Por vezes me vem essa fantasia, portando consigo a angústia que ela veste: o mercado abre, o caixa atende a infindável procissão de velhinhos e outros clientes preferenciais, o mercado fecha e eu estou lá, os pãezinhos na mão, aguardando atendimento. Ou: faço meu cadastro na recepção do pronto socorro e sentamos na sala de … Continue lendo Caixa 2
Categoria: Literatura
O chão tá posto
Meu amado, tenho uma boa notícia: convidei um pessoal pra ir em casa. Na verdade convidei todo mundo! Seus amigos do futebol, o pessoal do Núcleo, meus colegas de trabalho, aqueles teus amigos do colégio... ótimo, né? Pois é, vai todo mundo almoçar em casa no sábado. Sábado de manhã, você deve lembrar, eu tenho … Continue lendo O chão tá posto
Tempo Rei é morto, vida longa ao rei
Há quem reze a Deus, a deus, a Cristo, aos deuses, à deusa, às Deusas, às cabras, há quem reze sem deus algum em mente, fiando a reza na força da palavra. E há quem reze ao tempo, feito Rei, a quem se roga transformar as velhas formas do viver. Gil o faz, e há … Continue lendo Tempo Rei é morto, vida longa ao rei
… numa terra muito, muito distante
O clima de tensão era praticamente visível: havia uma espessura, uma expectativa, a espera por algum tipo de catástrofe ou milagre, havia medo e um esforço obviamente inútil de pretender normalidade. Em geral não se via muita gente. Já era tarde, os trens pegavam pouca gente nas estações, os faróis paravam poucos carros junto às … Continue lendo … numa terra muito, muito distante
Figo
Opa! Puxa, que bom revê-lo, menino! Cresceu, hein? Entra, entra, faz favor. Pois é, faz tempo. Bom que você veio! Quer um café? Passei agora há pouco. É, é mesmo. Então, sabe que desde que aposentei - faz dez anos já, acredita? - todo dia, de segunda a sexta, eu passo um café por volta … Continue lendo Figo
Por demos
Onde, quando estiver, onde? Nessas largas ruas, nessas parcas calçadas? No já não lembrar da terra soterrada? No poder mudar por já não querer nada? E se não? E se por outros, loucos, caminhos? Ou se não loucos, mas tão evidente, vergonhosamente outros? Óbvios, e supostamente nossos? E se pela ancestralidade? E se não cosmopolita? … Continue lendo Por demos
o pequeno grande menino
Menino tinha sempre um nó na garganta, um nó do tamanho da fome do mundo. Vivia carregado de ontens, vivido de gente morta desconhecida de si, sabida por ele à força justo de ter sido ninguém. Menino falava espertezas, tendo lido muito quase toda a tinta trazida da França num abraço mental de explicar o … Continue lendo o pequeno grande menino
Precaria_mente
Eu sempre soube da precariedade, no mínimo porque você nunca me deixava esquecer; mas fui me habituando a pensar que ela era companheira nossa, você se referindo e insistindo em que olhássemos pra ela como se quisesse cultivá-la entre nós. Fui me habituando a pensar nela, a tê-la ali conosco, e por isso me assustei … Continue lendo Precaria_mente
Rastro
Uma das coisas que mais me atrai na escrita é um certo estado de espírito que se cria, uma disposição que passa pelas coisas que chamamos de contemplação e calma, ainda que não me pareça ser exatamente isso. A linguagem, a relação com a linguagem tem um papel importante, de que já falei mais vezes … Continue lendo Rastro
Nanquim
Já antes do mergulho, entregue apenas à aparência e à vivência que evoca, já antes do mergulho o mergulho é um mergulho. É que o nanquim é de um negro profundo, é a presença brilhante de uma textura robusta, ostentosa, ciente de si, provocante. Já antes do mergulho, portanto, só pela perspectiva do mergulho, o … Continue lendo Nanquim

