A memória do elefante

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If the elephants have past lives, yet are destined to always remember,
It’s no wonder how they scream,
Like you and I, they must have some temper.
And I am dreaming of them on the plains, dirtying up their beds,
Watching for some kind of rain to cool their hot heads

Rachael Yamagata, “Elephants”

 

É óbvio que eu não esqueci você, e é óbvio que nunca vou esquecer.

Você não me perguntou, eu sei.

Mas você me escreveu. Você agiu como se tivesse lembrado. Agiu como se quisesse que eu lembrasse.

Agindo como se fosse casual. Como se tivesse sido assim, espontâneo, e como se fosse pouco – uma lembrança como uma pequena sujeira entre a unha e a carne do seu dia. Como se tivesse se alegrado de me ver ali – uma sujeira entre a unha e a carne do seu dia.

Como se você tivesse esquecido, e como se pudesse lembrar.

E você viu uma coisinha na internet e lembrou de mim, você disse. E mais que isso, você lembrou de mim e pensou em me escrever. Mas não bastasse isso, você pensou em me escrever e efetivamente escreveu. E quando escreveu, escreveu como se tivesse sido assim, casual. Como pouco, ou como nada.

Depois de tudo.

Depois do nada.

E depois. E do nada.

Não é casual. Você sabe, e eu sei que você sabe. Você viu uma coisinha na internet, e eu já estava lá; eu já estava com você, conforme você se perdia na sua timeline, conforme você se perdia, dando scroll pra ver se eu ficava pra trás.

Eu já estava com você antes – você sabe, e eu sei que você sabe. Você seguiu, depois de tudo, e foi empilhando o que podia por cima de nós, e foi tentando se convencer que já não havia mais nada ali, e que as coisas podiam se entulhar umas às outras esquecidas de nós, e de mim; foi tentando se convencer que não era entulho. Foi tentando se acalmar, e se animar, e se apaixonar. Foi tentando viver, e viver outras coisas, e ser um outro alguém, com outros alguéns, foi fazendo com que fossem alguém para além de serem depois do que fomos nós.

E foi não dando certo.

Eu fui ficando ali. Eu estava ali.

Eu sempre estive ali.

E você viu uma coisinha, uma sujeirinha na sua timeline, alguma coisa entre a unha e a carne que sou eu em você, e agiu como se tivesse pensado em mim.

Não é um direito que você tenha. Você sabe. Você tem que saber.

Não podemos lembrar, porque obviamente não podemos esquecer.

É mais que óbvio que você não vai lembrar de mim, porque é mais que óbvio que você não me esqueceu, e não vai me esquecer.

E por isso – se não por todo o resto, por tudo que realmente importa – não me venha lembrar de mim.

Esqueça-me lá, inesquecível, e viva com a miséria que te cabe, e com o fato de que ela crescerá a cada dia. Viva com a miséria de saber que eu estarei lá, para aquém e além de qualquer entulho. Viva como quiser, ou puder, ou não viva, mas não venha como se pudesse me usar para tampar seus buracos, não venha como se pudesse me levantar acima de suas dúvidas.

Quanto a mim, é óbvio que não esqueci de você, e nunca vou esquecer. O que aconteceu, e que talvez te machuque – o que será uma pena pra você, mas que não me importa em absoluto – é que, muito diferente de você, eu tive a coragem de me odiar o suficiente para destruir a nós dois, mergulhei no lodo mais exíguo, sob o sol mais escaldante, e morri. Eu não te esqueci, e nunca vou te esquecer, mas eu odeio você, e odeio a sobrevivência de nós dois em mim, porque eu já não sou mais sua, e nunca mais serei sua.

O que estará com você sempre, porque eu sei, e quero que você saiba, é essa insistência de mim, essa insistência de nós, que não sairá jamais daí. Saiba disso, e lembre-se disso; guarde isso consigo e não tente, nunca mais, jogar isso em mim. Sobreviva como puder, ou quiser, ou não sobreviva – como você já deve ter entendido, eu não me importo. Não mais.

Um beijo, decidido e apaixonado como sempre, decisivo e definitivo como nunca.

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