Prólogo a “eugenia, genocídio e genética”, de Boris Smirnakoff

                                                   Roberto Jabeiro, jornalista, filósofo e teólogo, escreve quinzenalmente para Nova Medicina: avanços em Genética e Teoria Social

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   A revista IstoÉ da última semana de julho, que caiu acidentalmente em minhas mãos em momento de incomum ócio, apresentava uma matéria rica, parcamente aproveitada: tratava de programa inaugurado pelo site de relacionamentos Beautiful People, que possibilitava a seus membros escolher o material genético dos filhos que desejavam, tendo em vista o aumento das probabilidades de que ditos filhos viessem a ser bonitos.  “Aqueles que se dispõem a doar seu material genético podem ser encontrados no grupo Beautiful Baby Service, um fórum aberto dentro do site. O problema é que, numa sociedade que já viveu episódios hediondos como o Holocausto, ofertar um critério de seleção baseado na beleza dá arrepios. “É uma iniciativa inaceitável, que lembra a eugenia”, diz Salmo Raskin, presidente da Sociedade Brasileira de Genética Médica”, informa a revista.

   O tema suscitado por Raskin, de que a iniciativa “lembra a eugenia”, motivou-me a glosar tão polêmica revista. O médico parece excepcionalmente feliz pela associação estabelecida – fortúnio quase cancelado pela parcimônia excessiva e imprecisa em afirmar que a iniciativa “lembra” eugenia – o próprio site e o fórum de “fomento aos bebês bonitos”, a confiar na matéria, exala eugenia e quilômetros.

  Seja como for – sendo alheia a meus interesses a polêmica com o periódico, o médico e quetais – decido aproveitar o ensejo para a lembrança de um trabalho memorável, pouco ou nada conhecido do grande público. Trata-se do livro fictício “eugenia, genocídio e genética – ritornelo”, de autoria do artista búlgaro de ascendência russa Boris Smirnakoff.

  Boris Smirnakoff, nascido em 1894 e falecido em 1976, era artista e, mais devota e assiduamente, um boêmio e um degenerado. Pouco devoto a estudos e trabalho, ingressou na Escola de Artes Clássicas de Moscou em fevereiro de 1912, somente para abandoná-la dois anos depois, trazendo como bagagem uma coleção de desafetos, intrigas e paixões cortadas. De volta à Bulgária, encontra ofício como retratista em expedições européias a suas colônias, vida que lhe aumentou o erário, as inspirações artísticas e as oportunidades para a vida ébria, bem-aventurada e descompromissada que cultivava.

  Em sua estada no Brasil, inicialmente planejada para o período de agosto de 1948 e março de 1949, por ocasião de festividades marcando a municipalização de Holambra, Smirnakoff passaria por radicais alterações de rumo em sua trajetória errante, fincando no torrão holambrense raízes até seus últimos dias. Mudança tão drástica seria motivada por seu encontro com Corrie Ten Boom, esposa do então presidente da Associação Neerlandesa dos Lavradores e Horticultores Católicos, Jaan Ten Boom. Corrie motivaria, ainda que inadvertidamente, a crise que instigou Smirnakoff em direção à ávida pesquisa que fundamenta seu único livro, pauta do presente texto.

  Contratado para confeccionar uma série de retratos e gravuras da cidade e colônia em seu estabelecimento, Smirnakoff regava, como de costume, seus trabalhos a vinhos, vodka e noitadas despretensiosas e muitas vezes adúlteras. Em um jantar social frequentado pelas autoridades locais – dentre as quais Jaan figurava como um dos mais eminentes e poderosos – Smirnakoff seduz Corrie Ten Boom, verdadeira Bovary holandesa.

  Quase a despeito de Smirnakoff e para sua grande surpresa, Corrie insere-o no ideário e nos planos eugenistas que ouvia de seu esposo; Smirnakoff fica desconcertado com a amplitude de seu desconhecimento em torno dos rumos da sociedade. Smirnakoff, um romântico admirador das paixões e belezas humanas, cai refém da volúpia e beleza do projeto eugenista “De schoonheid van de zuiverheid” ou “De SZ” – em português, projeto A Beleza da Pureza.

  Segundo depreendido da introdução de tons autobiográficos da vultosa obra de Smirnakoff, o projeto De SZ partia dos processos de seleção artificial para o refinamento dos exemplares florais cultivados com maestria pelos holandeses, do qual retirava os prepostos teóricos, lógicos e argumentativos para a defesa do processo eugênico holandês – ao que tudo indica, a Holanda pode ter sido um dos primeiros países europeus a apresentar um programa neonazista.

  Perdidamente apaixonado, mas não mais pela bela Corrie, e sim pelo projeto De SZ, Smirnakoff dá uma guinada em sua forma de vida e galga seu lugar entre os escalões da alta sociedade holambrense, tendo sempre em vista o ingresso no projeto, obviamente mantido em segredo dada a péssima reputação conferida ao eugenismo pelo nazismo. Não por acaso, o projeto holandês assumia em muitos aspectos propostas e ideais semelhantes aos defendidos pelo nazismo – à exceção, talvez, do papel da nação, que no projeto De SZ seria substituído pelo papel central do agropecuarismo e do ideal do “homem forte agricultor”, com a desmontagem das grandes cidades e metrópoles quando da efetivação da Nova Raça, ou, no vocábulo da época, a Florada Humana.

   O ímpeto cego de Smirnakoff não conhece limites, e é apenas questão de tempo até que seja plenamente aceito e integrado à frente da missão holambrense do De SZ: em 1953, Smirnakoff é legitimado, no culto d’A Inseminação da Semente Pura, retratista oficial e membro do corpo ideológico do projeto. Mas sua paixão pela eugenia não se sacia, e ele aproveita seu prestígio no grupo para granejar acesso a todo tipo de material produzido a respeito – e é então que Smirnakoff é mais uma vez atirado de seus sonhos por suas próprias paixões… desta vez em definitivo. É de sua última – e maior – epifania que trata o volume “eugenia, genocídio e genética – ritornelo”, que contava 1088 páginas em sua única edição, escrita em russo e publicada no Brasil em tradução indireta, com tiragem e vendagem mínima e, por isso mesmo, uma raridade sem preço para o estudioso do assunto.

   As noites e noites de estudos e leituras de Smirnakoff, acompanhadas de suas intermináveis reuniões com os demais membros da frente holambrense para discussão da Floração da Nova Raça, a vodka e a alimentação indisciplinada com certeza estimularam seu desvario, fortaleceram as associações, favoreceram e apressaram as conclusões: o portentoso volume apresenta sem lacuna ou vazio a civilidade humana, desde a agricultura, como uma escalada eugênica.

  Para Smirnakoff, “a conquista do fogo desempenhou nos homens o papel de Prometeu e, desde então, a evolução tem-se dado, contínua, determinada, em direção a nossos dias” (SMIRNAKOFF, p. 433).

 Pensar-se-ia, ao longo de todo o primeiro tomo, que Smirnakoff redigia mais um elogio eugenista da Florada Humana; o segundo e terceiro tomos, no entanto, representam o auge da epifania smirnakoffiana, prova de seu gênio e arauto de sua derrocada em Holambra.

  No tomo dois, denominado “o DNA e o engodo genético”, Smirnakoff insere entre as referências canônicas da historiografia eugenista clássica a descrição por James Watson e Francis Crick do DNA, publicada em 1953 e tema de debate breve e desinteressado entre os escalões do De SZ. Em minuciosa – e parcial – leitura da premiada publicação anglo-americana, Smirnakoff leva o leitor à conclusão de que a descoberta do DNA é apenas a ponta de um sistema muito mais amplo – em poucas palavras, Smirnakoff demonstra que o DNA já foi manipulado há pelo menos vinte anos, e que a Florada Humana é muito menos um projeto eugenista do que uma maquiagem de um projeto mais secreto, mais amplo e determinado, falido ao fim da Segunda Guerra Mundial.

  O argumento de Smirnakoff é assustadoramente complexo e sutil. A idéia básica é que a tecnologia utilizada por Crick e Watson para comprovar o DNA seria suficiente, na realidade, para manipulá-lo – esta é a ponta do iceberg de toda uma série de elementos não declarados, segundo a argumentação do livro nos sugere a pensar. Smirnakoff argumenta argumenta que tal tecnologia deveria estar disponível já desde meados da década de 30 (sem se demorar muito na justificativa deste ponto específico). Deriva, daí, o argumento (que demonstra longamente e por diversas vias) que a Segunda Guerra foi pouco mais que uma cortina de fumaça, por meio da qual Alemanha e Holanda se muniam de judeus – quase-humanos, em sua concepção – tendo como objetivo a manipulação genética, por meio da qual se atingiria, efetivamente, a Florada Humana. O sucesso da empreitada levaria à criação do Novo Homem e à detonação do Projeto Pesticida, que varreria da terra (com bombas atômicas) os humanos, já que a presença das Estirpes Involutas implicava em grande risco de degeneração; a obra de Nietzsche, a seu ver, trazia em códigos esta mensagem, com Zaratustra representando, alternada e veladamente, o suposto mentor ideológico do projeto e o Novo Homem.

  Mas a obra não adquire seu vulto na história do pensamento sobre a eugenia em função da assombrosa teoria resenhada (breve e injustamente) acima. O tomo três, que conta apenas cinquenta das 1088 páginas da obra, assusta pelo marcante contraste com o restante da obra: nele, Smirnakoff afirma que é – ele – o herdeiro intelectual de Hitler, e que o plano de purificação dependia apenas de seu gênio.

  O livro, publicado entre os membros do grupo em função da grande influência de que ainda desfrutava até então, foi recebido com ira e inconformação; em ríspida discussão com seu companheiro (talvez único que ainda guardasse admiração por seus anos de lucidez e produtividade) Jörgen van Baals – que tentava convencê-lo a forjar uma cena em que se diria difamado por algum malfeitor com o lançamento do livro em seu nome, Smirnakoff salta sobre Baals, agride-o até quase a morte e foge da cidade, levando consigo apenas as roupas.

  As cópias do livro foram recolhidas e arquivadas nos cofres particulares de Ten Boom; por ocasião da morte de seu sobrinho e sem herdeiros diretos declarados, os livros são doados à Biblioteca de Estudos sobre a Genética e Eugenia, em Londrina; pouco interessados no material, guardam uma cópia, sem catalogação – é desta cópia, encontrada por acaso pelo cientista e grande colega pessoal Efrânio Baptista, que levantou a história errante do livro e confiou-me em conversa particular.

  As idéias de Smirnakoff não constituem um marco na ciência e jamais adquiriram visibilidade ou credibilidade; seu livro foi esquecido e jamais se soube seu fim depois de sua fuga de Holambra – parece-me melhor assim, haja vista o ideário sugerido. Parece-me, no entanto, que há uma lição a se depreender da biografia de Smirnakoff.

  O programa paranóico de Smirnakoff comporta como preposto um fim da história e uma quebra do ritornelo, a superação da escalada eugenista e o nascimento da Florada Final; a recepção de seu livro e a história subsequente a seu desaparecimento atestam a inverdade de sua obra. No entanto, a história de Smirnakoff pode ser aproveitada e conter grandes lições do ponto de vista do papel da utopia e da crítica do sistema como forma de constituição de um sistema estável, ou seja: sua utopia, seu telos não se provaram procedentes, mas sua teoria do ritornelo, de alguma forma, sim – e disso a matéria na IstoÉ é prova.

  Desta proposição, derivaríamos as seguintes questões: talvez seja razoável imaginar que as proposições de utopia, de fim da história e de solução definitiva sejam simplesmente elementos catalisadores do ritornelo basal que marca a suposta escalada técnica da espécie humana. Se assim for, os sonhos e ambições são motores a nos impulsionar em direção a conquistas e progressos e descobertas… e de volta aos mesmos motivos.

   Smirnakoff, em sua errância, atesta a multiplicidade de sentidos atribuíveis a uma empreitada desmedida e desligante: seria possível e até provável que Smirnakoff pudesse, em seu afã revolucionário, desmascarar o DeSZ e, com isso, granjear seu lugar na história, talvez como herói; em seu tomo primeiro, Smirnakoff dá mostras de uma historiografia impecável e memorável da eugenia holandesa; sua vida e a relação desta com seu desvario, mais que tudo, dão-nos sinais das delicadas redes que ligam um homem aos meios pelos quais seus desígnios e envios se revertem em formas de interação e intercâmbio social.

   Gostaria de agradecer, antes de mais nada, a Jorge Luís Borges, por fornecer os princípios do recurso estilístico que hoje gloso, descarado e inábil.

   Peço-vos, por fim, que encham seus copos de vodka e, nesta terra disgênica, brindemos à memória de Boris Smirnakoff, artista, boêmio, cavaleiro andante, eugenista e inexistente

  W, 2010 – Speranza, coluna 3, 12 de agosto

   N.A.: para mau entendedor: “personagens e fatos citados aqui são reais apenas no universo da ficção…”, pelo amor de Deus!

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