T’s some blues you got II

[nota: esse texto cruza com outro bem anterior a ele publicado também neste blog, chamado “T’s some blues you got“]

Black… boa pedida, senhor: o Black é um belo whisky. Mas sabe que eu, nos meus tempos de whisky, tomava Chivas? Gostava muito do Black também, mas o Chivas me parecia mais… como chamam mesmo? Coisa de galã… galante! Parecia mais galante tomando Chivas, quase um 007. Por sinal, você não me conhece, desculpe a grosseria: meu nome é Arlindo, estou sempre por aqui. Imagino que você já tenha conseguido me medir discretamente e se pegue pensando como pode alguém chucro como eu entender de whisky, não é mesmo? Não se acanhe, eu não faria diferente. E o que acontece, supondo que tenha se perguntado isso, é que eu, mesmo tendo sido toda a vida homem humilde e trabalhador, por muitos anos tive ganho considerável e pude ao menos algumas vezes no ano tomar um bom whisky. Tive mesmo um Natal que passei em festa de rico, sabe, como vocês chamam… balada!, e estava lá à vontade como em minha própria casa, tomando um Chivas com energético, servindo os amigos que fiz ao longo da noite, dançando com a meninas da ala VIP, tudo isso na maior elegância, camisa nova da Colombo e tal e coisa. Claro, não me incomodo nem um pouco, pode sentar na mesa, eu não faria diferente, vai com deus. Ô Tonho, desce outro rabo de galo aqui. É verdade, não é, Tonho? Você lembra, não lembra?, eu andando por aí nos panos, do bom e do melhor, naquele ano, que ano foi?, faz bem uns três anos, não é? A Maria morava comigo ainda na época, ela mesma deve ter tido parte de eu cair, se bobear fez trabalho, pediu amor de volta, coisa assim. Eu sei, Tonho, eu sei, você sempre corrige, nunca esquece: ela foi embora antes. Sei que você pensa também – nunca me disse mas eu sei que pensa – que tudo que me aconteceu depois foi por causa da saída dela, como se eu tivesse virado avião e tudo o mais por não saber mais como lidar com o fato de chegar em casa e não tê-la lá, sei que pensa tudo isso, mas não é nada disso. É, e você também me desmente toda vez que eu falo isso, e eu sempre falo isso e deve ser porque eu mesmo penso isso, isso tudo também faz parte da ladainha. Mas olha só, deixa eu te conta: eu entrei no negócio porque quis, o Zito me pôs pra dentro mas eu aceitei porque quis, se quisesse sair sairia. Pode ser, aí sim você teria razão, que o sumiço da Maria tenha contribuído porque com ela em casa eu nunca teria frequentado o baile da Fidelis Filho, e não teria conhecido nem frequentado o fluxo ali do Mato Fundo, isso pode bem ser que tenha dedo dela – mas se tiver, mesmo se tiver, é dedo de falta de dedo, e contribuir deixando de contribuir não é contribuição e não explica nada. Sem a Maria em casa eu fui o que fui porque foi o que foi, não é mais culpa dela do que culpa do jogo que não me sai nunca no jeito – claro que se ganho o jogo saio dessa vida e, com todo o respeito, nunca mais te vejo aqui, mas não culpo o jogo por estar aqui agora. Mas é bem verdade, se me saísse o jogo eu sentaria ali com o homem de terno, ele me olharia de alto a baixo e veria em mim um igual, se não um melhor ainda que ele, e eu sentaria com ele e contaria como foi minha história de sucesso. Que será que ele faz aqui, Tonho? Por falar nisso, cadê meu rabo de galo? Não vem querer me cortar a bebida que eu bebo quanto eu quiser, já te disse que pago o que devo dia desses, já devi e já paguei antes, não me desconfie que eu não fiei desconfiança de ninguém em tempo algum!

*

Senhor, incomoda se eu sentar aqui? Lembra de mim, certo? Arlindo, ali do balcão. Fiquei pensativo, em vendo o senhor aqui em bar de reputação desviada, e o senhor em terno passado e relógio lustroso, e quis te dar conselho; juro que dou rápido para não incomodar. Vou puxar essa cadeira aqui, o senhor não se incomode.

Olha, fiquei pensando, nunca fui de usar terno, mas como acho que te disse antes eu já tive mais posse do que tenho hoje, e por isso pensei que talvez já tenha passado por situação como a sua. Não que saiba da sua situação, a bem da verdade não sei nem seu nome, mas pode ser que o senhor esteja passando por algo na sua vida que eu passei na minha, e se for assim pode ser que eu possa te ajudar.

Quando eu tinha dinheiro, estava triste, triste demais por coisas da minha vida pessoal que não cabem aqui; e então me vi gastando, não só o dinheiro, mas a mim mesmo, em lugares mais idôneos mas mais traiçoeiros do que esse bar. E o que queria te dizer, caso queira ouvir um conselho, é: não caia nessa, meu senhor. Termina seu Chivas – não, não, é outro, não é? É Red? Black, isso, Black! – termina seu Black com calma, paga o Tonho – ou melhor, deixa que eu pago, eu pago seu Black – e volta pra sua casa, e pra sua mulher ou namorada ou namorado, que eu não me meto na vida nem no desejo dos outros. O que eu quero dizer é: não atola na curva do rio, senhor, respira fundo, se endireita e acha seu rumo, não sei deixa cair que aqui é só desgraça, só desgraça… desculpa, senhor, é que eu me emociono, sabe, não leve a mal… não precisa se incomodar, homem também chora, o senhor parece culto e deve saber disso melhor que eu, não tem problema, não… senhor, não, deixa que eu pago seu Black, pode sentar, fica tranquilo… senhor, pode sentar, se não quer conselho eu volto para o balcão, não te importuno não… senhor! Senhor!

Não quer conselho, não é? Volta pra casa, então, senhor filho da puta. Volta pra casa, volta pro seu namoradinho, vai dar o cu! Eu sei, Tonho, não enche, eu sei, e não encosta em mim que eu vou sozinho, pode deixar. Não amola, Tonho; e põe na minha conta o Black do senhor pau no cu, vai ser uma honra e um lazer, um prazer.  Que horas são? Tonho, que horas são? O terminal já não passa mais. Eu não vou a pé de novo, de novo não! Tonho, empresta o toldo para me cobrir, vou descansar aqui e pegar o terminal de manhã; Tonho? Calma, tudo bem, não empresta então. Deixa eu me ajeitar aqui e já, opa!, ai!, pronto, pronto, passou, passou. Calma, Arlindo, Arlindinho, já passou.

Maria?

Não… fui eu mesmo. Arre!

Boa noite, Maria. Feliz ano novo.

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