Primeiro vem a pontada na cabeça – agora só a agulhada, já já explode mesmo. A língua tateia receosa a boca seca. Primeiro ele aperta os olhos, cria coragem, e então estrala os olhos, assim de repente.
Que casa é essa?
Ele está pelado, um lençol de seda bordô jogado cobrindo os pés. Alguém atrás dele, deitado – melhor não saber quem é. Será a menina da blusa de oncinha? Ela estava fácil, deve ser ela; ou algum dos caras do “triozinho feliz” da hora do sertanejo. Bom, seja quem for seria melhor para ele se deixasse quem quer que fosse ali e desse o fora o mais rápido possível. Levantando um pouco a cabeça ele mapeia as roupas principais dispersas pelo quarto e planeja sua fuga. A cabeça dá uma repuxada ardida do lado de baixo, o mais próximo do travesseiro – o dia promete.
Joga o corpo, cai já pegando uma meia e os sapatos ali ao seu lado, já vai ajeitando o corpo no rumo da saída, quando a cabeça explode. Ele sabia, já sabia, e mesmo assim dá uma cambaleada, a visão embaça, a cabeça pesa de novo do lado esquerdo e ele bambeia, o joelho parece que dói também, “que caralho eu fiz ontem?”.
“Ei, fujão!”; a menina ronrona, e ele já sabe que é a menina da oncinha, acabou de acordar e já está de cu doce.
– E aí. Então, preciso ir, tenho um projeto para hoje…
– Queria despedir…
– A gente se fala depois, agora não rola. Abraço!
Saiu do quarto antes de ver em que se transformou a cara de safada da menina – melhor assim. Filha da puta, como doi a cabeça! O papinho da menina deu o tempo de vestir a cueca e as calças, o celular e a carteira estavam nos bolsos, no elevador deveria poder vestir a camisa e os sapatos: tudo certo. “Casa chique, malandro!”, comenta ele ao aparador próximo à porta, cumprimentando a mobília de grã-fina da oncinha, a sala ampla e iluminada; no fim das contas o elevador dá pouco tempo a ele, provável que a oncinha morasse no primeiro ou segundo andar – passa pelo hall e pelo jardim do prédio abotoando a camisa, sapatos nas mãos. “Abraço, irmão!”, ele acena ao porteiro. Abaixa-se ao lado da portaria para vestir os sapatos e a cabeça lateja inclemente, ele quase cai, pende a cabeça para o lado esquerdo mais invocado, dá um soco na têmpora, chacoalha a cabeça, aperta os olhos… à farmácia, agora.
Acaba de levantar, pensando na farmácia, quando muda os planos – vê um táxi passando e acena.
– Vila Prudente, amigo.
– A essa hora? Ok.
Deve estar longe… merda.
– O metrô Clínicas é mais tranquilo?
– Clínica é do outro lado da cidade, irmão; se quer ir ao metrô posso te deixar no Tatuapé, ajuda?
– Se é o mais próximo pode ser, vamos lá.
Tatuapé, mano… oncinha paga de rica mas mora que é uma merda. O celular toca. É o Toco… puta, o projeto!
– Chora, Toco.
– Acordou já, donzela?
– Que é?
– O projeto é para hoje, Zóio, o homem é bravo, não queima a gente…
– Se o tal do homem ligar avisa que eu fui à casa da mãe dele e assim que terminar o serviço dela eu faço o dele.
– Para de graça, malandro, você sabe que a gente precisa da grana.
– Relaxa, Toco, tudo em ordem aqui. Abraço pra família aí.
Seis ligações, todas do Toco – que criança! Mensagem de voz… Toco também, certeza. Falcão no Whats, “de bobeira?”, Zóio manda um “cabeça explodindo, dei pt ontem, tô no leitinho hoje”. Aí o Zóio lembra que o Falcão pegou farinha nova um dia desses, biqueira nova, fita limpinha, desperdício… “bato um h em casa e colo aí, tem breja no jeito?”.
– Metrô Tatuapé, camarada. Trinta e sete reais e sessenta.
– Passa no cartão aqui.
A caminho do metrô avista uma farmácia. Compra um Engov, um Eparema, um Doril, um genérico para o estômago, um Monster de 350ml, um Gatorade – se tivesse uma virgem meio feinha no jeito sacrificava, como dizia o Toco (quando o Toco ainda fazia alguma coisa).
Metrô tranquilo, consegue até sentar – do lado de uma velha fedida, mas senta. Marcaram ele no Face, ele e a oncinha de pulseirinha e whisky-energético na mão; não reconhece o check point, balada esquisita, que horas será que foi isso? Estavam no The Week, que lugar era aquele? Se desmarca meio enojado, bloqueia a oncinha (Syllen, mano… Syllen! Vê se pode!). Reabre o e-mail com o projeto – coisa tranquila, cinquenta minutos e ele queima. O telefone toca – Toco, de novo.
“Porra, tá chato, hein, irmão? Qual é?”
– Você não vai fazer o bagulho, né? Já tá fazendo?
“Relaxa, tô bonito aqui, tá tudo em dia”.
– Tá fazendo o projeto ou não?
“Acabei de bater o olho, chego em casa e já despacho”.
– Concentra aí, ô ideia fraca.
“Ideia fraca é seu ovo, irmão, puxa o saco dos caras e eu faço o trabalho de gente grande, assim tá melhor, beleza? Eu me viro, lembra do meu trampo? Eu mando muito, irmão!”
– Para de viagem, Zóio, a gente não vai te segurar pra sempre.
“Então larga”.
Baldeia no metrô, compra três garrafas de água, a cabeça já não incomoda mais, sente os passos bem leves, quase como se ele flutuasse; o som vem meio abafado, ele testa e não é problema com os fones de ouvido, é ele mesmo – ouvido de merda.
“E aí, Tonho! Firme?”
Chega em casa. A mulher da limpeza passara lá na véspera, o apartamento está todo emperequetado. Liga o note, enche a última garrafa com água da torneira, escreve para o Falcão “termino aqui em meia hora, antes das oito colo aí… levo breja?”. Pega um Red Bull na geladeira, liga o som no dock e senta – é zerar o trabalho, coisa rápida.
A tela do computador toda embaçada… mexe no ajuste e o ajuste está embaçado também. Sente-se estranho de repente. Repara então que as mãos estão tremendo e suando. Passa as costas das mãos pela testa e repara que está suando, a camisa molhada e abotoada desigualmente. O peito aperta um pouco.
#1. Mãe. Discar.
“Mãe? Chama o SAMU, manda pra cá, acho que não destranq…”
O celular escapa das mãos. Ele inclina para pegá-lo e cai, o peito aperta, ele busca ar, o xixi aperta, muita água, nem vale tentar segurar, mijei no celular, já era… celular novo, mano… caralho.
