Chove. Chove e a vida tempo louco eu; eu. * * * ... chances as teve, muitas, várias, e a cada curva o novo se lhe afigurava velho Os traços nos rostos das pessoas eram rugas As marcas no asfalto era desgaste As flores eram o prenúncio da morte A brisa era frio e fome … Continue lendo o Deus triste das feias freiras
O errante e o flaneur
Vocês que estão no palácio Venham ouvir meu pobre pinho Não tem o cheiro do vinho Das uvas frescas do Lácio Mas tem a cor de Inácio Da serra da Catingueira Um cantador de primeira Que nunca foi numa escola Pois meu verso é feito a foice Do cassaco cortar cana [...] (Lirinha, Cordel estradeiro) … Continue lendo O errante e o flaneur
Ai se sesse ou Na ribeira desse rio
Eu quero; quero muito, quero sempre. Quero pra hoje e pra amanhã, pra mim e pra excesso, pro que dá e pro que falta. Quero um mundo, todo um mundo só de hoje - um mundo muito, de tudo um muito. Pra mim, e pra quem vai comigo. Pra mim, e pra você. Quero porque … Continue lendo Ai se sesse ou Na ribeira desse rio
Infinito
Calmamente o velho tece o Infinito. Ocupa o centro, sentado diante do fuso. Amplas colunas erguem-se paralelas - quatro delas emolduram o velho em seu ofício, os pares de colunas se seguindo a perder de vista de ambos os lados. Não se vêem as paredes laterais do salão - colunas e paredes se encontram no horizonte. … Continue lendo Infinito
Palavras têm gosto de nada
Para Jorge Luís Borges, que continuamente tem me surpreendido e mobilizado, são poucas as idéias - essas poucas idéias fazem-se muitas por serem pensadas de formas e ângulos distintos por homens distintos. Há escritores com tino para o efeito estético do uso das palavras, que transmitem aquela idéia que não é só deles de forma … Continue lendo Palavras têm gosto de nada
A mãe ficou irritada e decepcionada, e não quis que ele ficasse com ela na cozinha
Agora ele era rei. Se via de baixo, lá no topo, e o castelo alto, alto. Ele olhava a imensidão de seu reino; estava muito calmo. A seu lado, seu leão apoiava a cabeça nas patas dianteiras cruzadas, como se contemplasse também o reino. E agora ele tinha uma missão - os bárbaros invadiam seus … Continue lendo A mãe ficou irritada e decepcionada, e não quis que ele ficasse com ela na cozinha
Fragmentado
Dez dias de sequestro Uma vida de sequestro. A porta do carro subitamente aberta foi a mesma porta de ferro da vida que fechava, lá, lá fora - por fora. No mais, nada era real; os gritos, a coronhada, os empurrões, o barulho, aquele estalo no fundo - nada era real. Dez anos depois, … Continue lendo Fragmentado
Metido à Walcyr, metido a carrasco
Jamiroquai no mp3. A Paulista à minha frente, grandiosa. Gravata na mochila, mochila nas costas, terno jogado sobre o ombro - uma versão contemporânea, liberal do Rambo. E me arremesso, destemido, em meio à massa. Ao meu lado, no semáforo, uma moça. Bonita. Me olha - e eu, do canto do olho, vendo. Faz-me um … Continue lendo Metido à Walcyr, metido a carrasco
o que é singelo
Os passos na areia, andando-se para trás; saber-se dono dos próprios passos, sentir-se responsável por si e, por um segundo, livre. Surpreender-se feliz - e só feliz - num momento impróprio, lavando a louça, escovando os dentes, andando na rua. Sentir o som do próprio fone de ouvido contagiando o mundo, contagiando a si, espalhando-se … Continue lendo o que é singelo
Boneca russa
Ele saiu de casa atrasado, e a chance de chegar a tempo à reunião é mínima. O trânsito, pra variar, não colabora - como as pessoas dirigem mal! Alguém faz cagada lá na frente e as buzinas começam e vão ganhando adeptos a cada segundo, como um dominó, como MPB4. Obviamente as buzinas … Continue lendo Boneca russa
