Feed me

É claro que, vindo de onde vinha, ele tinha de fazer eventualmente uma ou outra colocação provocativa. Ninguém veria com bons olhos um midiático egresso da militância que não lançasse olhares ferinos, que não apontasse o dedo e desfiasse discursos tão astutos quanto venenosos. Era esperado dele – era isso que fazia ele vender, e era disso que ele vivia.

Tomava seu café gourmet, arabica cem por cento orgânico de algum recanto estranho do mundo, que custou nove reais e cinquenta centavos. O Macbook seguia piscando provocativamente a tela em branco, aguardando sua próxima estocada, sua próxima produção crítica. Seus clientes e leitores e advertisers e a assessora aguardavam: feed me. O café estava cheio a essa hora – estava cada vez mais cheio, por períodos cada vez mais longos, provavelmente em função do exército crescente de free-lancers, autônomos, independentes, home officers, free stylers, desempregados funcionais, não-funcionais, ganhando bem ou mal ou nada. Em meio a tanta gente profissionalmente alocada nas mesinhas e poltronas os velhos adolescentes cabeludos, as velhas jovens em Uggs e gritinhos agudos pareciam desaparecer.

Chegaria o dia em que estariam todos lá, produzindo material uns para os outros, curtindo páginas e fotos e vídeos que curtiam páginas e fotos e vídeos, uma máquina especulativa a gerar dinheiro acumulando sempre nos mesmos poucos bolsos.

Percebeu que queria comer alguma coisa. (feed me…). Falou a contragosto com a atendente – estranhou que ela parecesse, também ela, produtora de conteúdo, talvez uma crítica do sistema que escrevesse de seu emprego subalterno no Starbucks – e pediu um muffin de blueberry; irritou-se pelo excesso de estrangeirismos no nome do bolinho, mas pensou que se chamasse “bolinho de mirtilo” não venderia uma unidade sequer. Dez reais o bolinho de mirtilo. Dez reais o blueberry muffin. Deu-se conta que nem chamava “muffin de blueberry”, como ele pediu à atendente: chamava “blueberry muffin”. Não era um estrangeirismo, era um nome em inglês, pura e simplesmente. Menos mal?

Sinceramente, conquanto houvesse ainda dinheiro passando pelo bolso dele a caminho daqueles mesmos poucos bolsos, ele já não se importava mais. (feed me…)

E aí estava a questão: ele precisava se importar. Fizera seu nome assim, afinal: era um dos produtores de conteúdo raivoso, crítico de tudo, analisador das incoerências, era um dos apontadores de dedos. Precisava continuar apontando dedos e espumando críticas, esse era seu trabalho.

Pensou que se o blueberry muffin chamasse bolinho de mirtilo vegano orgânico integral sem glúten sem açúcar, se o Starbucks contratasse uma senhorinha e enchesse a loja de decorações hipsters misturadas com adereços de casa de vó, talvez o bolinho de mirtilo vendesse tanto quanto o blueberry muffin.

Pensou que aí o gosto seria diferente, provavelmente. Por conta daquelas maluquices pós-modernas da psicologia do consumidor e tudo o mais.

Imaginou-se “mudando de vida”. Se contratasse um manager habilidoso talvez conseguisse encaminhar sua persona em direção a outro nicho. Talvez pudesse falar de livros, fazer críticas mordazes a best-sellers de vampiros e garotas apaixonadas – era no fundo o mesmo público que consumia a espuma crítica e os dedos em riste, com o ganho potencial dos leitores mesmo dos best-sellers de vampiros e garotas apaixonadas.

Poderia começar a falar de coisas bonitas, incorporar alguns dizeres de auto-ajuda – começaria como se fosse sarcasmo, como se estivesse parodiando os best-sellers, e assim seguiria, discretamente, até que aos poucos virasse ele mesmo um autor de best-seller de vampiros e donzelas, de garotas apaixonadas e crises de meia idade e zumbis.

Eventualmente poderia escrever alguma coisa sobre Shakespeare com o Karnal, alguma coisa sobre a internet com o Pondé, discutiria 1964 com aquele otário da Jovem Pan.

Ganharia melhor.

O bolinho de mirtilo deixara uma sensação estranha em sua boca, como se ele tivesse tomado óleo. O gosto era bom, até, mas não tinha mirtilo naquilo de forma alguma – blueberry até que vai; blueberry pode ser.

Blueberry não existe – vendem mirtilo em alguns lugares, é verdade: mirtilo nas lojinhas saudáveis, mirtilo nas feiras orgânicas, mirtilo nas sobremesas de restaurante. No Starbucks não tem mirtilo: no Starbucks vendem o nada que é blueberry, fruto ocioso da mente de algum produtor de conteúdo, duas xícaras de marketing para cada bocado de pozinho, pozinho azul que se dilui no óleo e tem gosto de estrangeirismo, inflação, hype e cartão de crédito.

Se ele migrasse de setor, se produzisse conteúdo com mais abrangência e superasse a esquerda Vila Madalena talvez migrasse desse café gourmet para aquele outro, ali nos Jardins, mais gourmet que esse gourmet fake. Ali já não há uma garota de Ugg sequer – só os mais sofisticados home officers, só os YouTubers de Minecraft, as popozudas veganas, só a nata.

Aí, chegando lá, quem sabe ele poderia escrever bons textos críticos. Apontar o dedo. Fazer os discursos, a verdadeira crítica. Quando tivesse, enfim, chegado lá. Quando tivesse saído dessa zona cinzenta. Quando saísse nas imagens miúdas no alto da capa da Época, quando desse entrevista pra Brasileiros e fosse satirizado na Piauí.

Quando fosse tarde demais.

Quando ele fosse um deles.

Quem sabe.

feed me…

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