Metido à Walcyr, metido a carrasco

Jamiroquai no mp3. A Paulista à minha frente, grandiosa. Gravata na mochila, mochila nas costas, terno jogado sobre o ombro – uma versão contemporânea, liberal do Rambo.

E me arremesso, destemido, em meio à massa.

Ao meu lado, no semáforo, uma moça. Bonita. Me olha – e eu, do canto do olho, vendo. Faz-me um bem sem tamanho, moça!

“Cosmic Girl/ can’t you be my cosmic woman”…

Verde; sigo meu rumo.

Ultrapasso um cachorro – parece labrador, não sei bem – passeando seu velhinho. Não parece que ele se diverte muito (o velhinho), mas o cão bem sabe que ele precisa desta diversão e deste exercício; o velhinho concede e ainda se faz passar por bom-moço.

Hoje eu posso, hoje é dia. O cinza do céu reflete o cinza do asfalto e do concreto, o cinza dos ternos dos apressados, contrasta com o colorido vivo das atrevidas roupas das atrevidas moças – um belo dia para ser paulistano.

Paro no Rei do Mate. “Um mate com leite e um copinho de pão de queijo”. “fica com o troco!”. “Ah, você não pode? Tá, então eu espero”. “Bom dia, bom trabalho!”.

Passeio os olhos na banca. O futebol… o diplomatique… InfoWeb… Você S/A. “Esqueço” o resto dos pães de queijo lá, do lado da Deborah Secco – doze é muito.

Mais um farol; danço miúdo com as pontas dos sapatos.  “We’ll spend the night together/ wake up and live forever”.

O farol abre e as calçadas se lançam uma contra a outra, os olhares certeiros se focam em seus trabalhos e esposas, as moças coloridas e os homens cinzas se misturam e completam em duas barreiras. O embate é inevitável, e eu nem vejo.

Um cinza, enorme e desajeitado como um – também cinza – elefante africano me “ombreia”; mais leve em vários sentidos, despreparado, seguro a custo meu ombro de um volteio 180 graus, à la catraca de banco. O fone de ouvido cai, bate no asfalto, eu tento coordenar a recuperação do fone com o olhar assassino (uma nova forma de satirizar o Rambo, inaudita) para o elefante africano; já não sei mais qual deles é o que me atropelou, e meu assassínio se perde na massa cinza.

O fone de ouvido dá um trabalho antes de ceder e encaixar na orelha, e eu me irrito.

A pasta do Jamiroquai acabou, e toca Johnny Cash.  “Well you wonder why I’m always wearing black…”.

Pulo a faixa, ponho “Hurt”.

 

4 de março

 

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