Refulgir da matilha

"DSC 09221", de Gustavo Valentim

 Um pernilongo zune, e passa.

 A canela coça, e ao coçá-la os pêlos fazem um leve barulho de lixa. De alguma forma lembra uma cigarra.

 Uma formiga passa carregando uma folha que, nela, parece imensa; a cena é de uma beleza levemente engraçada.

 O rio corre manso, apesar de cheio; um galho caído corta as águas, navegando sem pressa. Virado pela curva do rio se desdobra sobre si mesmo, o próprio ímpeto desvirando-o em cambalhota. Segue, então, seu rumo, e se apruma reluzente na corredeira do descampado, o sol vermelho a tingir-lhe a casca úmida.

 E se fosse eu? Se, desmedido de errâncias, desprendido de heterônimos, incorresse, eu também, em arriscar-se eu mesmo? Se eu desaguasse, ao cabo de tantas e tão outras peripércias, em eu, rio desaguando na nascente? E se eu errasse o alvo do outro e acertasse em mim?

 Eu que no limite sempre fui eu, pelas bordas. Eu que sempre estranhei de mim o que no outro refletia. Que recusei na curva da estrada o que ela tinha de estrada, e de descompasso que eu dava de ontem rumo a amanhã. Vomitando-me de fora para dentro eu me reencontro, não no que cai nem no que se engolfa rumo ao umbigo, mas na borda.

 A matilha dos limites, nunca ao centro do pedaço de terra selvagem que é mais seu. Matilha na corrida desvairada pelos ângulos do desfiladeiro, rio que se cachoeira, que se queda-d’água que se rio; rio cada vez mais manso, rio.

 Rio ribeira, refulgindo os lampejos dourados de sua água trotando a cada curva mais mansa.

 Matilha fumaça a se desprender do cigarro de palha do seresteiro assentado em sua pedra, os pensamentos desprendidos a fluir com o rio, e a matilha a tornar-se fumo e a ganhar os céus. O seresteiro só com seus pensamentos muitos, o seresteiro de eus fugazes e desconfortos poucos, pertencido em si pelas curvas e dobras de um lar compartilhado.

  Aos poucos e poucos a fumaça escasseia, o fumo vira papel molhado ruim de tudo, e é mais que tempo de ir-se de volta para a cidade, para casa. A mulher decerto espera, e se demora já se desconfia das traquinices do marido, ele tão acomodado nos movimentos selvagens de suas matilhas a esfumaçar pelos ares na beira do rio.

 Precisa tomar cuidado com os barrancos, escorregadios das chuvas dos últimos dias; escorando com firmeza a botina em cada morrinho que encontra pelo caminho, o seresteiro se embala pelo caminho comprido, lá por detrás do seringal, onde o sol esquenta o peito, por onde se ouvem mais os bois que os caminhões. Já subido ao alto do morrinho o seresteiro busca no bolso da camisa de linho o outro cigarro, cigarro mirrado de fundo de fumo; encompridando mais um pouco seu caminho passava pelo centrinho e pegava um fumo com o Antonio jornaleiro.

  A palha pouca do cigarrinho derradeiro acende entusiasmada; encorajada pela cabeça incandescente do fósforo a primeira baforada insufla o peito seresteiro, que semicerra os olhos de perder-se em si. Ao sabor do vento, às voltas da matilha eu uivo, estrangeiro em si. O sol desenha as curvas da terra encharcada, iluminada branca pela água generosa que guarda em si. As árvores deitam suas sombras pelo caminho, que mesmo assim é  mais afeito ao calor no peito que à brisa no rosto. Sem que a poesia se empobreça o calor irrita um pouco, o sol chega a contornar os cílios, sempre tão engraçados de se reparar que existem.

 Há uma mágica toda própria ao tipo de sol que torna os cílios visíveis a si mesmo; cílios que emolduram os caminhos, gotas d’água vaidosas nas beiras das lentes de um bom fotógrafo. Ver os próprios cílios é como estar-se em si, ciente do próprio ser, como se habitando o próprio corpo a partir de um outro-em-si. Ver os próprios cílios, e ainda assim ver as sombras que o sol e as árvores deitam pelos caminhos, é ver as curvas dos rios que a seresta evoca sem poder tocar.

  A fumaça só fica visível à sombra, esvaindo fugidia e sumindo rapidamente, rápido demais. Conforme passa pelas esparsas casas do bairro do curtume o seresteiro já se inquieta – é fim de tarde, talvez à noite chova.

  As pernas pesam um pouco, mais pela consciência de serem elas que o movem do que pelo cansaço ou o que seja. Sente-se carregando o próprio corpo adiante, acima e abaixo pelas ruas do curtume, os lobos espreitando já tranquilos demais da própria tangencialidade.

 Perdeu-se em pensamentos, o seresteiro. Pelas curvas do rio, e pela consciência das curvas do rio, seus pensamentos outros foram-se em si, carregados pelo próprio peso e pelo tempo em que navegam, seguiram para morrer no mar. Estranhos pensamentos, pensamentos que não se guarda em si.

 E se fosse eu?, pensa o seresteiro. E se, desmedido em errâncias, incorresse em arriscar-se si mesmo? Já estranhava-se de novo – incorresse? Nem dizia de correr ou incorrer a ninguém que conhecesse! Chacoalhou a cabeça, estranhado; olha!, pensou, acho que errei.

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