Boneca russa

Ele saiu de casa atrasado, e a chance de chegar a tempo à reunião é mínima.     O trânsito, pra variar, não colabora – como as pessoas dirigem mal! Alguém faz cagada lá na frente e as buzinas começam e vão ganhando adeptos a cada segundo, como um dominó, como MPB4. Obviamente as buzinas não resolvem o que quer que seja que o incompetente fez, e o farol fecha – mais uma vez – sem que ele tenha engatado a primeira marcha. Ele vira o rosto para o lado, bufando, e repara no carro ao lado – janela aberta, a moça canta com o rádio feliz da vida; como pode? Ele liga o rádio, sem perceber.

São 130 quilômetros de lentidão em São Paulo, sete e quinze da manhã. E hoje é o último dia da exposição “Kafka e o labirinto” no MUBE, ingressos a quinze reais.

Kafka constrói suas novelas como labirintos: as partes remetem umas às outras e a sequência do texto é entremeada de referências internas e curvas em falso. Somado o estilo do autor às frequentes passagens oníricas e surrealistas, o efeito no leitor é de estar perdido em meio à trama. Muitos tratam este efeito como um antecedente visionário e um representante fiel dos mecanismos sociais contemporâneos, da vigilância eterna e deslocamentos contínuos a que as pessoas são expostas. Pensem, por exemplo, no labirinto enlouquecedor de uma ligação a uma agência de teleatendimento… [risadas dos visitantes, como de hábito… “ai, como eu vou aguentar até às 18h?”, ele pensa].

“Senhora, para efetuar esta operação eu terei de repassá-la ao setor responsável” […] [ela cutuca a cutícula do anular esquerdo com  a unha do indicador direito; pára com uma careta quando sente a dor; pensa que provavelmente vai sangrar. ‘Saco’, ela pensa]. “Eu entendo, senhora, mas eu não tenho acesso aqui no sistema para efetuar a operação que a senhora solicitou; para efetuar a operação terei de passá-la ao setor responsável, ou a senhora mesma pode estar ligando lá pelo código *456”. [o esmalte vai cedendo conforme ela raspa a unha do seu mindinho esquerdo com a unha do indicador direito]. [ ‘Ai, ele não podia ter dito aquilo ontem. No intervalo eu vou ligar pra ele e ele vai ver o que é mulher de verdade, pilantra’]. [A supervisora passa e ela acaricia a parte interna da mão com os dedos, escondendo  as unhas e sentindo-se descoberta; a supervisora passa sem falar nada, mas ela continua com o coração acelerado]. “OK, senhora. Mais alguma coisa em que possa ajudá-la?”.

– Não! Não! [ela chora] Você acabou comigo, acabou com a minha vida, e agora vem com essa cara lavada me fazer passar por vilã no tribunal? Você não presta! Espero que você morra!

Ninguém esperava; a mãe está desconsolada, chora copiosamente no banco lateral da sala de velório, consolada pela irmã. O pai não chora, acalma e agradece todos que se dispõem a ouvi-lo, a ajudá-lo, oferecem conforto – ele não quer conforto, nem falar, nem ajuda; só não queria estar ali. Só sente, de alguma forma, que não está ali, que nada daquilo é real. Seus pensamentos vagueiam por sua vida, retomam problemas prosaicos, discussões mesquinhas com o filho, os momentos que passou com a Amanda ao invés de ficar com a família. A cena dele caído no chão o assalta, viva como se ele estivesse mais uma vez lá. Passa-se uma certa comoção quando ele desmaia.

! Ele acorda sobressaltado, o coração acelerado, o suor escorrendo pelo rosto e peito. A Ana não está deitada ainda – onde ela estará? Não importa – ele precisa ver se o filho está bem. Vai ao quarto do filho, mesclando o desespero e a vontade de não fazer barulho e a vontade de não chegar ao quarto e a vontade de ver o filho dormindo tranquilo; abre a porta vagarosamente. O filho não está lá, a cama não está desarrumada, não há sinal de que ele tenha passado em casa. O que aconteceu?

Ela olha a página em branco do espaço para a mensagem em seu celular; sente que precisa escrever algo logo, mas nada lhe ocorre. O tempo passa, já são mais de duas da manhã. O que escrever?

Ele olha a página em branco; olha o copo de whisky vazio. Ele é um fracasso, um fraude, e sabe disso. O contrato mudou sua vida e ele pensou que era uma bênção, mas é uma tragédia. Como ele pôde se comprometer a continuar escrevendo coisas daquele teor? Ele nunca soube como aquelas coisas saíram dele; agora a nascente secou, o espetáculo acabou, as cortinas se fecham e ele não sabe o que fazer.

Os aplausos duraram mais de cinco minutos, disse o agente. “Você é o futuro, eles te amam!”; amam? O quarto do hotel, vazio, escuro, não ajuda a sustentar o entusiasmo. Ele chegou ao quarto fora de si, e o banho quente foi assistindo ele murchar; sentou na cama – na mesma cama em que sentara exultante dez minutos atrás – como se carregasse um peso enorme, como se viesse de um dia horrível. Como as coisas são difíceis!

Depois de muita raiva e uma irritação absurda por um tempo intolerável [cinco minutos] chega ao semáforo; a luz amarela acende assim que os carros à sua frente começa a andar, e ele teria de esperar – ah, não! É muita injustiça! Por que? Ah, não! Ele acelera; o farol vermelho acende e testemunha seu crime, inabalável; ele vê o fiscal da CET na ilha central, observando seu carro passando, apanhando o bloco de notas – inabalável. Ele é forçado a parar entre os dois sentidos da avenida, em local proibido. Fica lado a lado com o fiscal da CET, que termina sua anotação no bloco e vira-lhe as costas, indiferente. O Sol aperta; a gravata aperta; os carros passam perto do seu carro, perto demais. Como pode?

Ele sabe que é proibido; e daí? Essa cidade vive proibindo tudo, só se pode mesmo é viver como um velho chato, usar um terno chato – isso tudo é um porre! Ele pula o muro e senta entre duas “quadras”, de frente à família Andrade, por um lado, e Moreira, de outro. Na família Andrade morreu muita gente, já; na Moreira nem tanto – uma criança que morreu ano passado com nove anos e um jovem que morreu aos dezoito… hoje! Nossa! [ele sente um estranhamento, fica desconfortável e agitado]. Quando o resto do grupo chega – cinco, três meninos e duas meninas – ele propõe que eles vão jogar em outra “rua”, sem dizer por quê. O Pedro logo descobre, eles caçoam dele, e jogam lá mesmo assim.

– Joga aí mesmo! É, joga, sim! Não, não dá nada. Só faltava essa mesmo, ter que pagar pra jogar lixo fora! Não, relaxa, com certeza alguém vai passar e pegar – onde já se viu? Em São Paulo nada se perde, fica tranquilo. Mas vê bem se ninguém te vê, você sabe que não pode!

(Master, tape 1, 14’25”): “Não, eu sei que é assim mesmo. São Paulo é isso, aqui todo mundo vê tudo e ninguém vê nada; eu nem sei mais se eu acho ruim, eu acho que aprendi a viver com isso. Agora, a verdade é que eu tiro a maior onda, né, porque passa esse pessoal cheio da nota, cheio de si, cheio de marra, e eu aqui, com o meu dog, com minha carroça, minha lixeira… esse povo se mata pra não fazer feio e eu, fácil fácil, moro há dez anos no ponto mais chique da cidade – e olha só, ainda dou entrevista pra boyzinho da USP, saio em documentário, passo no cinema e o caralho”.

 

W, 23 de fevereiro, à margem de Luiz Ruffato

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2 comentários sobre “Boneca russa

  1. Lenara

    uma pessoa que transforma as buzinas do transito de sao paulo em mp4, merece meu aplauso! =)
    mais um, parabéns!
    beijos querido.

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