Sheylla e as mortes – um monólogo

O amor, quando o descobri, foi belo. Não belo como mensagem motivacional, nem belo como comédia romântica: foi belo como o pulsar do sangue, belo como a morte. Belo, o amor, como a queda do amor pelas mãos do sexo, a vitória e a glória da baixeza sobre os ideais da bela vida.

Quando descobri o amor estava movido pelo ódio, ódio de meus pares e de meus pais, ódio que se impunha a mim em fulgor lancinante, e eu indefeso. No auge de meus dezesseis, ou seriam dezessete?, anos, fulminado por ainda outra frustração, bati a porta do sobrado de meus pais e corri – corri porque precisava extravasar, corri porque era longa a caminhada que separava o subúrbio inerte da cidade baixa onde eu buscaria vingança. A raiva e o medo impuseram à caminhada pedras e tropeços que me lançaram, por descaminhos tortuosos, ao prostíbulo onde afinal afoguei ou deixe-me afogar, com ímpeto, pelo animal que me devorava. Destinos mais nobres se me afiguravam ao longo do trânsito; melhores, certamente melhores destinos dispunha a mim mesmo, tapete vermelho estendido, quando bati aquela porta que se desfiguraria, dali em diante, para além de qualquer reparo possível. Quando, afinal, me contive, estava já irreconhecível, o animal pulsava, e eu entrei no prostíbulo já nu de mim mesmo e pronto para o sacrifício.

Quisera eu ter me esquecido do lugar, poder recordá-lo a meu sabor com cortinas drapeadas, papel de parede vermelho, uma gorda cafetina fumando em vestido indecente à sua pujança, convocando com olhos cansados as belas damas, belas, indefesas, dominadas, injustiçadas em seu ofício ingrato e sagrado; quisera eu. A memória me trai, no entanto, e da casa mundana recordo cada imperfeição, cada desarranjo, cada falta de gosto: as flores de plástico, os tijolos baianos à vista, os móveis de terceira categorias, o “responsável” de regata e pelos à mostra, as putas feias. Fui atendido com descaso, sem rancor nem falsidade, a minha particular puta feia mostrou-se apática e indiferente, furtou-se à teatralidade dos ruídos animais do coito (fingidos ou não), cedeu-me o produto e resguardou-se a qual for a cova vazia de si em que se acomoda à espera da morte. Há um grande engano quanto ao que circula pelas ruas sob o nome de sexo, e a verdade do ato foi-me exposto sem dó pela puta feia daquele dia, e a verdade mostrou-se em “toma meu buraco, se esconde aí”, ao que se seguiria o “dá-me teu dinheiro e me escondo aí”, passar bem e até a próxima.

Atrás do dinheiro escondemo-nos todos, pouco engano cometo nesse aspecto. E quando cheguei à casa de meus pais – que já não era mais minha – estava desprovido de qualquer engodo, qualquer consolo. E a beleza, a beleza do amor e do sexo que se me tornou clara de lá até hoje, é a beleza do sexo e do amor e do sangue pulsante e da morte – particularmente da morte. Pela morte nutro um fascínio, e quando ela chegar me esconderei, afinal, satisfeito e faminto em seu buraco insondável.

As mulheres de minha vida, desde então, foram muitas e pouco diferentes entre si, como pouco diferentes são os dias que me recebem e que me vêem partir. Dia viria em que eu também receberia os dias em microssaias e de busto à mostra, como bem o sabe – mas essa é ainda uma outra história. Quando o amor de meus pais me descobriu foragido, ele deveria ter sabido que de há muito eu já não estava mais lá, e que o buraco onde eles se encondiam em mim era tão somente o custo inarredável para o dinheiro sob o qual eu, por minha vez, me escondia. Somos filhos de uma vida puta, creio que o sabes tão bem quanto eu.

Se te digo uma coisa com pretensão de teatralidade, é isso: Deus pode ter derrubado Babel; poderia se quisesse, ter lançado treze vezes treze raios, e depois treze metros de sal sobre a terra inerte – Babel é mais que uma torre, é uma condição, é o desterro e o absoluto. Tu me dizes impropérios enquanto me toma, chega em casa e cobre sua esposa de carícias, e a verdade que ocupas é o vazio da morte que ainda não lembrou de ti. Mas me confesso pouco afeita ao teatro – vamos ao bar, me pagas um gin, te acaricio o peito, dás-me trezentos reais e nos vemos na próxima.

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Um comentário sobre “Sheylla e as mortes – um monólogo

  1. Lucas C. Gordon

    muito bom!, acho que demanda uma segunda leitura.
    em algo que não estou bem certo me lembra o texto da peça “Vaca de Nariz Sutil” dos Parlapatões, que assisti na adolescência então não me é tão clara a lembrança, mas algo a ver com o tema da sexualidade masculina que é “sugada” pela feminina, uma relação da buceta com a cova.

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