Âncora de mar aberto

Sem o mar aberto e o desalento,

sem o ar frio a me apertar o peito,

se em mim houvesse outro jeito

quem seria de mim?

   Tendo estado inquieto ao longo da tarde, fui tomado no início da noite por uma euforia morna ao começar a acalentar em mim a idéia da ligação. Ela, obviamente, ainda não sabia, não tinha como saber – e no entanto sentia em meu íntimo uma certa elevação do conceito que ela poderia fazer de mim em função de tão insólita intimidade. A essa altura sabia que mais cedo ou mais tarde ligaria, mas aproveitando em mim as sensações da expectativa e da iminência demorei-me em pequenas diligências; findas as diligências ocupei-me com um cappuccino que tomei com falsa sensação de grandeza e poesia encostado à janela. Uma parte desagradável de mim me culpava, julgava-me infantil e até mesmo falso por toda aquela melancolia alegre com ares francófonos. Grosso modo pude me manter indiferente a esse incômodo e em pouco tempo, tendo lavado a xícara e escovado os dentes, deitei-me no sofá, o telefone à mão.

   Oi! Tudo bem? Já estava pensando que você não atenderia; incomodo? Pois é, faz bastante tempo mesmo – ando meio ocupado com o projeto por aqui, quase não saí nos últimos dois meses. Não, está indo bem, sem problemas, acho que é só uma espécie de retiro espiritual, busca por inspiração ou coisa que o valha. Sei… é, eu também não acredito muito em inspiração como uma coisa transcendente, não, estava mais me inspirando na cultura popular, sabe como é? É, imagino que a ligação surpreenda, mas não se preocupe, não é nada grave ou urgente. É que estive aqui pensando em umas coisas e achei que você poderia me entender; por onde será que começo? Pensei que é engraçado o quanto nos submetemos a um uso medido, comedido, contido da linguagem, e de nós mesmos, nas relações com os outros; já pensou nisso? Estive pensando que seria curioso se eu pudesse, se me fosse possível encontrar alguém e deixar-me ir, falando sem saber sobre o que falo, falar e só falar. Sabe o que é isso? Pensei como seria se um encontro pudesse ser assim, se em um encontro eu fosse de mim o que eu nem sei quem sou, e você, no caso, fosse comigo aonde não nos reconheceríamos – e penso aqui que isso pode soar como um flerte desajeitado, mas não, não é nada disso! Penso que nos falamos uns aos outros como se pudéssemos um dia nos entender, e esse falso acordo pré-estabelecido fica como que a prender-nos ao porto às margens do vasto mar, ou pior, como uma âncora a prender-nos em meio ao vasto mar, sem referência e sem destinação possível – só horizontes parcamente discerníveis a estibordo e a bombordo. E foi nesse ponto que te liguei, para que talvez você pudesse me acompanhar; imaginei que pudéssemos viajar pelos vastos mares, coisa que sozinhos certamente não faríamos – eu poderia, é claro, devanear sozinho ou deixar-me perder em pensamentos, mas sei que eles são indelével, inexoravelmente meus, por mais que me sinta ao sabor das ondas e do vento sei que a âncora está lá em baixo em algum lugar. Fiquei pensando se poderíamos viajar juntos, mas agora penso: como poderíamos viajar juntos, se não sabemos aonde vamos? Como vamos juntos, se partimos de pontos tão distintos? O que nos resta, creio eu, é que você, pelo simples fato de existir, me permita viajar – e eu, de minha parte e em virtude da minha existência, te permitiria alguma coisa parecida. Ficaremos os dois como solitários viajantes a fazerem-se companhia, eu viajando a te ver me vendo, como se me visse, e você se permitindo quiçá uma viagem decolada a partir da minha existência e continuidade, como uma pista de aeroporto. Você seria para mim, e acho que é o que poderia ser, o pai ou a mãe sentado à beira do parquinho, a barra que sustenta o balanço, o começo e o fim de uma viagem que é de partida um erro, mas um erro bom. Mas será que você poderia viajar? Se você viajasse você se perderia de mim, bem o sei; eu, claro que eu me perco de você – acho que estamos perdidos nesse exato momento – mas a diferença é notável, é de minha concepção de uma viagem que partimos. E agora, como prosseguimos? Eu teria, acredito, que me amarrar em uma lógica, fiar-me em um horizonte alucinado, prendê-la a alguma âncora para que pudéssemos prosseguir; mas, se é disso que se trata, por quê não seguimos de uma vez caminhos distintos, eu retorno ao meu projeto e você ao que quer que seja que estivesse fazendo? Não quero, nunca quis, envolvê-la em um prosaico entretenimento, eu contando de aventuras mais ou menos verdadeiras – quis perder-me, quis que nos perdêssemos. Não vejo saída, estamos presos: todo engodo está deflagrado, todo horizonte leva de volta ao ponto de partida, estamos inevitavelmente amarrados ao cão amarrado ao poste. Se há um caminho, e espero que haja, é sabermos que quando nos desligarmos você não volta mais aos seus afazeres, e eu não volto mais aos meus, portaremos o estigma do fracasso conosco ao que façamos – não sei se isso é bom, mas me parece melhor que um bom engano. Pense bem: não voltaremos à estaca zero. O que quero acreditar é que essa conversa se encerra como um sonho caindo, como o chacoalhar de ossos na partida e o marcado trepidar das luzes a luzir e do relógio a tiquetaquear. Seguimos viagem, certamente seguimos viagem, e certamente não nos marca uma nova luz ou uma grande descoberta, isso não: se algo muda é a noção da própria densidade do dia, a noção de que somos no tempo e que o tempo que passa nos passa também. Fica, a mim ao menos fica, a noção de que estamos perdidos de ilhas da alegria e potes de ouro nos fins dos arco-íris, e essa noção me dá o peso para seguir viagem. Curioso, não, é, eu achar que um peso ajuda a seguir viagem? Mas eu acho que é isso mesmo, acho que é isso que sai de mim como verdade – nada de novas levezas, nada de grandes circulações livres – o peso de seguir viagem. E isso me faz perceber, sem que eu possa perceber porque o faz: eu te liguei não pelas promessas das teorias que construí da solidão que vivo; eu te liguei porque eu gosto de você. Gosto de você, e gosto da solidão de você em mim, sabe? Você me faz tão bem, sabe, mesmo eu não tendo mais contato com você… mesmo eu não te vendo mais… olha só, agora estou até chorando! O que é isso, Chris, o que será que é isso? A gente está sozinho, sempre, sempre sozinhos, mas com você ao meu lado, a solidão me pareceu consolada… e o meu navio, preso pela âncora no meio do mar aberto como sempre esteve, como você sempre me disse, meu navio aproveitou um tantinho de sol para secar as velas. Chris… Chris, eu estou tão sozinho! Eu não sei mais trabalhar, Chris! Eu não sei, eu não sei…

   Nesse momento eu desliguei o telefone; o telefone que estava desligado o tempo todo, eu o desliguei, e chorei ainda por uns quinze minutos, sentado no sofá, as mãos sobre o rosto, a direita ainda segurando o telefone, e eu chorando, uma grande tempestade sobre o navio indefeso em alto mar. Mas acho – só acho – que algo se soltou, não sei se algo bom, não sei se algo ruim. Eu soquei a parede depois disso, e sangrou minha mão, sangrou a parede, e eu bati de lado com o rosto e o ombro na parede e me machuquei ainda mais um pouco – não queria quebrar nada, não queria me matar, só precisava achar algum lugar, algum jeito de dar abrigo a essa dor, dor de partida, dor de desesperança e compreensão. Eu deslizei pela parede até o chão, e foi até ridículo: eu chorava muito, e doía muito, mas algo em mim ainda achava meu relato de mim mesmo meloso demais, e me julgava por isso.

   Eu fui ficando melhor aos poucos; minha respiração encurtou um pouco e depois eu me vi cansado, muito cansado; acabei saindo para comprar cigarros, que até então eu não sabia que fumava, e para tomar café – tudo muito francófono, très chique. Acho que eu te escrevo isso tudo como se você fosse meu psiquiatra e pudesse me ajudar, ou como se você fosse meu mentor intelectual, meu Rousseau, e pudesse me encaminhar à civilidade cordata. Sei que em algum momento viajamos juntos, no entanto, e acho que a Chris acabou me ajudando nesse sentido. Eu realmente sinto muito a falta dela, caso você esteja se perguntando, e ela existiu mesmo em mim e para mim; ela morreu, ou se foi de mim, disso eu não tenho certeza, mas ela se foi e eu sinto muito a falta dela. Ela foi minha psiquiatra, acho, ou minha esposa, ou ela lia as coisas que eu escrevia, mais ou menos como você acabou de ler.

  Desculpe se não sigo as normas de redação e estilo que competem a uma carta. Acho que para mim, de alguma maneira, essa carta foi muito mais um pedaço de literatura, uma tênue existência/passagem de mim mesmo em porto alheio, como um conto, como se eu fosse um personagem – real para você, mais do que para mim mesmo.

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