ENCONTRAR-SE – Minha experiência na saúde mental de Taboão da Serra e meu compromisso comigo mesmo

                Dou-me, por uma vez, o direito de ser brega, consciente e descaradamente; espero que a oportunidade justifique a falta de classe.

                Tive vida agitada ultimamente, muitas mudanças em muito pouco tempo – a maioria das mudanças muito boas e interessantes, pelo que sou grato. Trouxeram, no entanto, um grande inconveniente: deixei ficar para trás uma parte importante de mim, que só muito recentemente recuperei.

                Ao final de 2012, em meio a uma série de outras mudanças em minha vida, decidi deixar o cargo que ocupara por um ano e meio como psicólogo em Taboão da Serra. Assumira o cargo pela perspectiva de ajudar a instalar e compor a equipe inicial de um CAPS II – para alguém interessado e envolvido com a saúde mental pública, uma oportunidade imperdível. Fato que a experiência em Taboão foi profundamente marcante, mas por razões muito diversas das que imaginava: trabalhei um ano e meio imerso em corrupção, inépcia administrativa, miséria, descuidos, desmandos, vácuos de gestão e autoristarismos.

                A experiência, difícil desde o começo, assumiu contornos variados ao longo do tempo, mas em momento algum estive, como gostaria, em um serviço territorializado e seriamente engajado na atenção à saúde mental da população. Vi e vivi muita coisa, nada de que me orgulhe, muito que me marcou muito e me fez pensar muito. Quando enfim decidi sair de lá, não foi pela inconveniência nem pela ineficiência, já que sair por isso me pareceria abandono e egoísmo; saí de lá porque vi que como psicólogo lá não poderia fazer nada significativo e estava, pelo contrário, me pegando alguém ressentido, abatido e conformado, tudo que não queria.

                Pus-me, então, a fazer pactos comigo mesmo (com a neurose que me administra): sairia, mas continuaria engajado com o que fora, desde o princípio, meu interesse quando assumi. Se saía, saía para fazer direito o que assumira para fazer. E foi assim que mergulhei em alguns projetos em 2013 – entrei em contato com a Defensoria Pública, com o Ministério Público, escrevi no HumanizaSUS, escrevi um texto para uma revista acadêmica de saúde mental. Nada disso, temo, influenciou em nada o que acontece em Taboão da Serra, nem levantou perspectivas de mudança; e, que fique claro, minha ideia é trabalhar para que algo efetivamente aconteça – não tenho interesse em virar acadêmico a proferir interesses e pertinências a respeito da miséria e sofrimento alheio, como meu modo de viver e alheio ao que disso possa advir para aqueles sobre quem escrevo. Ou seja: quero escrever sobre a saúde mental de Taboão da Serra como militante, como delator, como testemunha, e não como pensador querendo produzir ciência (embora, óbvio, uma coisa não negue a outra).

                Então, às breguices: descobri recentemente que me tinha deixado afastar demais dessas preocupações, e desse ofício. Envolvido que estava com o cotidiano e seus afazeres, esqueci do compromisso que assumi. Se fico triste por perceber que pude me deixar esquecer com tanta facilidade, fico feliz ao perceber que reencontrei essa causa, esse projeto, essa proposta; e vejo agora como essa proposta continuou latejando por baixo da rotina, e como marca as escolhas que fiz desde então: dou aulas sobre Psicopatologia e sobre Psicanálise, marcadas profundamente pela política e pelo engajamento como pontos fulcrais desses campos; sou membro do Grupo de Informação em Saúde Mental, grupo que tem me rendido muita alegria e que espero que me ajude com essa minha proposta; e atendo no consultório, atento e disponível àquilo das pessoas que as marca e as determina sem que elas muitas vezes consigam se dar conta.

                Lembro de um momento em que, imerso na angústia e tédio (sofrido tédio) que o CAPS II de Taboão me despertava, tive a ideia “ingênua” de ler Modernidade e Holocausto, de Zygmunt Bauman; e fui me surpreendendo, e perdendo o ar, e me chocando com os relatos que Bauman faz da participação de “gente de bem” da Alemanha nazista, na condução de trens, no acionamento de alavancas, na segurança, na manutenção de máquinas de matar. Fui me surpreendendo comigo mesmo, cidadão de bem engajado em uma máquina, burocrática máquina, eu e minhas boas intenções fazendo o possível em meio aos absurdos; e fui me surpreendendo com o quanto eu me apaziguava com minhas bravatas e meus ideários e minhas bandeiras.

                Eu, a despeito do que seja, estive presente enquanto em Taboão absurdos aconteciam; mesmo sem estar lá, sei – infelizmente sei – que absurdos similares acontecem ainda hoje. É claro que devem acontecer similares em tantos outros lugares em outras cidades de São Paulo e do Brasil – infelizmente sei disso também. Mas isso não muda, para mim, grande coisa: estive lá, trabalhei em grupos e acolhimentos e reuniões e alavancas e conduzindo trens e, achem bizarro se quiserem, mas eu quero que o mundo saiba.

                Não sei se escrevo para me apaziguar; não sei se escrevo como bravata, ou em busca de reconhecimento; sei, e isso me basta, que redescobri o “fio vermelho” que me determina e me atravessa como cidadão e como profissional, e não quero me esquecer de novo tão cedo.

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Um comentário sobre “ENCONTRAR-SE – Minha experiência na saúde mental de Taboão da Serra e meu compromisso comigo mesmo

  1. Isabel Maria da Silva Marin Guerretta

    Fico feliz que redescobriu “fio vermelho”, mas não deixe de perder o “fio da meada”

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