a mancha que diz dos interiores, a mancha de … Continue lendo Aviãozinho
Lamento do Império Colonial
Vínhamos - não todos, todos. Era um engano imenso, do tamanho de um país. Estávamos unidos, uma farsa só, bandeiras a tremular, corações a tremular, pensamentos, todos tão seguros, hasteados nos mais altos mastros. Sorríamos uns aos outros, encantados conosco. Era uma festa, e era uma redenção, uma luta ganha de antemão. Uma luta ganha … Continue lendo Lamento do Império Colonial
In_completa Sim_cronia
E agora o moleque está dormindo. Enfim. Agora posso perambular essa casa toda a passos largos, varrê-la livre e desimpedida, posso transitar acelerada entre o quarto e a sala, e o banheiro e a cozinha. Posso fazer o que quiser, e posso querer o que quiser, e posso conseguir querer fazer algo que eu possa … Continue lendo In_completa Sim_cronia
Demora
Ao Martin, ao seu ser de outro tempo, e ao meu não entendê-lo o melhor que posso Corre o tempo. Corre como um rio, convida à serena habitação de seu burburinho. Em meio ao outro, menor, mais afoito burburinho, corre o rio em seu mudo, pacato, inevitável, inaudível burburinho. Habitar o sereno burburinho do tempo … Continue lendo Demora
Café sem prosa em poema
Ao Donatinho, meu primo, pela saudosa inspiração em forma de poesia: "conhece a piada do não nem eu? Não? Nem eu". Que haja leveza na vida de seus filhos, e na sua. O mundo acordou atrasado, corre, acelera e bufa, desvairado - calma, mundo, tá tudo bem. Eu pego o copo e tomo um … Continue lendo Café sem prosa em poema
o ponto cego, o nó da costura do tempo e a solda improvisada com isqueiro
É certo, quase certo, que quando naufragar de vez esse nosso verde-amarelo submarino, terá vindo da avenida paulista a derradeira e decisiva rachadura. sabemos, como se soubéssemos, que é lá que se jogam no presente os trucos do passado e os blefes do futuro. é lá que se olham nos olhos os parceiros, certos de … Continue lendo o ponto cego, o nó da costura do tempo e a solda improvisada com isqueiro
