Rodovia Presidente Dutra, quilometro 110

  O caminhão passa, perto demais de mim passa. a lufada de ar quente, o cheiro do concreto e do pneu queimando me atingem desde a nuca, o concreto quente aos meus pés mais marcante em mim agora. A areia entra nos meus olhos, no meu nariz. Como posso eu expiro com força, passo a manga da camisa pelo rosto para limpar os olhos, e enquanto isso já xingo. Em direção ao caminhoneiro eu xingo. Como se xingasse o caminhoneiro eu xingo. Não deveria, mas eu xingo.

  Filho da puta!

  Lazarento!

  Não deveria xingar. Não é o caminhoneiro que eu xingo; eu xingo o sol, xingo a terra e o tempo. Xingo a cachaça, e a estrada e os homens. Xingo Jardim Gurilândia, para onde há um retorno a quinhentos metros. Xingo Jardim Gurilândia e todos gurilandenses, e os pais dos gurilandenses e a risível idéia de fundar uma cidade ou bairro com esse risível nome.

  Mas não deveria xingar. Eu sou o tempo. Sou o pai do tempo, e o filho do tempo, e sou o tempo. Onde eu passo passa o tempo, como anúncio de minha chegada e legado de minha passagem, como marco de minha existência, minha tiquetaqueada existência.

 Curvem-se, gurilandenses! O pai e o filho do tempo se aproxima, há quatrocentos metros de vocês agora. O sol inclemente desdobra seus raios em homenagem ao excelso andarilho, o rei andarilho – Andarilho, o incauto. Andarilho, o temível. Temam, gurilandenses! Temam por suas vidas e a de seus filhos; temam por seu gado, seu comércio, sua saúde, seu sexo. Temam pelo dia de amanhã e pela passagem do tempo.

  O tempo não espera, gurilandenses; o tempo os contempla e passa; carreguem consigo seus exímios pertences, arrastem atrabalhoadamente, como melhor puderem suas casas, seus cães, suas preocupações.

  Carreguem como podem suas dependências, seu medo do tempo, sua raiva do tempo, sua luta contra o tempo. O tempo vem, e os contempla, e passa.

  Vou mudar de mão agora minha sacola, porque [pára, encosta a sacola preta no chão de asfalto] essa mão já está com os dedos dormentes, e [com a mão esquerda laça o nó da sacola e a arremessa sobre suas costas] essas coisas eu ainda não posso me desfazer. Ainda não.

  Talvez amanhã.

  Que dia é amanhã?

  Que levo mesmo na sacola?

  Ah, sim! Ah, sim! Os dedos. Os dedos da mão direita. O dedo indicador da mão direita, dedo que aponta, dedo que cutuca o nariz e o umbigo, dedo que aperta o gatilho. Dedo que matou meu irmão. Dedo que apertou o gatilho, gatilho que matei meu irmão.

  Dedos, e culpa. Dedos e culpa na sacola. E latinhas, sim, latinhas amassadas que troco por espelhos e garfos em Potim, Potim a cinquenta e seis quilômetros daqui. Em Potim vivem os potinhos, pequenos seres feitos de cerâmica, que espirram cinzeiros e cagam bonecas russas. Potinhos de cerâmica sentados no vaso cagando bonecas russas; he, he.

  Dedos, potinhos, culpa, sacola. Dedo nos potinhos, culpa na sacola, e sigo viagem. Tremam, gurilandenses! O tempo passa, o tempo passa, e vocês? Vocês não. Vocês ficam.

  Sede. Será que trouxe água na sacola? Logo vejo. Em Potim, ou no Retorno. Retorno a um quilômetro.

  Não há retorno! Não há retorno!

  Temam, temam! Tremam! Corram, e fujam, pois o tempo vem! O tempo vem e leva a todos! Todos vocês! Vocês ficam aí fora, brincando no escuro, até que um dia passa o homem do saco e leva vocês embora, vocês vão ver! Vocês vão aprender a respeitar a mãe e o pai, que ninguém tem obrigação de ficar assim postado na porta gritando nome de moleque levado! Um dia, um dia vocês vão ver, um dia eu vou embora dessa casa e sua mãe fica sozinha com vocês e essa desgraça de doença dela, aí alguém arranja de cuidar dela e dar jeito em vocês, que eu não destrambelhei do Norte até aqui para ficar postado chamando moleque ou deitado untando cancro de velha. Um dia, um dia isso tudo vira mar, e o mar lava as almas dos justos e lava os justos dos injustos e lava a terra das impurezas, um dia será o dia, o fim dos tempos, o dia do tempo, o dia em que o tempo virá. E estaremos em paz, os justos. E vocês… vocês, gurilandenses, cuidem bem de suas crianças. Tranquem suas portas, cerrem as janelas.

  O tempo vem.

  E o tempo vai.

  E vocês ficam.

  Com o que, ficam? Com quem, ficam? Em nome de que, ficam? Abracem suas crianças, gurilandenses, e reguem suas plantas.

  Retorno a quinhentos metros. Mas não há retorno. Não há retorno, nunca. Não há retorno, para ninguém. Potim a cinquenta e seis quilometros.

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