O pequeno rei e o vulto no fundo do espelho

Gustavo Valentim, "e quando pulsa"

Ele senta, afundando-se na poltrona[1]. Com alguma grandiloquência repousa os braços ao longo dos braços da poltrona; parece agora um pequeno fantasiando-se rei, postado imperiosamente em seu trono.

  Volta o rosto levemente, lentamente, para um lado, os olhos fechados, estufando o peito com algum pesar.

  Ele sabe que ela não vem; sabe que ninguém vem. Isso já não o incomoda – como um membro há tempos perdido, ele já não trata mais as limitações como limitações, resigna-se a um mundo encolhido em amplitude, a parede limitante duramente pintada pelo ressentimento, a frustração. Isso já não o incomoda – o que o incomoda é a passagem, como um vulto no fundo do espelho, da ternura que foi, da vontade que ela viesse.

  Dói quando a placidez da resignação se vê tingida pelo ardor das paixões antigas; dói quando os fornos concretados das paixões antigas se fazem notar através do castelo que construiu com tanto custo.

  A respiração profunda é quase um arfar, um esforço de exorcismo. De súbito abre os olhos e busca na mesa de descanso os cigarros e o isqueiro.

  Ele precisa lembrar-se de descer mais tarde à portaria, registrar reclamação pelas festas e barulho excessivo do vizinho.

  Ele não entende todo o barulho – qual o propósito? As pessoas parecem fazer um esforço enorme para se convencer que estão felizes e bem; parecem fazer um esforço enorme para se apegar aos prazeres comezinhos, às narrativas comoventes, a toda bóia e todo destroço que ofereça guarida na desolação do mar aberto onde se nasce e morre.

  A fumaça do cigarro começa a se acumular na sala, fazendo com que o facho de luz vindo da janela produza padrões  variantes.

  No fundo ele sabe, é óbvio que ele sabe, que as reclamações não vão adiantar em nada; o panaca do vizinho é tão risível quanto o zelador e o síndico, almas carentes desdobrando-se em esforços para serem aceitos, serem gostados.

  No fundo não faz diferença nenhuma se ele reclamar ou não.

  Lá fora os carros desatam em uma sinfonia de buzinas, algumas breves e repetidas, algumas compridas e intervaladas; uma delas, muito mais grave e alta, se destaca e parece produzir uma certa compressão do ar quando retumba. Ele olha para a janela de onde o som vem, apático, indiferente.

  Ele alcança com algum esforço o controle remoto da televisão. As primeiras imagens a se formar são do canal da operadora de televisão, com flashes da programação, a hora certa e a previsão do tempo na faixa inferior da tela.

  A televisão está muda, ou talvez o som esteja baixo demais para impor-se sobre o ruído das buzinas e os 30% de surdez que o médico diagnosticou.

  São 16h43.

  Hoje não chove.

 A máxima prevista é de 25ºC.

 Ele até prefere que a administração do prédio não faça nada quanto ao barulho do vizinho; o que eles fariam, aplicariam uma multa? O que dinheiro tem a ver com o assunto? A questão é a falta de princípios, a mediocridade tenebrosa do vizinho; multa nenhuma resolve isso – pior, a multa restringe o problema à ordem da “inconveniência”, ao não cumprimento das regras.

  Ele está pouco se lixando para a conveniência, e para as regras. Ele só queria que essas pessoas não existissem.

  Ele só queria que sua vida fosse nada. Um belo, breve, pungente livro sobre nada – dias que transcorrem, grão por grão, regados pelo absoluto não-sentido, temperados pela absoluta indiferença. A degeneração necessária, bela e necessária; necessária. Que os otários se espremam à sua volta com suas buzinas, suas festas desesperadamente sonoras e alegres, seus discursos e baboseiras – ao longe ressoa o apito da fábrica, e ele sente muito sono de manhã; é isso.

  O telefone toca.

  Nada disso vai mudar absolutamente nada. Essas pessoas são como alienígenas em suas próprias vidas, absolutamente ignorantes da verdade estupidamente simples das coisas.

  O telefone toca.

  A fumaça ainda se esvai na base das cinzas, a longa coluna de cinzas na ponta do filtro do cigarro não fumado.

  O ruído das buzinas cessou; ele não sabe se acabou de parar ou se já parou há algum tempo, e só agora ele está se dando conta.

  O telefone toca.

  É estranho que as pessoas acreditem que essa carência ridícula, essa exasperação ansiosa por contato seja “consciência”; Esses homens todos às voltas com seus carros e casas e mulheres e empregos e salários e dinheiros, esses engodos.

  O telefone toca; a secretária eletrônica solta um bipe e destrava a bobina da fita cassete, que começa a rodar.

  Ele leva lentamente o cigarro até o cinzeiro, onde bate as cinzas do cigarro não fumado; uma fina linha de fumaça ainda se desprende, agora do cinzeiro onde as cinzas jazem, empilhadas.

   Com a mesma mão que até então segurava o cigarro ele ajeita seus óculos, encaixando-os com alguma força no alto do nariz. Por baixo das lentes dos óculos aperta os olhos repetidas vezes, com a cabeça baixa.

  A secretária eletrônica faz uma série de breves ruídos, encerrando a gravação da mensagem e preparando o sistema para a próxima ligação.

  Ele volta o rosto lentamente em direção à secretária eletrônica.

 Enche seu peito de ar.

  Quando a secretária estava desligando ele pensou “será que era a Diana?”; ele odeia quando o fulgor das paixões antigas o atravessa, como um vulto no fundo do espelho – da ternura que foi, da vontade que ela viesse.

[1] Estabeleci esse texto em diálogo com a fotografia feita por Gustavo Valentim. Sei que a pessoa na foto é uma pessoa, mas não a conheço, e o texto certamente não é sobre ela – é sobre a foto.

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