Feed me

É claro que, vindo de onde vinha, ele tinha de fazer eventualmente uma ou outra colocação provocativa. Ninguém veria com bons olhos um midiático egresso da militância que não lançasse olhares ferinos, que não apontasse o dedo e desfiasse discursos tão astutos quanto venenosos. Era esperado dele – era isso que fazia ele vender, e … Continue lendo Feed me

A parábola do governante

Houve um governante, que governou muitas vezes, muitos lugares e por muitos tempos.  Talvez eu devesse dizer que há um governante, e não que houve, dada a atualidade de seu jugo; mas o poder repressivo e dominador do tempo presente me intimida, de forma que recorro ao passado. Talvez eu devesse dizer também que ele, … Continue lendo A parábola do governante

Aviãozinho

Te escrevi uma carta. Estava eu lá, todo tinta preta, vertido e versado em palavra, estava eu todo lá. Eu, todo lá, a ser entregue a você. Me escrevi numa carta, a remeter a você. E eu estaria contigo, como nunca estive sequer comigo. Eu seria a mancha que diz dos interiores, a mancha de … Continue lendo Aviãozinho

Lamento do Império Colonial

Vínhamos - não todos, todos. Era um engano imenso, do tamanho de um país. Estávamos unidos, uma farsa só, bandeiras a tremular, corações a tremular, pensamentos, todos tão seguros, hasteados nos mais altos mastros. Sorríamos uns aos outros, encantados conosco. Era uma festa, e era uma redenção, uma luta ganha de antemão. Uma luta ganha … Continue lendo Lamento do Império Colonial

Demora

Ao Martin, ao seu ser de outro tempo, e ao meu não entendê-lo o melhor que posso Corre o tempo. Corre como um rio, convida à serena habitação de seu burburinho. Em meio ao outro, menor, mais afoito burburinho, corre o rio em seu mudo, pacato, inevitável, inaudível burburinho. Habitar o sereno burburinho do tempo … Continue lendo Demora