O massacre dos inocentes

Chegou ali na vitrine e já reparou, a dona Dita, que o Moleque tava ali junto com os de sempre no farol.

De cara deu meio que um aperto, assim meio que no peito, de ver o Moleque ali – devia de ter o quê?, uns cinco, seis anos… isso não era idade de menino fiar assim o dia na rua.

Aí dona Dita apertou firme o cabo da vassoura e da pá, que emprego não tava sobrando e se o chefe encontrasse ela ali, empatando a vitrine, era uma só. E dona Dita apertava o cabo da vassoura; e olhava pro alto, e suspirava; e dona Dita limpava firme ali o canto da fachada, ali do lado da vaga de deficiente, que era onde vez em quando o João passava a noite, e aquilo ali era uma nojeira só. Dessa vez ele não tinha passado, tava só saco de lixo e jornal que o vento levava, mas a Dita já tinha o caminho dela pela fachada e o começo certo era ali pelo canto, pra já desempestear a parte mais pesada do cheiro do João e do estrume que o João botava ali, quando dormia.

Virou pra levar o lixo pro saco e logo viu o Moleque ali, sentado na sarjeta, tentando ajeitar a sandália que tinha arrebentado.

Não era nem nove da manhã e o Moleque já tinha arrebentado a sandália, vê se pode.

– Ô Moleque!, chamou a Dita.

O Moleque logo olhou, parecia que o nome dele era mesmo Moleque (vai ver que era).

– Senhora?

– E a Geni, tá onde? Não tá contigo, não?

– Geni tá no Matilha, senhora, tá numa casa de família, dobrando turno.

– Arre!

Dita olhou, rápido, pra dentro da loja. Viu que o chefe tava ainda no computador, mexendo no tal do sistema.

– Dá aqui essa sandália, Moleque, deixa eu ver.

O Moleque jogou a sandália ali próximo de Dita, como que soubesse da pressa. Dita logo encaixou a bolinha pra dentro do buraco, tinha só desencaixado, a tira tava boa, mesmo o buraco, na sola, tava bom, ainda.

– Pronto, tá aqui. Te cuida!

– Bênça, senhora.

– Jesus te salva, menino. Agora deixa eu voltar aqui pro serviço.

Desgraça de mulher, essa Geni, largando moleque assim dia cheio na rua! – isso, e um tanto mais, pensava a dona Dita, os nós dos dedos amarelos da força que punha no cabo da vassoura.

E o Moleque, enquanto isso, corria entre os carros, o trânsito mirrado do tal do lóque-dáun.

E toda vez os saquinhos com as balas caindo no chão, e o Moleque ali na correria, e os carros buzinando.

E os outros moleques ali, nas outras faixas, e se cruzavam com o Moleque era só dando “pedala”, nem uma mão de ajuda.

E o Moleque, se ganhava algum troco, era mais da cara de fome que arregaçava ali, cara de dó; Dita viu, sem querer ver, que a sofrência do menino ali bem abriu três ou quatro janelas de carrão de madame, as madame com o estômago torcido de ver um pretinho mais novo que os filhos delas ali, amargando sol miséria e fome.

E os trocos que o Moleque ganhava ali das madames, e a bolacha que ganhou duma outra, tudo ia pra mão dos outros moleques – uma mão toma o troco, a outra dá o “pedala”.

– A senhora vai bem, dona Dita?

Arre!, que era o chefe. Dita encostou ali o cabo da pá na anca, e limpando as mãos já foi logo falando “senhor, vou bem, sim, senhor, agradeço que pergunta”.

Dita olhava pro chão.

– A senhora conhece esses moleques?

– Conheço, sim, senhor, seu Arnaldo, eles vêm tudo de lá do Matilha.

– Matilha?

– Jardim Matilha, senhor, é de onde eu venho, também. Eles vêm na Kombi, estão todo dia aí. Senhor quer que eu peça pra eles fazerem o ponto em outra esquina, seu Arnaldo? O senhor querendo, eu peço.

– Não, dona Dita, fica tranquila, eu reparo que eles ficam aí, mesmo, não me incomoda – só reparei que a senhora pareceu preocupada. Aquele mais novo não costuma estar, não é?

– O miúdo? É, acho que ele, não.

– …judiação, menino novo destes assim, na rua, deve de ter nem seis anos.

– Verdade, dona Dita, uma pena, mesmo. A senhora sabe se eles já tomaram café da manhã?

– Sei, não, seu Arnaldo, sei dizer, não.

– Hm.

Arnaldo entrou pra loja. Dita ali, preocupada, tentando lembrar a história da Janete sobre a Caixa, como tinha ficado, que mudou, e não lembrava. E lembrava que tinha que varrer, e varria. E procurava na lembrança a história do seguro desemprego, como era que fazia. E pensava no Júnior, que ela não queria incomodar, que trabalhava tanto no tal do escritório novo e fazia tanto plano, e tinha saído de casa não tinha nem um ano.

Já terminava ali a varrição, e estava indo pros fundos com a vassoura e a pá, quando viu o Arnaldo saindo com um sanduíche de pão pulman. E enquanto preparava ali o balde e os panos pra lavar as vidraças ouviu bem o seu Arnaldo dizendo “vocês pegam aqui esses cinco reais. Esse sanduíche é do pequeno, aqui, viu? O sanduíche é dele, o dinheiro vocês se arranjam”.

Dona Dita pegou raiva daquilo. Seu Arnaldo tava era encrencando tudo ali, isso que sim – que agora os meninos iam pedir todo dia na loja. Que agora o Moleque tava era enrolado na mão dos meninos. Que agora eles iam reparar na Dita, e achar que a Dita protegeu o Moleque, que tinha dedo dela naquilo, e dedo dela não tinha era nenhum.

Arre! Que o seu Arnaldo fosse lá se estrebuchar no sistema dele. Que fosse xingar os clientes do zap, xingar os motoca do Rappi, e fosse pros quintos dos infernos, e deixasse a Dita e os moleques e o Matilha, que não mexesse.

E a Dita ainda cruzou com o Arnaldo no caminho, e ele sorriu quando passou, parecido um mocinho de novela das seis, a desgraça.

E Dita saiu na calçada, pra lavar a vidraça, e tava ali o Moleque.

Sentado na calçada.

E o Moleque comia o pão pulman, mastigando que nem bicho, e tinha os olhão estralado olhando pro sanduíche, e mexia a boca tudo do secume do pão.

E o Moleque tava feliz, feliz que era uma peste.

Sorria, o Moleque – a boca entupida de farelo seco, e o Moleque sorria. Sorria e nem olhava pra cima, claro, que não era besta de olhar pra cima e os outros darem nele um pedala e tomarem dele o lanche.

E aí veio a moto.

Moto grandona, dessas de domingo. Dois moço montado, tudo cheio de couro, os capacetão brilhoso. E aquele adesivo de caveira, daqueles que tem em carro de gente tonta.

Veio a zoada da moto, descendo aquela rua dum jeito só, e o barulho dela endireitando pra cima do Moleque. E a Dita, que olhava tudo, tudo que nem viu, do rápido que foi. Mas entendeu: que a moto saiu do caminho, e passou ali rente o menino, e foi da maldade dessas de graça.

Um dos dois, parece que o garupa, chutou o sanduíche, com a mão do menino junto, que voou tudo meio arremendado: pão e presunto e queijo e o guardanapo do seu Arnaldo, e o menino desgovernou pro lado do chute, e foi tudo caindo, enquanto que um o outro da moto, que parece que o que dirigia, foi dizendo “volta pro roçado, pretinho!”.

E os dois riam, e passaram ali no farol acelerando, que já avermelhava, já.

Só que o Menino.

O Menino, do jeito que caiu, rolou, da sarjeta pra calçada, e dali ele levantou, até meio desenho animado, e que já levantou erguendo a mãozica pro alto, e do jeito que vinha ele corria e foi gritando

“Bandido!, filho dum burro!”,

e ele foi indo pro meio da rua, pra direção que a moto tinha, já longe, ido – mas o garupa olhava pra trás, e a moto ia mais devagar,

e enquanto ia o trânsito ia esquisitando de desviar do Menino, e ele ia caminhando rua adentro, e a mãozica pra cima, e ele seguia gritando

“Vocês chutaram meu sanduíche! E chutaram minha mão! Isso não tá certo!”

Já vinha uma que outra buzina, ali na atrapalhação do trânsito.

E um dos moleques correu ali pro lado do Menino, que ia tirar ele dali, e foi com cara de bravo. Mas não esperava o Menino, isso não: que o Menino afastou, nervoso, a mão dele, e foi logo seguindo

“Tira a mão de mim! Tá achando que isso tá certo?”

E virou, de repente, pro lado do trânsito, e do buzinaço, e gritava

“E você, acha certo? Era o meu sanduiche, que o moço me deu!

E eu tô com fome!

O senhor já passou fome? Tá aí no seu carro, né? Eu tô com fome!

E isso aqui não tá certo.

Nada disso aqui tá certo.

Isso aqui tá tudo errado.

Tudo errado…”

e chorava, o Menino, a cara sofrida de quem sofre um mundo, e chorava baixo, mas que era um baque surdo.

E o buzinaço seguia, mas minguava de pouco em pouco. E o povo parava, ali, e punha as duas mãos no volante, e olhava pro Menino, e olhava pra baixo.

E um que outro chorava, já.

E a dona Dita, dona Dita que também chorava, choro quieto, engrandecido de beleza tranquila.

E encostou ali o pano na borda do balde.

E caminhou, a cabeça baixa, pra de junto do Menino.

E foi ali, assim, o Menino agachado, apoiado nos calcanhares, chorando que um Menino. E a dona Dita, que ali de junto do mais velho apoiava, com a mão de silêncio, o desfazimento do Menino. E os motocas que cruzaram ali, e um que outro que passava, e tudo remexido desde o lado de dentro. E o povo nos carros, que olhava pro Menino, e chorava, e olhava pra baixo.

E foi silêncio, o que parece.

Foi adoração.

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