Tempo Rei é morto, vida longa ao rei

Há quem reze a Deus, a deus, a Cristo, aos deuses, à deusa, às Deusas, às cabras, há quem reze sem deus algum em mente, fiando a reza na força da palavra. E há quem reze ao tempo, feito Rei, a quem se roga transformar as velhas formas do viver. Gil o faz, e há quem diga que empresta a reza de Espinoza, o que seria sem dúvida fato curioso.
Mas Gil, sim, Gil reza. Reza também quem canta com Gil, segue a música para passar o tempo, passa ao tempo o recado, que assuma a realeza e transforme as velhas formas do viver. Ó tempo Rei, tal.
Se a reza pega – isso é, se o tempo é de fato Rei e se compadece do orador – intervém o Rei, e transforma, segundo consta, as velhas formas do viver. Suponho que isso signifique que o orador, graça recebida, se vê envolvido em novas formas do viver – que são, bem entendido, as velhas formas, só que transformadas.
Vamos lá: tá lá o sujeito. Ele reza (ou canta) ao Tempo, Rei, para que transforme as velhas formas do viver. O tempo intervém e o sujeito tem consigo as novas formas do viver, fruto da transformação das velhas, por ação do Tempo Rei.
Fico cá pensando: graças ao Tempo pela graça concedida, ave Tempo etc., ok. Mas como será que as velhas formas ficaram velhas? As formas envelhecem pela ação do tempo! E as novas formas, que viriam por ação e graça do Tempo, viriam assim, de um estalo, ação misericordiosa do tempo, atenção a uma reza, fiat? Isso lá tem cara de ação do Tempo?
Só posso supor que se supõe, no contexto da reza em tela, de um Tempo Rei que não é esse nosso tempo cronológico, batendo a cabeça no vidro do relógio, burro e previsível. Suponho que se recorra a um outro Tempo, magnânimo, altivo, que se faria notar por um raio, num átimo, fora do tempo; só assim poderia ele transformar as velhas formas do viver, que são justamente a ação do tempo, esse que, ainda que minúsculo, vai-se acumulando e espraiando e se onipresentifica quando menos se espera a espreitar de dentro de tudo.
Estaríamos então subjugados pela ação minúscula do tempo, esperando a cada vez a misericordiosa – e maiúscula – intervenção do Tempo, que nos salvaria… do tempo.
Mas há quem diga – ainda que não Gil, ao que me conste – que a intriga anda de dias contados; e isso porque se estaria armando uma hoste insubmissa, iconoclasta, avessa à monarquia e à eterna espera dos eternos extemporâneos instantes. Gente não como a gente, distantemente, discretamente, distintamente discriminando em meio às gentes, turbas, turvas, discriminando em meio à plebe a presença insolene do caído rei. Esse povo, espraiado em toda parte como os tentáculos de um polvo, ter-se-ia dado conta de que não há nada novo, que as vestes andam ocas, os deuses andam nus, o tempo anda parado e retrocedendo e já passou.
Parece que eles chegarão. O tempo Rei estará, então, com os dias contados.
É o que se diz, é o que se murmura nas alcovas e becos e tocas. Entoa-se, ainda timidamente, a revolucionária loa: “gente Rei, ó gente Rei, ó gente Rei/ transformai as mesmas formas de sofrer”.
Parece que algo muda. Que essa mudança é outra, que essa mudança muda mesmo, que a mudança de uma mudança pra outra muda tudo. E que devemos esperar e ver, porque a mudança virá, e aí veremos.
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