Passagem murada, morada

sempre que tento me fazer entender na duração estrita de uma frase, com o propósito de evocar no leitor a sensação de fluidez que um movimento comunicativo com sua modulação e suas curvas e acentos promoveria, sempre que tento dobrar assim as idéias que a mim se afiguram em geral recurvadas e inflectidas por esse português peculiar que me atravessa e me mantém vivo, sempre nessas ocasiões espanto-me com a recorrência de uma retórica que me remete a essa dos grandes mestres franceses que possuem nossa cena intelectual como a colonos destituídos de alma, espanto-me com a sensação de que essa forma de forçagem da língua escrita expõe o leitor a uma toada encantatória, verdadeira ladainha convincente à força de seu efeito quase-hipnótico, quase-anestésico, operando como um esparramamento da linguagem, saturando o espaço comunicativo, alagando as reentrâncias e recuos tão caros à possibilidade de habitação do dito pelo ouvinte ou leitor, gerando algo que não seria da ordem da submissão, mas abrangeria sem dúvida sucedâneos da submissão na medida em que reduziria as possibilidades de o leitor retirar-se na ocasião de um acidente intervalar, retirar-se em busca de ar, digamos, pela ventura dessas interposições textuais que operam como uma espécie de enclave no texto, a oferecer guarida e descanso e a permitir o hiato onde, no fim das contas, as coisas efetivamente acontecem em termos de comunicação, e é esse tipo de espanto, enfim, que me posiciona em suspeita diante do efeito encantatório que vejo operar a partir dos tais mestres franceses, e que poderiam igualmente ser americanos ou alemães ou de qualquer outra metrópole colonialista, ainda que nesses casos a dominação e o encantamento alienantes tivessem que se operar de forma menos óbvia a partir desse tipo de distensão do fraseamento e da obliteração de seus espaços, mas ainda assim haveria em marcha, por acidentes linguageiros outros, esse mesmo tipo de dominação de que nos ocupamos aqui, nessa ladainha que ora desfio como testemunho performático do potencial corrosivo que de dentro de nosso aparato linguageiro, nas minúcias que animam esse nosso maquinário de letras e marcadores por baixo e para além de sua aparente impassibilidade, a despeito de sua aparente docilidade maquínica, animando a fria tipografia de nossa fonemática e insuflando-a, por nossa causa mas a despeito de nós, insuflando-a, dizia, de vida e ritmo, recortando caminhos e estradas e becos sem saída, dispondo em nós e entre nós a arte de desentendermo-nos e, quando dos felizes acidentes, encontrarmo-nos faticamente, erraticamente, fugaz, decisiva e revolucionariamente. 

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