A mãe ficou irritada e decepcionada, e não quis que ele ficasse com ela na cozinha

Agora ele era rei. Se via de baixo, lá no topo, e o castelo alto, alto.

Ele olhava a imensidão de seu reino; estava muito calmo. A seu lado, seu leão apoiava a cabeça nas patas dianteiras cruzadas, como se contemplasse também o reino.

E agora ele tinha uma missão – os bárbaros invadiam seus territórios. Se ele não impedisse eles saqueariam as casas,  queimariam as plantações. Seu navio seguia à frente da frota, singrando os mares em direção às barcas dos bárbaros (vikings?).

Ele ordena o ataque de sua frota quando se aproximam das barcas; as bolas dos canhões atravessam os navios – por essa eles não esperavam! Aproveitando a distração inimiga ele salta com seu leão, pula de seu navio direto na barca do líder, que assiste aterrorizado enquanto ele destróis seus inimigos às dúzias.

A luta com o líder é difícil, mas ele o derrota e volta à sua terra com seu prisioneiro. A população o aclama com vivas, pedaços de papel, flores.

E agora ele era um grande pensador. Dava uma palestra para as maiores personalidades do planeta: políticos, cientistas, grandes empresários. Ele emociona a platéia contando de sua difícil trajetória, de como começou do zero e fez todas as decisões que o tornaram o líder que hoje era. Contou de sua humildade e abertura, de como dava oportunidades aos grandes talentos e como recompensava os esforços de seus parceiros.

Ele apontava para os dados no telão; olhava nos olhos de sua audiência; ele gesticulava e conquistava a atenção de todos.

Termina sua fala com um convite emocionado a consertar as coisas, a unir esforços, a resolver os grandes problemas de nosso tempo. O público aplaudia de pé.

Apoiado em sua barriga, Bigo (seu cachorro de pelúcia) assistia compadecido sua tristeza, acompanhava suas aventuras. Bigo não estava muito bem, estava chateado – algo com sua parceira, e com seus filhotes, ele não sabia bem.

Ele suspira, deixa Bigo no canto da cama e se vira de lado; seu olhar vaga pelo quarto, perscruta seus brinquedos, o computador, a escrivaninha. Ele suspira de novo, e fecha os olhos.

Vira-se de lado na cama e dá de cara com Bigo; Bigo está todo torto na cama – de ponta-cabeça – olhando, ainda, para ele. Pega-o pela orelha e joga-o longe, para o outro lado do quarto.

Ele já sabe o que caiu quando ouve o barulho de vidro quebrando. Vira-se imediatamente, mas a esperança de ver outra coisa foi em vão: o pinguim fora irremediavelmente quebrado, espatifado no chão.

Bigo caíra voltado para a parede, já não olhava mais para ele. Do pinguim já não restavam olhos – só a cerâmica espalhada pelo chão.

Talvez sua mãe subisse – e aí? Sentado com os joelhos cruzados sobre a cama, a respiração ofegante, o olhar se alternava – rápido, rápido – do pinguim espatifado para a porta, da porta para o pinguim espatifado. A mãe não abria a porta – será que ela vinha?

O susto, o medo foram passando; ele foi ficando triste. Lembrou de seu pai com ele no shopping olhando as vitrines das lojas, aquelas conversas que ele entendia – não-entendia; o pai o puxa de volta, aponta para o pinguim, fala “vou comprar pra você, pra você pôr em cima da geladeira da sua casa quando estiver grandinho”.

Já tinha quase um ano que o pinguim estava lá, lá na prateleira mais alta, ele e o leão de pelúcia.

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