O caminhão passa, perto demais de mim passa. a lufada de ar quente, o cheiro do concreto e do pneu queimando me atingem desde a nuca, o concreto quente aos meus pés mais marcante em mim agora. A areia entra nos meus olhos, no meu nariz. Como posso eu expiro com força, passo a … Continue lendo Rodovia Presidente Dutra, quilometro 110
Às margens do tempo
Pequenos ou grandes, velozes ou vagarosos, ocupados por taciturnos ternos ou preocupados velhinhos, eles passavam, e passavam, e passavam - carros, ônibus, caminhões; em algum lugar próximo a ele um trem passava, ruidoso. A hostilidade do alarido urbano e uma espécie de claridade excessiva estavam-no deixando zonzo. Ele olhava. Parado na calçada, o corpo … Continue lendo Às margens do tempo
Marcha inexorável
Quando ele sentou na mureta para terminar em paz a conversa com a Amanda já reparou nela; enquanto a Amanda relatava como o Breno passou mal e como a Ana ficou com um cara com quem nem chegou a conversar ele, já menos interessado, contemplava a moça, e foi ficando embasbacado: ela não estava olhando para … Continue lendo Marcha inexorável
Âncora de mar aberto
Sem o mar aberto e o desalento, sem o ar frio a me apertar o peito, se em mim houvesse outro jeito quem seria de mim? Tendo estado inquieto ao longo da tarde, fui tomado no início da noite por uma euforia morna ao começar a acalentar em mim a idéia da ligação. Ela, … Continue lendo Âncora de mar aberto
Madrugada em Curdistão
Se fosse um homem sozinho, se fosse louco, se usasse drogas ou se fosse personagem de um livro essa sensação de irrealidade certamente seria mais razoável; mas assim, com a esposa tranquilamente dormindo ao seu lado, com os amigos, o emprego, a rotina - de onde vinha essa sensação de que nada disso é … Continue lendo Madrugada em Curdistão
O homem extemporâneo
Ele está cansado. Sem que tenha feito nada ao longo do dia, está cansado. Digladia ferrenhamente dentro de si para pôr-se em marcha, envolver-se de ofícios e enganos, mas nada parece funcionar; mais uma vez o dia parece perdido. Mais uma vez parece fadado a sofrer, sofrer consigo, sofrer em silêncio, sofrer imóvel, … Continue lendo O homem extemporâneo
A branca página
O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. - Fernando Pessoa, "autopsicografia" Respeitoso aos seculares princípios de nossa ordem, desde o início de minha contribuição literária a tão dileto grupo observei discrição absoluta quanto às vicissitudes cotidianas de minha existência, tecendo minhas crônicas … Continue lendo A branca página
Refulgir da matilha
Um pernilongo zune, e passa. A canela coça, e ao coçá-la os pêlos fazem um leve barulho de lixa. De alguma forma lembra uma cigarra. Uma formiga passa carregando uma folha que, nela, parece imensa; a cena é de uma beleza levemente engraçada. O rio corre manso, apesar de cheio; um galho caído corta as … Continue lendo Refulgir da matilha
Vertigem
Dá quase vontade de ser pego no corredor, subindo as escadarias com uma garrafa de whisky e um baseado na mão. Seria bem engraçado, na verdade. A cobertura continua esquecida, mal-cuidada; acho que ninguém nunca vem aqui. Apesar do descuido é um lugar até agradável, com a solidão, e a vista, e o … Continue lendo Vertigem
Tomo em mãos o mais agudo cinzel
Dulcinéia, saiba, antes de mais nada, que escrever-te me dói mais que tudo. Desde o primeiro dia em que fomos felizes juntos, ou ainda antes: desde o primeiro dia em que fui feliz com a perspectiva de um dia sermos felizes juntos soube, como se sabe o azul do mar, que não viveria sem … Continue lendo Tomo em mãos o mais agudo cinzel


