As incríveis aventuras de Agenor, o Cotidiano

Às vezes o excesso de açúcar da Coca estraga o efeito do excesso de gelo e de gás; é uma pena, porque no mais das vezes a Coca comparece simplesmente para dar essa sensação estranha de uma espécie de leveza eufórica, uma espécie de filhote mal-gestado do gás com o brain freeze.

De qualquer maneira, não podia reclamar; se fosse reclamar, na verdade, o adequado seria reclamar do tamanho reduzido e do péssimo gosto para a composição do acervo da Laselva pós-reforma. Triste, profundamente triste procurar um livro, gostando-se tanto de livros, e encontrar só esses arremedos de literatura. A biografia de Anderson Silva… quem é Anderson Silva?

Ocupado como estava com pensamentos prosaicos, artificialmente prosaicos, e com a agradável sensação de estar no aeroporto sem a menor pressa, Agenor deu-se conta só depois de algum tempo do fato de que fazia pose para a mulher que desfilava pela livraria com as malas imensas e as roupas decotadíssimas. Instalada, no entanto, a tardia percepção, Agenor não demorou nada para armar todo o maquinário articulado em torno dessa percepção e da insegurança associada a ela: sentiu-se um almofadinha, o pulôver jogado nas costas, os braços do pulôver apoiados no ombro e cruzados à sua frente (que ideia ridícula, meu Deus!), a camisa listrada em azul-calcinha-demais e branco, o cabelo repartido… saía-se um perfeito ridículo, afinal de contas. Chegou a enrubescer quando percebeu que trazia os óculos pendurados na ponta do nariz, lendo por cima deles a contra-capa da biografia do tal Anderson Silva.

O golpe derradeiro caiu quando estava quase saindo da Laselva, sentindo que evitava o pior e disfarçava bem: tomava a Coca de canudinho, era a tragédia!

Sentou-se no café ao lado, perturbado; sem entender muito bem a comoção que o movia, levemente atordoado, enfurnou a cabeça quase inteira dentro da mala em busca de qualquer coisa, ou nada. Aos poucos voltou a si, fechou a mala, puxou o Valor Econômico que trazia na lateral da mochila – era o fim da farsa da descontração e do desapego. Ok, ok, precisamos dar nome aos bois: não sabia quem era Anderson Silva, cuja biografia era best-seller, não tinha o menor interesse por vampiros ou por Justin Bieber, e poderia passar dias e mais dias mordendo a ponta dos óculos enquanto lia sobre as desventuras da bolsa e a maravilhosa jornada de Dow Jones. Ridículo ou não, somos quem somos, c’est la vie.

Moça, vê um café! Você joga fora essa lata pra mim, por favor?

Reparava, só agora reparava que o celular brilhava desesperado de dentro da lateral da mochila, sabe-se lá quanto tempo sufocado pelo Valor Econômico; haveria esperança para ele?

Uma mensagem… a mensagem do celular; o que teria ele a dizer?

“Oi pai! Traz pra mim um jogo, o Assassin’s Creed 3? Brigado! A mãe mandou um beijo e boa viagem, a gente tá no shopping”.

Seu café, moço. Um brigadeiro? Certo, já trago.

Pendulando como um hipopótamo, a periguete que desvendara seu pulôver almofadinha e o canudinho da Coca-Cola passa por ele, a bolsa dourado-brilhante reluzindo as luzes do saguão; um senhor careca com cara de motorista de táxi passando por ela na direção contrária acompanha-a contorcendo-se todo; Agenor imagina o taxista como uma coruja, girando a cabeça em quase 180 graus para acompanhar os movimentos da selva, e esboça um sorriso.

Balança o relógio de pulso, ajeitando-o depois com a mão, antes de olhar as horas – ainda tem tempo.

E aí, filhão! Como chama o jogo, Assassin’s Creed? Certo, compro sim. Vê se a mãe quer alguma coisa; não? Certo… passa o telefone, filho, quero falar com ela – se conseguir mesmo a folga faço a visitação no Camp Nou e te conto tudo depois!

Oi, amor; tudo bem? Claro, sem problema. Não, não esqueci nada, não, tudo certo. E você, tudo certo? É, tenho bastante tempo, mas é bom que eu me atualizo, fazia uns três dias que não lia o Valor.

Tudo bem, preciso desligar aqui, também; se cuida. Deixa eu te falar, rapidinho! É… te amo, viu?

Seu brigadeiro.

Tampa o microfone do telefone. Obrigado, moça.

É, não sei, quis te dizer, fico feliz com a gente. Se cuida, aí. Beijo.

Agenor puxa um guardanapo, dá uma leve fungada, enxuga uma pontinha de lágrima que quase escapava.

Assassin’s Creed… melhor anotar, senão depois ele esquece.

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