Às margens do tempo

  Pequenos ou grandes, velozes ou vagarosos, ocupados por taciturnos ternos ou preocupados velhinhos, eles passavam, e passavam, e passavam – carros, ônibus, caminhões; em algum lugar próximo a ele um trem passava, ruidoso. A hostilidade do alarido urbano e uma espécie de claridade excessiva estavam-no deixando zonzo. Ele olhava. Parado na calçada, o corpo alinhado perfeitamente adiante, transversalmente à avenida por onde fluíam os ruídos que ele assistia, como que vencido. Por um momento ele olhou à sua frente onde, no infinitamente distante lado oposto da avenida, uma grade um pouco mais alta que ele mesmo delimitava o acesso ao porto.

  Incansáveis os carros fluíam. Jamais encontraria passagem – a menos, é claro, que capitulasse à batalha. Como Daniel-San, como os arqueiros zen, como em Wakin Life tudo que ele precisava fazer era conectar-se à paz, à saída em si, e atravessaria.

  Lembrou-se então do banheiro, o banheiro em que, tantos anos atrás, com Celina fora feliz, feliz por um breve, infinito momento. Celina que dividia com ele as aventuras no parquinho, com quem descobriu a construção abandonada, ao fundo da qual abria-se a partir do banheiro a vista para o morro e, lá em baixo, a feira e o bonde. Com Celina descobriu a construção, o coração já entusiasmado pela cumplicidade na aventura, com Celina sentou-se à beira do piso inacabado, os pés balançando para fora da obra inacabada, sob a qual cedia o morro rumo à feira da Nove de Julho. Abrigados pelo amplo céu azul, inebriados pelo cheiro do pastel e dos legumes da feira, inspirados talvez pelos cartões postais de posto de gasolina e pela simplicidade das alegrias idealizadas, deram-se as mãos sem se olharem, e lado a lado contemplaram a feira e a igrejinha e os cheiros e a infância e o cansaço das brincadeiras e o talvez se casarem e terem filhos e serem felizes para sempre, por todos os dois minutos que quando-muito passaram até que se levantaram e, batendo a poeira da saia e da bermuda, puseram-se em trote de volta à rua. Com Celina voltou a brincar, e a fantasiar e a aventurar. De Celina se despediu apressado quando a janta ficou pronta. Com Celina sonhou, e do sonho esqueceu. Com Celina descobriu a construção abandonada, e o banheiro mágico, e o amor. Pulou a grade com uma confiança falsa, como se soubesse o que estava fazendo.

  Como se fizesse sentido viu-se no porto.

  Olhou à sua volta. O céu abria-se amplo em todas as direções, refulgindo um azul claro e brilhante como só o inverno mais generoso oferece; aqui e ali algumas pilhas de contêineres, gruas, armazéns, e uns tantos maquinários que ele não conhecia. Tudo parecia antigo, como se estivesse abandonado, e no entanto ele sentia uma vitalidade que indicava que não estava em um lugar efetivamente abandonado – quando muito um lugar habitado em desacordo com o esquecido intento dos construtores. Ocupando-se dessa sensação pôs-se a imaginar pequenos animais como os que ocupam os desertos de Star Wars, ou os motoqueiros selvagens de Mad Max; sabia, no entanto, que se tratava de algo mais delicado.

  Com algum susto reparou em uma mulher sentada no chão, bastante próxima a ele. Trajava uma espécie de burka, toda negra, e segurava em seu colo uma criança – ou parecia segurar, já que ele não conseguia ver a criança. Apesar do caráter sombrio e peculiar da cena não chegou a se alarmar, sentiu-se apenas curioso. Que seria ela – a esperança, talvez? Ou a tranquilidade? A resignação?… não sabia. A mulher não o viu, ou não se importou com ele – não chegou a erguer o olhar, nem um pouco sequer.

  Ele, posto em termos com a ausência de respostas e a impertinência das perguntas, voltou o olhar ao amplo céu azul aberto à sua frente; sentiu-se sábio. O mar conduzia-se calmamente ao sabor do vento, negro como petróleo, belo como o ébano.

  Então percebeu: ali era o purgatório, ou uma terra sem tempo, ou o lugar onde as almas são feitas, algo assim. Percebeu, sem assombro, que não sentia fome, nem saciedade; não sentia calor, nem frio; seu corpo pulsava tranquilo, firme, inabalável. Estava bem.

  Próximo ao cais percebeu uma movimentação. Parecia um barco; do cais um homem grande arremessava alguns sacos, recebidos no barco por outro homem; em uma das pontas um anão parecia indicar ações e posições com assertiva calma. Pensou que preferiria ter visto um anão comandando impetuosamente uma linha de eunucos grandes e negros – mas não foi o que viu.

  Pôs-se a caminhar pelo porto, pé antes pé, as mãos contidas uma pela outra nas costas. Um rato passou próximo a seu pé emitindo um breve guincho, divertindo-o; “o porto além do tempo”, pensou. Lembrou da Divina Comédia, de Caronte e do Rio dos Mortos. Percebeu que de alguma forma poderia caminhar ao largo de toda sua vida, desdobrada e contemplada pelos mais diversos matizes, observada de inúmeros ângulos e com simbologias distintas, como se o porto fosse o destino inicial e final de sua vida no infinito. “O porto do tempo”, corrigiu. “O porto do infinito, às margens do Tempo”.

  Parou. Ali, à sua direita, na ponta do píer de madeira, percebeu um casalzinho sentado, aparentando seus cinco anos. Tinham os pezinhos balançando sobre a água, as mãos dadas de forma discreta, mas delicada; pareciam tranquilos. Pareciam a felicidade.

  Sentou-se em um banco de madeira, desses de praça, que viu logo ali atrás. Cruzou as pernas e passou o braço ao largo do banco. Respirando profundamente encaixou as costas no banco. Fechou levemente os olhos por um segundo, e abriu-os depois, calmamente.

  À sua frente o céu de um azul forte, brilhante, claro; poucas nuvens, brancas, a correr brincalhonas do vento, com o vento. As águas negras do Infinito a correr, ao sabor do tempo, ao sabor do vento, ao sabor do ar. O calor de um sol que ele não via, não precisava ver.

  O tempo.

  E o infinito.

  E a paz.

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