Dá-me a tua mão #2

[Esse texto inscreve-se como comentário a “Dá-me a tua mão”, publicado neste blog em 2012]

Que a escrita seja, como dizem, solitária, pode até ser verdade – mas é ainda mais verdade que ela conjura sempre alguma companhia.

Pode ser uma multidão, ou não. Pode ser um ou outro, ter ou não ter um rosto. Pode fazer companhia, pode organizar nossos medos, pode oferecer alguma guia.

Mas o escritor, ainda que só, não está só: há o papel branco, as idéias em polvorosa, há as estradas amplas e os recortes sombrios à frente; há o ter escrito, o estar ali para escrever, o ser ali alguém às voltas com a escrita; há as torções da língua, sua habitação na geografia íntima nossa, há as idéias e sua concatenação sempre contra-intuitiva; e há gente.Há sempre gente lá.

Escrevendo, ainda que só, o escritor não está só.

E quem vem lá?

É alguém – há de ser alguém. Está próximo, bem próximo, de forma que me conhece. Respeita-me o ritmo, escuta-me atento, não entende rápido demais.

Quem é?

Não tem rosto.

Mas veja, te conheço. Não me leve a mal, não há maldade nisso. E não se trata de não reconhecer quem você é, nem de deixá-lo de lado. Não é por nada; mas é que olha, veja bem: olhe à nossa frente: contemple a estrada

: contemple o nada.

Não é para que você não seja alguém, pois que, bem, de forma alguma. Mas é que, mais, mais além, estando você comigo, por estarmos assim entregues, e ao estarmos aqui, é menos de nós, e é mais disso, que nos rodeia, nos excede, nos sobra, e estamos bem.

Ao já não sermos nós, mas ao estarmos juntos, podemos, por um átimo, estarmos bem.

Sente?

Ao atinar, se atinar, é porque já passou. Há de ser etéreo, efêmero, como o ar; como o mar, como um lar, sem rosto e sem gênero.

Há de ser as ondas.

Sobrar-nos-á, e seremos lá.

Seremos lá enfim o que desde sempre já não fomos mais, o que sempre nunca pudemos ser, e mais que nós, fios, desencapados, um mar elétrico tão em paz consigo.

Sente?

Como ondas, não é?

Veja, então.

Veja.

Calma.

Pense menos.

Não é tanto. Não há de ser complicado.

Ondas, lembra? Ondas, num mar elétrico.

Medo?

É claro – mas tudo bem. Pense menos.

Pense menos, por baixo das coisas. Sob os radares. Seja furtivo. Não busque tanto o tino justo – há uma reverberação maior, menor, entregue às ondas.

Vê?

Venha.

E vá – solte minha mão. Deixe-se ir, pois que estarei aqui. Deixe-se

iridescente espaço das amplas ondas a refulgir dos raios ao repicar dos sinos, a flutuação plana e plena de um para além das coisas que me abraça para além do medo, é uma respiração, e é uma calma, e é um retorno de algo que nunca foi, e estarei aqui

Estarei, estive sempre, aqui contigo.

Pois estamos juntos, vê? É uma aventura nossa.

Um escritor, quando escreve, não está sozinho.

Pois há o papel branco, as idéias em polvorosa, há as estradas amplas e os recortes sombrios à frente; há o ter escrito, o estar ali para escrever, o ser ali alguém às voltas com a escrita; há as torções da língua, sua habitação na geografia íntima nossa, há as idéias e sua concatenação sempre contra-intuitiva; é claro que há tudo isso.

Mas mais que isso; sempre, e mais, há sempre gente lá. A gente, lá: no mar, elétrico, às ondas.

Sempre.

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