O homem extemporâneo

  Ele está cansado.

  Sem que tenha feito nada ao longo do dia, está cansado. Digladia ferrenhamente dentro de si para pôr-se em marcha, envolver-se de ofícios e enganos, mas nada parece funcionar; mais uma vez o dia parece perdido. Mais uma vez parece fadado a sofrer, sofrer consigo, sofrer em silêncio, sofrer imóvel, prostrado. Ergue-se na cama, apoiando-se sobre os cotovelos; olha em volta, respirando profundamente – está angustiado, sabe que está angustiado. Precisa fazer alguma coisa, mesmo sabendo que não pode.

  Não consegue evitar por muito tempo, e logo seu olhar volta-se para si mesmo, olha-se dentro de si. Cruel e assustador apesar de impassível, o homem extemporâneo o encara.

  De um salto levanta-se da cama.Depois do fiasco do café da manhã, o que poderia fazer?

  Caminha em meio às pilhas de material na sala; em meio aos papéis há um livro, ele sabe disso; poderia ler o livro.

  “O caminho para a sabedoria”; Vera Lúcia Lemos, ditado por Verônica. Verônica… será uma extemporânea?

  Sem rosto, como sempre, o homem extemporâneo está irritado; o que será? O que poderia fazer?

  Ele é burro, e sabe disso; de qualquer maneira o homem extemporâneo não o deixa esquecer. Se lesse sobre sabedoria talvez entendesse alguma coisa; talvez pudesse lidar melhor com o homem extemporâneo. Talvez conseguisse comer, ou dormir, ou sair à rua, ou tomar banho, ou estar só em paz.

  Deveria ter percebido que o caminho não era aquele; deveria ter percebido a ira do homem extemporâneo e respeitado seu desejo, mas não: abriu o livro, tentando conter as mãos que tremiam, tentando controlar o coração disparado, tentando concentrar a mente que se povoava de pó e ruído;  “A vida, como a conhecemos, nada mais é que um engano, a camada mais superficial das muitas camadas do Eterno”.

  O cetro bate majestoso no vazio, e o impacto se faz sentir imediatamente na parte baixa de sua nuca; projeta a cabeça à frente em um reflexo, já sentindo a consciência escapar, a neblina se formando diante dos olhos; o homem extemporâneo está de pé agora, mais brilhante do que nunca – ou não, isso ele não pode saber. O homem extemporâneo fala, ele certamente fala, mas ele não consegue ouvir nada, e não distingue nenhuma evidência incontornável de que ele fale, já que ele não tem rosto. Em torno do velho tudo faz-se cinza, e o ruído é infernal, como um trovão sem fim; como uma nuvem que se aproxima o velho desce sobre ele, tornando-se mais imperativo, e assustador, inelutável. A essa altura ele já não tem mais consciência de ser alguém, ou de seu corpo, ou de ter um corpo, ou de estar em sua sala, ou do sofá sobre o qual senta – o homem extemporâneo é tudo que é, terrível em sua ira e resplandescência, nada mais há além ou aquém dele.

  É a punição; é o preço. Todo seu corpo treme, enrolando-se sobre si mesmo; em pouco tempo desmonta do sofá, caindo no chão, em pouco tempo assumindo posição fetal. Sua profusamente, seus joelhos batendo contra o móvel da televisão, suas costas batendo contra o pé do sofá. À volta do homem extemporâneo tudo revolve, aberta tempestade – tornado, tormenta; tormenta.

 Algo se fecha lateralmente, o teto e o chão colapsam sobre seu corpo, seus ouvidos sentem a aproximação sem que ele chegue a vê-la, em pouco tempo sente-se esmagado – esmagamento que não cessa a compressão, esmagado mais e mais para além de qualquer limite imaginável.

  O homem extemporâneo projeto seu corpo à frente ameaçadoramente, e ele pode antecipar com terror e com seus olhos, mesmo que estes nada vejam, a fúria do velho terrível esmagando-o entre seus dedos. As paredes se fecham sobre ele repetidas vezes agora, e ele sente seu corpo esmagado a cada investida; o trovoar do homem extemporâneo explode, destruindo o mundo em cores e ruído.

  Ele contempla aterrorizado o fim e o começo de tudo; ele contempla a Criação.

  À sua volta, envolvendo seu corpo, ele vê as ondas recém-criadas quebrando sobre a areia branca; o sol e o vento o envolvem enquanto ele é o vazio, enquanto ele é o tudo e o nada.

  Agora ele é uma criança montando um cavalo, puxada gentilmente por um pai forte e bom que reluz o sol e o vento.

  Quando volta a ter um corpo, já sente falta de perdê-lo novamente. Inelutável, o corpo se impõe – ele volta a si, a seu corpo, a seus órgãos que dóem dentro de si, à sua cabeça que dói horrivelmente; sente o carpete sobre si, sente o cheiro de pó e a umidade da baba acumulada sob sua bochecha. Seu joelho dói, e suas costas, e sua cabeça – sua cabeça, como dói!

  Levanta-se aos poucos e encosta as costas contra a parte baixa do sofá, ainda sentado no chão. Está cansado, terrivelmente cansado. Precisa sair daquela condição, precisa fazer alguma coisa, sente a pressão da angústia contra seu peito. A simples lembrança das dicas que lhe deram, das atividades que sugeriram lhe causa desespero. Olha à sua volta em busca de nada, e não encontra.

  Pensa nos remédios; pensa em um banho; pensa em pular da janela. Sabe que não pode deter-se sobre nenhuma das idéias – sabe que não é nada, e que é burro demais. Pondo-se trabalhosamente em pé, caminha hesitante pela sala. Vai em direção ao quarto, onde poderá se deitar sob os cobertores – sete agasalhos, sete cobertores, assim manda o homem extemporâneo – fetalizado, contido, protegido. Impassível, sem rosto, vigilante, o homem extemporâneo o lembra que esse é seu destino, sua dor necessária. Cansado, terrivelmente cansado, ele logo dorme.

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