Madrugada em Curdistão

  Se fosse um homem sozinho, se fosse louco, se usasse drogas ou se fosse personagem de  um livro essa sensação de irrealidade certamente seria mais razoável; mas assim, com a esposa tranquilamente dormindo ao seu lado, com os amigos, o emprego, a rotina – de onde vinha essa sensação de que nada disso é real?

  Sem-Nome rolava na cama já há quase duas horas. Amanhã teria de acordar cedo para trabalhar, e já podia sentir o prenúncio da dor de cabeça que o acompanharia pelo dia afora. Não queria acordar a Lara, e por isso evitava ao máximo se virar na cama – apesar disso esse era exatamente o desejo que o tomava, revirar-se na cama ruidosamente, bufar e acender-e-apagar a luz do abajur até que o mundo soubesse o quão incomodado estava. Preso ao lugar por amarras invisíveis, Sem-Nome contentava-se em contemplar as feições de Lara em seu insuspeito repouso, desprovido de qualquer comoção ou encantamento nesse contemplar.

  Sabia que estava prestes a se levantar da cama. Ensaiava o movimento mentalmente, recriminando-se com isso pois sabia que esse ensaio demolia qualquer remota chance que tinha de cair no sono magicamente; daquele momento em diante restava a ele juntar forças, hesitar e esperar o momento inevitável de levantar. Faria isso pela primeira vez desde que se entendia por gente – apesar de não ter na memória um grande aliado – Sem-Nome, até onde sua memória o apoiava, poderia muito bem ter sido inventado já adulto, já desperto e incomodado na cama, há menos de cinco minutos. Confuso, Sem-Nome se questionava se isso era normal.

  Pensou então que o melhor era não enveredar por esse caminho – daí não sairia nada bom. E se não fosse normal, que faria a respeito? Poderia procurar um analista, devidamente pago para assistir a suas catarses periódicas, poderia procurar um psiquiatra e substituir as catarses por drogas, poderia ter péssimas idéias e levar um gravador para uma confissão particular numa praia… nada disso seria dele. Nada disso levaria seu nome. O que poderia fazer de si?

  La luce se fare da se, pensou. Ele não fala italiano; de onde veio a idéia? Percebeu, para seu enorme espanto, que tinha saído da cama, e percebeu-se repentinamente apoiado sobre os cotovelos, no parapeito da sacada. O susto tomou-o de tal forma que não pôde aproveitar a batida oportunidade de sentir o vento batendo no rosto e contemplar as luzes ao longe; quando deu por si o momento havia passado, e as luzes e o vento já estavam lá desde sempre, sem frescor, sem pacificação.

  Seu pensamento, sem aviso prévio, descola-se de seu corpo, e ele se percebe então voando sobre as ruas e casas e carros. Agora, sim, o vento bate em seu rosto e seu cabelo esvoaça levemente. Logo abaixo dele uma mulher espera à calçada – pareceria que ela quer atravessar a rua, mas não há carros vindo, e mesmo assim ela não vai. Quem será ela? Ele não sabe.

  Se ele voasse e fosse efetivamente livre ele viajaria ao Curdistão. O que há de haver no Curdistão? Que língua será que eles falam? Será que eles saberiam falar seu nome: Sem-Nome? Como se pronuncia Sem-Nome em curdistês?

  Ah, as aves do Curdistão gorjeiam agora, quão docemente gorjeiam…

  Seu corpo volta, agora. Ele é só mais um, só mais algum Sem-Nome no parapeito em uma noite de insônia. Quantos, quantos senhores medianamente respeitáveis não fiam suas insônias aos parapeitos de suas vidas? E que bem isso faz a eles?

  Pensando com mais calma nessa tão inconsequente pergunta Sem-Nome dá-se conta que a noite de insônia, por si, constitui talvez um bem até notável; há uma dignidade, uma sutileza na insônia do parapeito, como o guerreiro que tomba por ter cumprido devidamente seu papel – o homem ao parapeito é o Sansão do contemporâneo. Será? Belo arroubo de filosofia para um zé-ninguém preocupado com o sono e a dor de cabeça que já o aguardam no escritório…

  Do parapeito, o rosto meio inclinado em direção à porta que leva à sala, Sem-Nome pode ouvir o farfanhar dos lençóis e sabe que Lara está se revirando na cama. Será que ela está tendo pensamentos esquisitos, também ela? Animado com a idéia Sem-Nome entra, encosta a porta da varanda e entra no quarto; amua-se constrangido ao perceber que Lara não só dorme como ressona gloriosamente em seu sono branco. “Nada de pensamentos esquisitos para Lara… só o bom e velho sono”, pensa. “É, Sem-Nome… até pensamentos dublados à la Herbert Ritchers acossam sua mente – ó, desventura!”.

  Sem-Nome percebe-se pensando em balõezinhos, e percebe que deve ser o fim. Que mais o aguarda?

  Deita-se cautelosamente ao lado de Lara, e como em todo deitar-se cauteloso acaba fazendo mais barulho do que teria feito se deitasse normalmente. Lara pára de ressonar e estrala os beiços de forma um tanto quanto ridícula, lembrando talvez um urso de conto de fadas – Sem-Nome vira-se para ver se Lara havia efetivamente se tornado um urso de conto de fadas (que mais poderia impressioná-lo nessa noite?) mas seus olhos haviam se desacostumado à escuridão e ele não consegue vê-la, ou ao urso.

  Sem-Nome sente a cabeça leve; pensa que talvez esteja delirando, por pressão alta ou baixa ou qualquer coisa que o valha. Será que precisa ir ao hospital? Teria de chamar um táxi, já que o mecânico incompetente adiou ainda outro dia a entrega do carro. Percebendo que seus pensamentos voltavam a parecer algo prosaico, tranquilizou-se; percebeu então, para sua grande alegria, que estava com sono. Temeu que a alegria pudesse tirar seu sono, mas isso já pareceu ironia demais para uma oportunidade só. Em pouco tempo dormia tranquilamente, pensando no livro que lera quando criança, O Mundo de Sofia.

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