Dá-me a tua mão

Take a long drive with me

Decemberists

Dá-me a tua mão: vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta.

Clarice Lispector

  …oi! Tudo bem? …peraí, deixa eu te ajudar, é que a fivela está com um probleminha aqui, você precisa forçar um pouco e… pronto! Desculpa – carro de estimação, sabe?, é velho mas é querido … bom… e aí, tudo bem? Ah!, desculpa, deixa eu te perguntar primeiro: como eu faço pra sair daqui no sentido da Marginal? Sei, sei… sei, ali perto daquele posto? Sei, sei… ah, tá!, já entendi. … então… acho que você deve estar estranhando um pouco isso tudo, né?, a gente nem se conhece direito, convive há tão pouco tempo, e tudo… acho que você deve estar achando que eu sou pirado da cabeça, né? (risos) Bom, na verdade eu preciso te dizer que eu mesmo não sei muito bem o que aconteceu pra eu te ligar assim de repente, e com toda essa urgência; eu estava lá em casa e – você sabe que estou morando sozinho há umas duas semanas, né? – comecei a pensar em várias coisas sobre mim mesmo, e lembrei que você sempre esteve disposto e atencioso nas vezes em que a gente se falou, e me pareceu que seria importante poder conversar com alguém que acompanhasse meus pensamentos, e que eu sentisse que estivesse me entendendo minimamente, mas que não fosse ou se achasse próximo a ponto de me julgar ou tentar retrucar, e ao mesmo tempo alguém com quem tivesse proximidade recente para não achar que estou surtando ou sequestrando ninguém, sabe? (risos) É, eu sei… mas é que eu gosto de estradas, e de qualquer forma a cada poucos quilômetros tem um retorno, né?, então a qualquer momento a gente pode voltar… eu sempre gostei dessa noção, sabe?, de que a gente pode se desprender por um momento das redes da nossa sociabilidade, dos nossos limites próximos, e entrar numa grande rodovia e sentir isso tudo ficando para trás, sabe? Não? Então, nem eu sei se saberia te explicar; e na verdade essa é a primeira vez em que eu me jogo assim numa estrada só para poder andar de carro num contexto mais expansivo… enfim, deixa eu tentar te explicar: eu te liguei porque precisava pensar com alguém as coisas que estava pensando em casa sozinho, e achei que você tinha um estilo onde isso poderia parecer menos louco; agora que estou no carro com você do meu lado as coisas que estava pensando parecem menos claras do que estavam quando estava sozinho em casa, mas preciso tentar, vai me dizendo se está fazendo sentido, tudo bem? Então, o que eu estava pensando é que… eu não sei, eu acho que às vezes isso tudo parece errado, sabe?, toda a forma como a gente se aproxima das pessoas sem se aproximar de verdade, e a forma como a gente vai caminhando nessa vida toda apressada para cima e para baixo sem poder olhara para trás nem pensar duas vezes e tendo que agarrar cada oportunidade, e aí me pareceu que depois de tanto correr e mexer e estudar e batalhar e construir e planejar, a gente de repente senta para pensar na vida e percebe que tudo isso perde o sentido se a gente se descuidar e quiser pensar muito… oi? Se eu bebi? Por que, estou com bafo? Desculpa! Então, não, bebi uma besteirinha só, é que nessa hora que eu disse que estava em casa pensando eu resolvi rever umas fotos de umas viagens que eu tinha feito com a Amanda, e aí acabei pegando todas as caixas porque não sabia que fotos estavam onde, e aí resolvi pegar um whisky e pôr o disco da Nina Simone e montei toda a cena saudosista, sabe?, eu e minhas memórias, o whisky na mão, a Nina Simone, o pianinho… enfim, lá estava eu, e aí eu vi uma foto minha com um amigo de infância, o Dilo; lembro que eu subia como Dilo numa árvore imensa na rua detrás, e ficávamos ali conversando e fazendo planos e pensando nos nossos pais e em nós mesmos, e no futuro… e eu me peguei pensando: “em todas aquelas conversas, em todos devaneios, nunca, em nenhuma circunstâncias, eu imaginei que poderia me encontrar nessa condição” – e não é que seja uma condição particular minha, entende? Porque se fosse eu tomava um remédio e ficava na minha, não te ligava nem nada, mas eu me dei conta de tudo isso e me pareceu que isso não era só uma coisa minha, que era algo que eu tinha de pôr pra fora, sabe?, e por isso te liguei. Estranho, né? É, né? Sabia que era uma boa te chamar, você é um cara sincero! Então, é que eu tenho uma tristeza muito grande, sabe?, eu sempre fui um cara muito triste; lembro, ainda nas conversas com o Dilo, que eu falava pra ele, “eu acho que eu sou tão triste que vou acabar provando pro mundo que eu tenho razão”… engraçado, né? … é, eu sei , tudo bem, vou pegar esse próximo retorno aqui e a gente vai fazendo o caminho de volta.

  Mas não!, sabe o que eu acho? Eu acho que é importante a gente seguir mais um pouco! Depois eu te levo de volta, não se preocupa. Eu acho que eu preciso te dizer o que realmente me afoga, e a gente veio até aqui, então acho que eu preciso te contar, e é importante que a gente esteja indo e não voltando. Eu sou um cara muito triste, Pedrão, mas nunca entendi essa tristeza como falta de endorfina ou falta de tesão pela vida; pelo contrário, eu acho que eu tenho um tesão gigante pela vida, mas acho que o que me afeta é uma lucidez, uma lucidez tremenda, tão grande que eu tive de conviver desde os sete-oito anos com a resignação de que eu passaria a vida construindo um castelo de cartas só para que o Descaso, o grande Descaso, pudesse passar um tapa e pôr tudo abaixo. E olha, não estou te dizendo isso para que você entristeça, mas eu tenho uma esperança desesperada de que essa minha dor profunda verta em palavras que transmitam a alguém a mesma clareza com que eu vejo as coisas, como se se pudesse ter a sabedoria sem ter o peso sobre os ombros, sobre as costas. Imagine o afogado, na hora precisa em que encontra com toda a clareza o não-sentido radical que é o único sentido profundo das coisas – porque isso inevitavelmente acontece – imagina o afogado no momento em que contempla a beleza profunda, a beleza doída dos raios de sol fulgurando as águas, ele estando cada vez menos enquanto corpo a impor marcas e dores sobre a vida, e no instante da iluminação ele enxerga toda a beleza da vida sem que ele seja ele a vê-la, sendo a pura observação da pura beleza. A beleza, e a alegria, mais profundos, são aqueles que vêm do fundo de um olhar profundo, embaçado, um olhar tão triste que contempla a beleza na distância infinita em que ela se expressa alheia à insignificância daquela existência daquele homenzinho naquele lugarzinho. Sabe? Olha essa estrada, cara!, olha essas luzes, esse monte de insignificâncias nesse grande mar de nada! E olha a estrada… a estrada é a passagem, é a marca das passagens, dos grandes caminhos, as grandes ligações dos feixes de encontros, das cidades, dos mares de gentes… a beleza é que os fluxos passam por isso tudo, e na passagem os fluxos são a Natureza em toda sua resplandecência, e a gente fica atento demais ao carro, ou aos corpos que o dirigem e tripulam, atentos demais às pedras e asfaltos, atentos demais a tudo que é material, a tudo que é estanque, a tudo que a gente chama de conquista e que não é nada senão o substrato infelizmente necessário, o trambolho que precisamos para ter acesso ao Fluxo, que no entanto a gente insiste em deixar de ver; terra deu, terra come, cara – tudo que a gente acha que é, tudo que a gente acha que é nosso, tudo que a gente acha que é firme, não é nada senão um punhadinho de terra que a gente resolveu que precisa significar alguma coisa, e que no fundo é só um apego a mais, um real a menos…

  Eu às vezes acho que eu não existo, sabia? Não que eu não exista como se tudo fosse um sonho, mas no sentido de que essa história, esse senso de continuidade, essa massa de atributos que eu chamo de eu, no fundo isso tudo é um punhado de terra, um engodo, um móbile… eu mesmo não sou nada do que eu reconheço como eu, eu mesmo sou – porque será que isso me ocorre? – uma efeméride; efeméride, vê se pode? Uma efeméride, ou um fogo-fátuo, mas não por ser breve, porque eu não sou breve, um fogo-fátuo porque eu sou aquele pouco de energia, aquele pouco de gás que emana de um corpo extenso, o corpo extenso é a base necessária, mas ao mesmo tempo é a condenação, é o mal-suporte do que de forma mais íntima e real sou eu, eu mesmo. Eu sou um burst, mas um burst que dispara em direções múltiplas, pulula daqui para lá saindo do montinho de terra que é a superfície, a superfície mínima necessária; mas que engodo insinuante, que pregnância terrível em que se confunda o punhado de terra com o eu, que se confunda o bonequinho de carne com o que de mim é mais real…

  E aí, cara… aí eu estava em casa, com meu copo de whisky, ouvindo Nina Simone, olhando as fotos, e aí eu pensei: onde eu fui parar? Esse cara dessas fotos, o cara dos aniversários, o cara dos churrascos, o cara dos amigos e namoradas e viagens… onde eu fui parar? E aí eu pensei: será que esse sou eu? E aí eu pensei: sabe quem sou eu? Eu sou aquele moleque que estava com medo de dormir, porque sabia que dormir era perigoso, porque eu sabia que se eu dormisse no meu quarto, na minha casa, dentro dos planos e do desejo e das linhas dos planos dos mapas das expectativas dos meus pais e dos meus em geral, eu sabia que se eu me deixasse dormir e acordar porque era assim que tinha que ser, sabia que então estaria me arriscando a me perder e a me deixar pegar pelos bichos maus e maus pensamentos e bruxas… e eu acabei dormindo, cara! todo mundo acaba dormindo! A gente dorme, e a gente se deixa pegar, todo mundo se deixa pegar, e a gente começa a olhar mais pras casas e pedágios e estradas que aos caminhos e luzes e passagens, e… e aí eu perdi a minha almofadinha, a almofadinha que eu dormia abraçado e que me protegia dos medos das fraquezas da carne pouca que é o punhado de terra que sustenta o fogo-fátuo que é ser o que se é. E aí, cara… o que será que eu sou? Que porra é essa? Que vida é essa? Por que a gente se sujeita? Você sabe, cara? Eu não sei! Eu só sei que de repente eu me perco de mim mesmo, agora mesmo eu me pego usando umas palavras-abajur, palavras que dão uma iluminação que é só a proibição de ter medo do escuro sendo que é necessário, é profundamente necessário ter medo do escuro. Essas palavras não me iluminam em nada; essas palavras saem da minha boca como outras quaisquer sairiam da minha boca, e eu poderia muito bem de repente me pegar tergiversando bulululando pipoca peloca naninha, me pegar terninho trabalho soneca, me pegar caralho cacete meleca, e tudo isso é uma mesma máquina de passar verniz no fulgor dos raios de sol que fulguram em meio às águas cada vez mais longe, longe…

  Cara, eu fiquei profundamente cansado. Absurdamente cansado. Eu vou parar aqui, você pega o volante, o documento do carro, as chaves, o dinheiro do pedágio, ou!, pega isso aqui, não!, pega isso aqui, eu vou descer aqui, olha aí, logo ali tem um posto, eu vou pra lá e eu me viro, você vai embora, desculpa te enfiar nessa, é, eu sei, desculpa, ou! Pedi desculpa, já, pára com essa de me dar bronca, vai se foder, leva meu carro pra tua casa, depois a gente se vê. Isso, vai, me deixa aqui mesmo, me deixa aqui, meu carro indo embora, as luzes do meu carro indo embora, o Pedrão indo embora, puta que o pariu, eu fodi tudo de novo, ai, caralho!

  …

  Mãe? Mãe, aqui é o Zezinho. Mãe, eu tô cansado, mãe; eu tô muito mal. Tô na estrada, mãe, eu parei no meio da estrada, eu não ia aí, não, só peguei a estrada, será que você me pega? Tô perto do posto… é. Obrigado, mãe, e desculpa. E mãe… mãe, você traz aquele calmante que você toma?, eu preciso de um, eu tô meio agitado, me perdi nas idéias…

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Um comentário sobre “Dá-me a tua mão

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