Menino tinha sempre um nó na garganta, um nó do tamanho da fome do mundo. Vivia carregado de ontens, vivido de gente morta desconhecida de si, sabida por ele à força justo de ter sido ninguém. Menino falava espertezas, tendo lido muito quase toda a tinta trazida da França num abraço mental de explicar o … Continue lendo o pequeno grande menino
Precaria_mente
Eu sempre soube da precariedade, no mínimo porque você nunca me deixava esquecer; mas fui me habituando a pensar que ela era companheira nossa, você se referindo e insistindo em que olhássemos pra ela como se quisesse cultivá-la entre nós. Fui me habituando a pensar nela, a tê-la ali conosco, e por isso me assustei … Continue lendo Precaria_mente
Rastro
Uma das coisas que mais me atrai na escrita é um certo estado de espírito que se cria, uma disposição que passa pelas coisas que chamamos de contemplação e calma, ainda que não me pareça ser exatamente isso. A linguagem, a relação com a linguagem tem um papel importante, de que já falei mais vezes … Continue lendo Rastro
Resenha de “Outubro”, por China Mieville
Título do livro: Outubro: história da Revolução Russa autor: China Miéville editora: Boitempo título original: October: The Story of The Russian Revolution (Verso Books) 352 páginas ano de publicação: 2017 Endereço para compra no site da editora: http://www.boitempoeditorial.com.br/v3/Titulos/visualizar/outubro China Mieville é um autor prolífico; é verdade que “Outubro” é apenas o terceiro trabalho seu a … Continue lendo Resenha de “Outubro”, por China Mieville
Nanquim
Já antes do mergulho, entregue apenas à aparência e à vivência que evoca, já antes do mergulho o mergulho é um mergulho. É que o nanquim é de um negro profundo, é a presença brilhante de uma textura robusta, ostentosa, ciente de si, provocante. Já antes do mergulho, portanto, só pela perspectiva do mergulho, o … Continue lendo Nanquim
À porta
Quando ele enfim nunca mais voltou eu pude, por um tempo, descansar. Pude olhar ao redor, pude olhar a mim mesma, pude ter medo, e então raiva, e enfim nojo - primeiro de mim mesma, mas depois, brevemente, dele. Contemplei, curiosa, a presença tão nítida dele em meus pensamentos. O nojo dele era uma presença … Continue lendo À porta
Imbedumehlwana
Começou. O suave tamborilar à janela me convida à varanda, de onde observo a garoa que principia a grande limpeza. Quem passa lá em baixo desapercebe o sinal, abre o guarda-chuva a guardar-se do que a todos parece um aborrecimento primaveril. Quem mais saberá que começou? Soará em meio aos povos o velho, continuado … Continue lendo Imbedumehlwana
Dá-me a tua mão #2
[Esse texto inscreve-se como comentário a "Dá-me a tua mão", publicado neste blog em 2012] Que a escrita seja, como dizem, solitária, pode até ser verdade - mas é ainda mais verdade que ela conjura sempre alguma companhia. Pode ser uma multidão, ou não. Pode ser um ou outro, ter ou não ter um rosto. … Continue lendo Dá-me a tua mão #2
A memória do elefante
If the elephants have past lives, yet are destined to always remember, It's no wonder how they scream, Like you and I, they must have some temper. And I am dreaming of them on the plains, dirtying up their beds, Watching for some kind of rain to cool their hot heads Rachael Yamagata, "Elephants" … Continue lendo A memória do elefante
Feed me
É claro que, vindo de onde vinha, ele tinha de fazer eventualmente uma ou outra colocação provocativa. Ninguém veria com bons olhos um midiático egresso da militância que não lançasse olhares ferinos, que não apontasse o dedo e desfiasse discursos tão astutos quanto venenosos. Era esperado dele – era isso que fazia ele vender, e … Continue lendo Feed me



