Palavras têm gosto de nada

Para Jorge Luís Borges, que continuamente tem me surpreendido e mobilizado, são poucas as idéias – essas poucas idéias fazem-se muitas por serem pensadas de formas e ângulos distintos por homens distintos. Há escritores com tino para o efeito estético do uso das palavras, que transmitem aquela idéia que não é só deles de forma única e singular, que movem os homens que os lêem com o encanto do ato de leitura. O que diferencia um clássico de um melhor- livro- dos- últimos- tempos- da- última- semana não é a idéia: é a forma como aquele texto toca os homens que o lêem, cala fundo em cada um e torna-o constante em cada um deles, como um segredo bem escondido que não sai da cabeça, estejamos no supermercado ou na guerra.

Compor aquele texto que move o íntimo e cala fundo depende muito pouco do talento: isso porque talento é uma facilidade, uma propensão a fazer bem, e um belo texto não se escreve por “saber como”.

É curioso… há algum tempo escrevi um texto criticando um psicanalista que escreveu que um bom autor se faz ausente, torna-se transparente para que a idéia se expresse pura e sem a intromissão do autor. Esse cara (Thomas Ogden) parte de uma colocação de Borges, em que Borges diz que Shakespeare teria sido um não-homem, e por isso pôde ser com tanto esplendor tantos homens tão distintos.  O que eu disse, na época, é que um bom autor se coloca, sim, mas mobiliza a si mesmo num processo que o transcende, e com isso escreve algo que toca; o bom autor não é aquele que se omite, mas aquele que se esforça.

Pois bem, acho que não penso mais assim. Não é que tenha mudado de idéia: acho que avancei minha idéia. Hoje queria propor que o bom escritor é aquele que escreve “apesar de si” – e, apesar disso, movido por algo que só em si ele encontraria.

Como assim? É simples: considero boa literatura, para começar, aquela que trata de algo para além da técnica. Se escrevo um texto sobre algo que eu sei isso pode ser academia, pode ser técnica, pode ser um manual, mas dificilmente será boa literatura. Isso pelo simples motivo que o que efetivamente toca o humano é mais simples e mais primitivo que uma disciplina, uma ciência, uma ferramenta ou um objeto – algo como som e fúria (já que falamos de Shakespeare).

Por isso um autor que foca nas técnicas, nos saberes e nos recursos escreve um texto muitas vezes bom, muitas vezes de sucesso, mas dificilmente belo – e se belo, dificilmente clássico. Um bom texto – um texto clássico (quem trabalha com a idéia de clássico deste jeito é o Borges, num texto que chama “sobre nos clássicos” e que consta de Outras Inquisições) – é um texto que trata de temas vagos, muitas vezes indefinidos, limítrofes ou subjacentes à superfície do texto. Ao mesmo tempo, e da mesma forma, o bom texto encontra seu valor nos limites do compreensível pelo autor, muitas vezes francamente incompreensíveis a ele.

Lembro agora de um fenômeno: algumas vezes em que escrevia deixei-me ir em algum momento, “apaguei”, e voltei a mim após algum tempo escrevendo com uma consciência apenas parcial do que fazia. Nesses momentos acho que estava às voltas com algo que apenas começo a compreender, pontos que estaria em vias de cercar, mas que sempre, e necessariamente, me escapam – e me escaparão.

Algo como Pontalis, que diz que a psicanálise opera nos confins: psicanálise é psicanálise quando está no limite, quando o psicanalista está nos limites, quando leva seu pensamento às bordas do ciente; isso porque a psicanálise s configura por operar sobre a resistência, e é só assim que funciona e é só por isso que ela tem valor e particularidade. Quando se faz psicanálise na ortodoxia, segundo o manual… bom, algo se ganha, sim, mas aí poder-se-ia (também) falar de “psicanálise morta”, ou simplesmente de “conformismo”.

No campo da literatura vejo algo semelhante; o bom escritor – não no sentido da técnica, mas da ética – funciona como as matilhas de Deleuze: sempre em busca das bordas, nas periferias, pelas vielas obscuras do pensamento.

Lá onde se fundam as camadas mais primitivas de socialização.

Lá onde o singular se dissolve no infinito.

Lá onde o particular é múltiplo, o singular é universal, o verdadeiro é coletivo.

Lá onde o escritor, na raiz de si, se transcende.

No umbigo invisível de onde nascem os sonhos. Para além de si, apesar de si, na raiz do si mesmo. Aí o autor não se torna transparente. Não; aí o autor se encontra com o que não sabe, as verdades mais radicais que ele esqueceu antes de tudo.

Gosto de escrever; levo a escrita a sério. Espero, um dia, ser um bom escritor; mas não como os bons escritores que vendem muito, ou cujos escritos se lêem fácil: quero a boa escrita que faz acender algo na intimidade de quem lê – como um fascínio, como uma chama, como a paixão pelo que no humano é mais humano.

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