Fragmentado

Dez dias de sequestro

Uma vida de sequestro.

 

A porta do carro subitamente aberta foi a mesma porta de ferro da vida que fechava, lá, lá fora – por fora. No mais, nada era real; os gritos, a coronhada, os empurrões, o barulho, aquele estalo no fundo – nada era real.

Dez anos depois, dez segundos depois, na feia casa se fechava a feia porta de madeira. Torta, a porta deixava passar um facho de luz.

Dez dias?

 

Não. Uma vida.

Toda a vida.

A porta eventualmente estourou. Entrou gente. Mais gente ainda esperava lá fora, muita gente. Eles perguntavam coisas, não sei quais. Eu respondia coisas também, não sei quais.

Eu me vi depois algumas vezes, numa rua escura; alguém sorria, e pegava meu dinheiro, e me dava um saco preto. E eu ia pra casa. De uma pra outra vez que eu me encontrava lá muito pouco mudava

E eu deixava a porta semi-fechada. Por cima da porta passava um facho de luz, e o quarto escuro, e eu lá, cada dia menos lá, a cada vez menos lá.

E um dia a cama, e a porta, e os muitos fachos de luz pela veneziana mal fechada, e as seringas jogadas no chão pelo chão sobre o chão, e eu lá.

Eles não vinham; ninguém vinha me salvar.

Um dia eu me vi na rua, caído. Meu braço direito sangrava.

Mas não doía.

não doía.

Por cima da porta aquele facho de luz. Mas ninguém vinha me salvar.

Ninguém veio me salvar.

Dez anos, acho. Uma vida, acho. Mas não sei, nunca mais vi.

Minha vida – nunca mais vi, nunca mais sei.

O Pedro me encontrou na rua um dia desses – nem eu estava lá na hora, mas depois cheguei. Fazia tempo. Quando vi, quando o vi, aquela cara de pena e de desgosto já não passava luz alguma; eu não me ouvi e não sei, mas eu falei alguma coisa – e a cara foi embora, primeiro a de pena, depois a de raiva, e o cara foi embora, Pedro. Raiva, raiva, raiva, muita raiva ele – o que eu teria dito? a porta de madeira lá; e eu lá;

 

a pouca luz, fraca luz por cima da porta

e ele, primeiro gentilmente,

depois grosseiramente,

fecha.

 

Acordou no hospital. Quem? Quem era eu?

Alguém chamou, falou um nome, e deu pra ouvir uma resposta que saía de mim.

Onde me foi o mundo?

Três dias depois o hospital liberou – “de alta”, diziam – e a rua do lado de fora fechou a porta. Por sobre os prédios aquele mesmo facho de luz, e já não havia a menor esperança de eles virem me salvar.

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