Viela 4, casa 5 (fundos)

  Ela se joga na cama, acabada; sente com desgosto que os lençóis ainda estão molhados da noite anterior. Franze levemente o cenho, suspirando profundamente. Ela está cansada; muito cansada.

  As costas dóem, os pés formigam; antes que se dê conta ela já está sentada na cama, as costas arqueadas, os braços jogados sobre as coxas, numa posição de atleta após a maratona. Mais uma vez ela suspira profundamente, e ao encher os pulmões ela sente uma leve pontada na lateral esquerda do tórax.

  A garrafa de cachaça, pela metade, ainda está ao lado do pé da cama; ela se estica para alcançá-la e toma um longo gole, no gargalo. Lambe os beiços, passa o braço pela boca, faz uma careta.

  Olha à sua volta impaciente, sem estar exatamente à procura de nada, ou, talvez, à procura de qualquer coisa. A imensidão de objetos jogados à sua volta não parece atrair sua atenção.

  Ela está impaciente. Sabe que a qualquer momento as vozes chegarão, e ela estará sozinha, infinitamente sozinha, ao longo de toda a noite sem fim.

  Mais uma vez.

  Aflita, toma mais um longo trago de cachaça; já não sente mais o formigamento dos pés.

  O quarto aos poucos vai perdendo os contornos; ela sente a cabeça mais leve. Sabe que terá poucas recordações claras do que se passou desse momento em diante, conforme mergulha na noite. Sabe, por outro lado, que dificilmente sabe o que se passou nos últimos anos – nos anos desde que a Ana morreu.

  Sabe, ela sabe que a noite o engolirá mais uma vez, e que mais uma vez o terror há de matá-la nesse suplício que parece não ter fim.

  Ela acorda com um bater de palmas; “ô de casa”, uma voz feminina grita. “Dona Fátima!”

  Deve ser a moça do posto. A mesma moça que veio há uns dias, a moça que disse que ela precisava ir ao posto. A moça quer saber se ela está bem.

  “Dona Fátima?”

  Ele deveria saber; deveria saber quando ela não foi no posto que ela não pode se cuidar.

  É claro que deve ter alguma coisa a ser feita pelo seu pé, pela sua pressão alta, pela dor nas costas, pelos formigamentos e a tontura. Se ela fizesse alguns exames, se consultasse alguns médicos, se fosse ao posto algumas vezes, ela talvez recebesse uma pilha de remédios, e ela ficaria melhor de algumas coisas.

  “Dona Fátima, a senhora está aí?”

  E ela iria ficar só. Só com os horrores, com as vozes, só com a dor das noites sem fim.

  “É a Carmen do posto de saúde, dona Fátima! A senhora não abre para nós, não?”

  Ela, e a humilhação dos exames e dos médicos e das filas, ela e os remédios coloridos de manhã e no almoço e de noite, ela e o silêncio dos seus pés e das suas costas. Ela e a dor, a dor, a dor.

  “Dona Fátima, eu trouxe aqui o enfermeiro, que é para ele poder olhar sua pressão, para ele poder ver seus pés. A senhora abre aqui, por favor?”

  Ninguém pode ajudá-la, e ela sabe disso. Seu lugar é só; sozinha. Sozinha com sua dor, seus pés que dóem, suas costas que dóem, sua alma que dói. Ela e o buraco que é a Ana, Ana que morreu e levou seu coração com ela.

  A moça, a Carmen, bate palmas de novo lá fora. Agora ela parece estar perguntando à vizinha se ela está em casa, a Deolinda.

  “Ih, deve estar chumbada na cama a essa hora. Ela se entope de cachaça de noite, fica falando sozinha, se bate nas paredes que parece que isso tudo vai cair… ela não sai da cama antes de meio-dia, não. Ainda mais que ontem ela fez faxina lá na cidade, ainda!, voltou com uns trocados e deve ter comprado cachaça novinha. Ih, minha filha, essa aí é melhor entregar para Deus que os médicos não salvam mais, não”.

  ‘Hoje é quarta-feira, então’ , ela pensa; mais tarde precisa levar o lixo para a rua, lá embaixo no asfalto.

  Carmen bate palmas ainda outra vez.

  ‘Um dia’, ela pensa, ‘eu crio coragem e isso tudo acaba de uma vez. Aí, Aninha, aí eu te encontro de novo, e aí sim tudo fica bem. Coragem, Aninha… coragem’.

  Lá fora, pelo silêncio, Carmen parece ter ido embora.

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