Marcha inexorável

  Quando ele sentou na mureta para terminar  em paz a conversa com a Amanda já reparou nela; enquanto a Amanda relatava como o Breno passou mal e como a Ana ficou com um cara com quem nem chegou a conversar ele, já menos interessado, contemplava a moça, e foi ficando embasbacado: ela não estava olhando para absolutamente nada, e ele tinha certeza, só de olhar para ela, que ela não estava pensando. A presença mineral da mulher magnetizava sua atenção – por sorte Amanda não precisava de sua atenção para continuar seu relato. Algum tempo depois – e ele simplesmente não poderia dizer quanto tempo havia se passado – Amanda chegou ao seu ponto e precisava desligar para descer do ônibus e correr para o trabalho porque estava atrasada, e repentinamente desligou. Pedro ficou como uma folha ao vento, solto, sentindo uma leve vertigem que até o agradava, como se o falar frenético da Amanda estivesse ancorando-o a seu corpo e ele tivesse de repente descolado. Percebeu que, mesmo sem olhar, estava ainda preso à mulher magnética. Voltou o olhar para ela com uma espécie estranha de medo, e viu com alívio e fascínio que ela ainda estava lá – uma rocha, uma árvore centenária.

  Ele não chegou a percebê-lo plenamente, mas as rugas que se insinuavam no rosto pétreo da mulher e uma certa tristeza em seu semblante foram animando-o, e a vertigem foi perdendo espaço para uma certa temerosidade, uma sensação de iminência. Como quem se lança a uma aventura juvenil ele foi em direção a ela, tomado por uma confiança que estufava seu peito.

  – A senhora fuma?

  Ela demorou um ou dois segundos para começar a mover o rosto, e o rosto parece ter levado uma eternidade para chegar do nada onde estava até finalmente confrontá-lo; ela inclinou a cabeça lateralmente de leve, e ele sentiu que ela tentava entender, não à pergunta, mas a ele.

  – Hm… não.

  Ele sentou ao lado dela, um pouco mais intranquilo do que imaginava que estaria. Arrependeu-se por um segundo – de onde estava agora seria indelicado que ficasse olhando como antes fazia sem pudor.

  – A senhora trabalha por aqui?

  A mesma demora. O mesmo estranhamento. Ela ainda parecia tentar entender o que seria ele, como se ela nunca tivesse visto um humano antes; ao mesmo tempo chamou sua atenção que ela agia como se tivesse esquecido dele. E no entanto, apesar de todo o estranhamento, apesar de toda a esquisitice do comportamento dela, ele ainda se sentia sugado, como se ela fosse uma espécie de vórtice.

  – Não.

  Diferentemente da outra vez, ela não voltou o olhar de volta para o nada de onde vinha; fitava-o continuamente, sem piscar, sem vibrar. Ela não estava pensando nele, não estava sequer pensando – ele era uma espécie de âncora puxando-a à realidade, e ele se sentia tragado pelo empuxo.

  – Eu…

  Ele a fitava, um pouco desconfortável, mas fascinado. Imaginou que ela poderia contar a ele sobre sua existência, sua condição; poderia contar a ele como ela vive há trezentos anos, e contar a ele que às vezes ela se torna uma pedra e existe, simplesmente existe. Ele esperava que ela contasse a ele sua história, contasse a história dos tempos sem fim, pois essa era ela para ele: a mulher dos tempos sem fim, a eternidade figurada em jovem senhora na mureta do vão do MASP. Sem que o percebesse plenamente ele esperava algo assim, gostaria de ter essa história com ele; sempre sentiu-se em alguma medida deslocado, e sentia que ela, com o radical deslocamento que via nela, poderia ajudá-lo, dar-lhe uma pista, como um breve piscar de farol.

  Subitamente algo brilhou no fundo dos olhos dela, uma espécie de faísca.

 – … não te conheço. Com licença.

  Ela levantou-se – sem pressa, mas procurando não demorar: não queria que ele a contivesse. Suas pernas pesavam, formigavam, pareciam tremer sob seu corpo, mas ela precisava andar, precisava sair. Ela sentia o olhar dele sobre ela, e sabia que ele, quem quer que fosse, provavelmente estava frustrado. O que queria com ela? Por que teria vindo procurá-la?

  Assim que ela se pôs em movimento as pernas foram recobrando força – a cada passo ela sentia que caminhar se tornava mais fácil. Ela era uma árvore, como uma árvore, desenraizando-se, pondo-se em marcha. A grandeza, o vazio e a perdição da marcha. O não-sentido da caminhada. A árvore em marcha, inexorável em sua marcha, como se completasse o sentido do mundo com sua marcha, através das planícies, das montanhas, das serras, até encontrar a praia, sumir no mar.

  Sumir no mar.

  Caminhava sem pressa pela calçada, ultrapassada pelos apressados ternos, tão cheios de sentido e propósito. Eles sabiam porque existiam, sabiam aonde iam. Quando morressem, quando chegassem ao inexorável mar chegariam sem tê-lo visto, como um tropeço, o fim de uma bela história; seus dias teriam sido dias, suas semanas teriam sido semanas, teriam visto o sentido da vida nos filhos que tivessem, nos filmes que vissem, nas vezes em que transassem, quando comessem em agradáveis restaurantes; ela via-se ultrapassar aqui e ali, eles passavam, acorriam aos montes, todos pareciam ocupados – mas não a viam, ninguém a via. Será que não a viam? Ela estava lá; ela estava lá!

  Eles não poderiam vê-la, não a veriam. Seus filhos, o Armando, o Zeca, eram seus filhos, belos e amados filhos, mas não conseguia amá-los efetivamente; sabia que os amava, e no entanto não conseguia sentir nada. Comida – boa, ruim, bem ou mal feita, bem ou mal servida – era sempre comida: punhados de coisa em sua boca, coisas que ela triturava, encharcava de saliva, coisas que viravam pasta em sua boca, em sua garganta, em seu estômago.

  Coisas a revirar seu estômago. Ela tinha estômago? Algo estava sempre ali, apertando-a, um pouco acima do umbigo; uma espécie de engrenagem a girar, o coração de pedra da quimera. Ela era uma árvore, uma centenária árvore em inexorável marcha rumo ao inexorável mar, terrivelmente ciente de sua existência física, terrivelmente ciente de suas pernas e seus braços e seus pensamentos e das coisas que come e do tempo que passa; incapaz, absolutamente incapaz de sentir o gosto das coisas, sentir o amor do amor que tem pelos filhos, sentir o prazer das coisas que deveriam ser prazerosas, incapaz de sentir as oscilações da existência, incapaz de perder-se, incapaz de encontrar-se.

  À sua volta as pessoas passavam, e passavam, e passavam. A saliva acumulava-se em sua boca, e ela engolia. Em pouco tempo a saliva voltava a acumular-se em sua boca, e ela engolia novamente. Ela era uma máquina. A engrenagem girava. Ela estava condenada a viver.

  Tempos atrás um pássaro fez seu ninho no oco logo acima de seu umbigo; pôs lá seus ovos. Viajava distâncias para encontrar alimento, e cuidava dos seus. Os ovos eclodiram e nasceram os passarinhos, famintos, angustiados, sofrentes. Por alguma maldição medonha o oco acima de seu umbigo fechou-se então em volta deles, cortou o tempo para fora, cortou-os do alimento e do vento e dos predadores e das árvores e da chuva; desde então eles revolvem nela, os filhotes recém-eclodidos, inconformados com a recente explosão do céu e da completude e do bem-estar e, e, e.

  Intemporalmente, infindavelmente a dor da casca eclodida.

  Intemporalmente, infindavelmente a agonia.

  Intemporalmente, infindavelmente o desespero da prole em dor.

  Conforme anda, conforme existe no tempo sua consciência vai submergindo, aos poucos dando espaço ao pulsar lento da consciência do corpo, do acumular e engolir da saliva, da respiração, da engrenagem do ninho preso acima do umbigo, a angústia, o vazio; principalmente o vazio. Ela sente que passam com o vagar de dias o que, aos olhos dos outros, certamente são apenas minutos.

  Ela é centenária. Está condenada a viver milênios e milênios até que chegue ao inexorável mar, até o esgotamento de sua carcaça daqui a quinze ou vinte ou trinta anos cronológicos; até lá ela assiste os milênios, assiste a saliva e a respiração e a engrenagem, assiste as pastas de que se alimenta, assiste os esforços para ajudá-la e salvá-la e vê-la e entendê-la, assiste as internações e as tentativas de suicídio e os momentos em que resolve tentar ficar “bem”.

  Lentamente, muito lentamente, o pássaro desesperado bica as entranhas de sua carcaça em busca de alimento para os insaciáveis filhos.

  Ao seu redor passam os ternos, apressados. Algum deles certamente completa hoje alguns anos de casamento – não mais que dez – e exulta por dentro. Comprará, no horário de almoço, uma champanha, chocolate, talvez um baby-doll, e fará reservas para um belo quarto de motel. Algum deles certamente sente que os companheiros o estão encurralando, o chefe vê que ele está rendendo menos, todos sabem que ele caminha para a demissão, e ele se angustia por dentro e sente que a culpa é dos companheiros; ele briga com a mãe quando chega em casa e passa horas a fio jogando jogos de ação no computador, xingando veementemente os adversários abduzidos em suas casas; em algum momento ele será mandado embora e seu mundo ruirá, apenas para reconstruir-se outra vez quando resolver viajar para a Austrália ou encontrar uma mulher adorável ou encontrar o mais novo emprego dos seus sonhos.

  Algum deles tem AIDS e sente a vida intensamente, desesperadamente, pois sabe que em qualquer esquina a vida trama contra ele; em muitos momentos ele consegue ser feliz.

  Algum deles certamente passa os olhos pela mulher com o olhar perdido a vagar pelas ruas e pensa “que cara de louca essa mulher tem”.

  E ela não sente nada. Absolutamente nada. Percebe a engrenagem a comer suas entranhas, percebe que seu corpo degrada e se esbate  no tempo, e não sente nada.

  Em pouco tempo ela passará por uma dilatação em sua existência, quase um clímax, mas completamente mecânico, mais ou menos na travessa da Paulista com a Pamplona. Vagando pelas ruas ela trombará ocasionalmente com uma mulher; a mulher seguirá seu rumo dirigindo alguns xingamentos ao vazio. Béa, de sua parte, ficará parada por algum tempo, absolutamente cativada pelo perfume da mulher; ao sabor do perfume assistirá aos devaneios de paisagens idílicas e da liberdade dos pássaros. Caída dos devaneios novamente em sua carcaça ela será atraída pela fachada multicolorida  de uma loja de perfumaria. Contemplará os potes, tão coloridos potes com seus tão belos formatos, e algo pequeno se incendiará no fundo de seus envidraçados olhos. Ter-se-á contraído, as mãos e pernas tremendo visivelmente, a cabeça um pouco mais leve do que de costume. A atendente com seu falso sorriso agradável se aproximará, as mãos apoiadas nas costas, completamente ausente, perguntando a ela “pois não, posso ajudá-la?”; a pergunta a desconcertará por completo, vulnerável que estava. Lhe ocorrerá então uma imagem, incrivelmente bela e viva e colorida, em que ela, sentada a uma mesa, come avidamente o conteúdo perfumado de um belo e grande pote; terá a respiração bastante alterada e estará suando. A atendente, quando enfim perceber o estado dela, perguntará aflita “senhora, está tudo bem?”. Ela responderá brevemente “sim; acho que sim”, e desmaiará.

  Ela contará essa história ao psiquiatra quando acordar, ainda atordoada pelos medicamentos que lha terão injetado; atrás do médico estarão, com seus olhares amedrontados, seu marido e seus dois filhos; eles se aproximarão do leito depois, se atropelando para contar da preocupação e perguntando o que teria acontecido. Ela será novamente internada dali a dois dias, em um agradável recanto cercado por árvores e pássaros, com agradáveis atividades e dedicados profissionais. E ela não sentirá nada.

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