Semper fidelis – invadindo a Fidelis Filho

Eu estava caminhando, na rua; era perto de casa, mais ou menos o caminho que eu percorro a pé até a padaria. E no caminho para a padaria eu passo por uma travessa, uma pequena rua sem saída, que sempre me chama a atenção – Fidélis Filho, algo do estilo. Essa rua sempre me chamou atenção, essa coisa de as pessoas se instalarem em pequenas dobras, escondidamente “no escurinho” da cidade e sentirem que isso era “um pouco de paz” – sempre me chama atenção, a tal Fidélis.

Por um acaso reparei em um cachorro, que revirava um saco de lixo e sumia na paisagem até então, mas que com minha aproximação parou, olhou para mim e entrou na Fidelis; e eu tive certeza, mas não era bem certeza, que esse cachorro era o cachorro que me perseguiu na rua da casa de minha avó na minha infância, e que me fez andar sozinho pelas ruas de São Paulo pela primeira vez – porque eu corri tanto que acabei me perdendo, e encontrei o caminho graças a donos de banca de jornal e guardinhas de rua. Com uma certeza incerta acabei entrando na Fidelis.

Logo ali à entrada da rua havia um homem sentado num banquinha, os braços cruzados, a cabeça baixa; pela careca, pela pose e pelas circunstâncias supus ser um guardinha de rua. Mas quando me aproximei ele me olhou como se soubesse quem eu era, e ele era o Freud, o Freud velhinho que sai nas fotos de fim de vida, de terno com charuto e câncer e escrevendo o que deve ser o esboço de psicanálise. Ele me olhou, com aqueles óculos redondos dele, e disse Você está procurando as putas, não é? Aquelas que a gente encontra quando se perde. Sei como é, mas não há putas por aqui; você devia ter mais cuidado, sabia? Confunde sorte com despeito.

Por alguma razão eu não me assustei, nem com o fato de ter encontrado Freud, nem com a bronca que ele me deu; na realidade não me importei muito, com um sorriso preguiçoso disse Beleza, cara, agradeço, boa sorte e bom descanso – e isso foi exatamente o que eu disse a um guardador de rua que reclamou quando dei dois reais pelos “serviços” dele na véspera, que disse que eu não dava valor à vida boa que papai me dava, e que eu devia tomar mais cuidado.

Segui pela Fidelis, as casinhas miúdas ali esparramadas, árvores, pássaros, tudo bonitinho – na verdade não lembro de pássaros, nem de céu, lembro das casas e das árvores, acho que o céu não existe, ou existia – até que divisei lá na frente uma rotatória, e no centro dela uma mesa com pessoas sentadas.

Fui me aproximando e logo os reconheci: ao centro estava Foucault, careca, gola-rolê, óculos de armação grossa, falando alto e gesticulando muito; do lado oposto – mas ainda de frente para mim conforme eu chegava, não sei bem como – Deleuze, que era Deleuze mas se apresentava como Zé do Caixão, mas era Deleuze com os olhos faiscantes e a postura serena à la montanha imóvel; ao lado deles dois outros homens que não sei ou não lembro quem são, mas que pelas circunstâncias devem ser figuras influentes da minha trajetória e que eu “incorporei” sem grande respeito. Agora que me ocorre que um deles era, acredito, David Cooper da antipsiquiatria inglesa, que no entanto se apresentava como Hagrid do Harry Potter.

Eles estavam jogando go, mas o Foucault era o único que parecia estar envolvido ou se divertindo no jogo – os demais pareciam me esperar, mesmo que isso não faça sentido nenhum. Lá pela metade do caminho de casinhas que levava à mesa deles eu me dei conta que estava me aproximando deles decidido e empolgado, e me dei conta que eu precisava mesmo encontra-los para discutir uma coisa rápida; pensei, a essa altura, que podia só resolver isso e já voltar, passar na padaria e pronto, “chega por hoje”. Enfim, cheguei lá e comecei a conversar, falando com todos mas me dirigindo somente ao Deleuze, que fazia pose de interessado e cujos olhos faiscavam (nessa altura ele não se apresentava mais como Zé do Caixão, já era o Deleuze que aparece na entrevista com a Claire Parnet). Eu sabia, dizia eu a eles, que talvez tudo parecesse ruim e errado, mas que se eu havia deixado os combinados para trás era em respeito à nossa história, que eu conhecia nossa história e conhecia tudo que me ligava a eles. Deleuze deu uma meneada com a cabeça, Você sabe que não é só isso, você se perdeu, o que nos unia se rompeu, Não é isso, cara, eu dizia, mas eu sentia que ele tinha acertado alguma coisa lá dentro.

O Foucault estava gesticulando e falando o tempo todo, mas não saía som discernível que comunicasse algo ou atrapalhasse a conversa, mas nesse ponto ele entrou na conversa e me dizia Cara, essa sua cena é ótima, façamos um banquete, você corta umas cabeças, fazemos um estardalhaço, veja bem, meu caro, essa sua preocupação é bem ridícula, faça-se mais interessante, mais interessante!

Nesse ponto acontece uma coisa muito curiosa: o que era uma rua sem saída virou de repente uma bifurcação – não uma bifurcação na Fidélis, mas uma bifurcação na narrativa, porque nesse ponto acontecem duas coisas.

Uma delas não aconteceu, mas esteve em mim, e esteve lá, e marca definitivamente o curso da coisa: nessa altura em que o Foucault matraqueava, falando tudo aquilo daquela forma prolixa, bem, nessa altura, ele para, me olha com os olhos esbugalhados, tipo maluco de filme, e me pergunta com um sorriso meio bisonho Aceita um chá, um chá?, e abre os braços bem expansivamente, e detrás dele explodem confete e serpentina, e parece que começa uma música alta e dançante dessas de musical, mas nada mais acontece porque essa parte termina aí.

Mas isso, de fato, não aconteceu. O que aconteceu foi outra coisa bem diferente: do nada – onde antes estiveram as casas de um dos lados da rotatória, mas onde agora tinha nada – vinha a toda velocidade o Lacan, dirigindo uma Mercedes-Benz conversível branca, e parava muito rápido bem ao lado da mesa de go e de mim; engraçado que ele não usava gravata borboleta, mas uma echarpe que esvoaçava ao vento (mas não ventava, que eu me lembre). E ele, o cotovelo apoiado na porta, Hum, esse jogo não funciona. Vejam isso, aqui sim algo acontece (nesse ponto ele joga uma coisa em cima da mesa, mas ninguém olha para a coisa imediatamente e a essa altura ela ainda é só uma coisa, nada mais). E aí ele olha para mim – não que ele me veja, ele parece olhar para si mesmo, mas volta o rosto para mim de forma bem teatral, e eu sei que ele tem uma fala pomposa para fazer; e ele me diz Hum, escuta, volte a sermanais que vem, certamente vem. E eu olhei um pouco de lado, porque estava compenetrado em busca de entender aquilo (eu sempre faço isso, é meio instintivo) e quando eu olhei de novo ele já não estava mais lá, nem ele nem a Mercedes. Engraçado que nesse ponto eu dei um sorriso porque imaginei, juro que imaginei imediatamente ele fazendo essa mesma cena com a imagem e a voz do Batman, e sumindo como o Batman diante do comissário Gordon.

Depois do Lacan eu não tive mais contato com os caras do go, nem cheguei a ver a mesa – mas eu sei, sei limpidamente que o que ele jogou na mesa era uma espécie de nó borromeano feito com barbantes e a borrachinha da cafeteira italiana. Mas enfim, não os vi mais, e quando dei por mim estava imaginando que aquele cachorro poderia perfeitamente bem ter sido um elefante, porque eu lembrei da cena em que o protagonista do Morangos Silvestres sonha com o enterro e o homem sem face – não que uma coisa tenha a ver diretamente com a outra, mas a montagem do sonho do Morangos Silvestres sempre me lembrou O homem elefante, que por sinal eu nunca assisti.

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