Do Majestic ao Partenon

Inspirado no conto Abrir-se-vos-á, de Dayane Rodrigues:

 http://palavrasbambas.blogspot.com/2011/10/abrir-se-vos.html?

  A primeira coisa que o atinge é a dolorida consciência da luz, toda aquela luz!, da luz do sol no rosto – só na metade esquerda do rosto. Apertando os olhos ainda fechados vira a cabeça, raspando o rosto colado à almofada na direção oposta, e sente a baba esparramando-se pela boca e bochecha. É com desgosto e um certo susto que se levanta, de costas para o sol; passa com força a mão pelo rosto, de cima a baixo, tentando limpar de si o mal-estar.

  A última garrafa de 51 Mix ainda está em cima da mesinha de centro, vazia até um pouco abaixo da metade; a TV ainda está ligada na SporTV, passando uma discussão sobre futebol; o celular, descarregado, ao lado da 51 Mix, em cima da mesinha de centro, está respingado de 51 Mix.

  Tenta raspar o desgosto mais uma vez, sem sucesso. Esfrega os olhos com força, sem sucesso – qualquer que fosse o propósito. Segura e aperta a parte de trás da cabeça com as duas mãos, bufando.

  Levanta-se do sofá, puxa uma das pernas da cueca samba-canção para ajeitar o “caimento” e coça as costas enquanto vai ao banheiro. Lava o rosto – um, dois, três golpes de água gelada.

  Olha-se no espelho.

  Sabonete.

  Um, dois, três golpes de água gelada.

  Olha-se no espelho.

  A cabeça ainda dói. Bufa.

 Vasculha o móvel embaixo da pia em busca de Neosaldina: nada. Busca Engov: nada. Aspirina. Epocler. Eparema. AA. Ranitidina.

  Nada.

  ‘Puta que o pariu!’.

  Veste uma camiseta do Tolima, um moletom por cima da samba-canção, Havaianas; pega a carteira, as chaves. Pega o celular, aperta um botão para ver as horas, vê que ainda está sem bateria. Bufa.

  Põe a TV na BandNews para ver se mostram o resultado do UFC.

  Nada.

  ‘Filha da puta!’. Suspira.

  Bate a porta, chama o elevador, passa a mão de fora a fora do rosto com força enquanto bufa. Volta para trancar a porta do apartamento que esquecera aberta. No ínterim o elevador chega e já desce de novo; ‘Merda!’.

  Aperta o térreo. Fecha os olhos enquanto puxa todo o ar que pode, enchendo os pulmões. Segura. Solta o ar pela boca, abrindo os olhos e verificando com ar crítico as próprias olheiras.

  O sol está um saco – devem ser quase onze da manhã. Caminha até o bar ali do lado. ‘ Tião, vê um Gatorade e um pão de queijo. (…) Valeu. (…) Velho, cê tem Neosaldina, Aspirina, Engov, Epocler, veneno de rato, alguma coisa? Engov? Firmeza, valeu! Quanto é? Fica com o troco. Valeu.’

  Ganha as ruas. O sol está quase a pino, deve ser quase meio-dia. É engraçado: se fosse um filme do Chuck Norris ou do Setevn Seagall seria alta madrugada, ele não estaria de ressaca e começaria aquele jazz de puteiro, com aquele saxofone com eco e tal. Aí ele poderia ir até o Snooker bar atrás de umas pistas, bater nos caras, andava de carro, o vento no rosto… mas não: só esse sol do inferno, o barulho dos ônibus e esse monte de gente feia quase passando por cima dos desavisados.

  Bufa – o Engov não vai dar conta; ele vai precisar ir à farmácia comprar mais alguma coisa – bom que no caminho ele pára na banca e já vê com o Zé se o Spider destruiu aquele porra daquele japonês.

  Ele deve estar com problema; se bem que problema ele certamente tem faz tempo, e isso a própria Alê já tinha dito um milhão de vezes antes de ir embora; ‘vagabunda, fudeu minha vida!’.

  Tem problema, com certeza – está até falando sozinho na rua! O jeito é mesmo tomar remédio, fazer terapia, qualquer coisa – como pode, encher a cara e capotar esperando uma lutinha besta de meio de semana? Mas também, onde já se viu passar luta duas horas da manhã?

  ‘E aí, Zé, sabe o que deu no UFC ontem? É mesmo? Massa! Viu… vê pra mim o Lance! e o Valor. (…) Valeu! Quanto? Ah, vê um Twix também! Valeu.’

  O sol inundava a rua, inclemente; a multidão seguia sua dança indiferente. Meio Twix perdeu-se no complexo processo de virar das páginas 6-7 às páginas 8-9, acompanhado de mais um suspiro; acabou desistindo do Lance! quando, ao ler uma frase mais comprida, deu de frente com uma senhora que resmungou por cima de qualquer tentativa de amenização da cena por parte dele. ‘Caralho…’; acenava com a cabeça negativamente.

  Bufou. Esvaziou os pulmões como sempre, mas sentiu que algo ficou ali, na altura do peito. Puxou o ar de novo; soltou o ar todo de uma vez. Sentia-se estranho. Bufou de novo; ‘pareço um cachorro bufando assim’.

  Passou a mão desordenadamente pelos cabelos. Fechou os olhos brevemente, apertando-os; quase trombou com um garoto. Afrouxou o passo, baixou o olhar; estava angustiado. O que seria?

  Via o solo descontínuo; descontínuo?

  Do alto do desespero, não apoiava-se mais nos pés. O asfalto se aproximava, vertiginoso.

 Virou-se aflito na direção do grito que ouviu ao seu lado – uma garota olhava desesperada para cima; reparou então que alguns carros buzinavam; ‘que porra é essa?’. Tudo corria, corria em câmera lenta. Planava?

  Sentiu aquela coisa que estivera espremendo seu coração despegar-se dele com um último apertão; reaparecia de alguma forma no meio da calçada, bizarra, retorcida: era um barulho, tornara-se um barulho alto, estalado, aflitivo, um barulho e uma moça desmontada, toda esticada ali.

  O que fora uma ressaca malcuidada explodiu em um mal-estar imenso, uma bolha cinza minguando-o de mundo, de ar, de espaço; comprimia-se sobre si.

  Desmaiaria? Parecia que sim. Virou-se de lado, em busca do sol, de vento, de esperança.

  Respirava pela boca, rápida, ofegantemente; as pernas tremiam, os joelhos queriam ceder. ‘Caralho, a mina pulou, velho; a mina caiu’.

  Ofegava. O cinza descia sobre ele.

  Lembrou-se do saxofone de puteiro; lembrou-se de Chuck Norris, de Steven Seagall. Lembrou-se do Spider e das porradas que ele dá nos caras.

  O cinza descia, descia. Ele percebeu que estava arqueado, segurava os joelhos com as mãos; reparou que os ombros pareciam descolados do resto do corpo. Reparou que seu corpo estava uma desgraça.

  Lembrou-se da Alê. Que falta fazia a Alê, meu Deus!

  Sentiu algo como uma bolha de vácuo na parte de trás da cabeça, sentiu-se levantando e puxando o ar, estufando o peito. Ouviu as buzinas, viu carros parados, uma menina que vomitava ali na sargeta.

  Virou-se e deu de frente com o corpo da mina, espaçado, mutilado, ali no chão. Viu o corpo da mina, e pelo corpo da mina viu que ali vivia uma pessoa até pouco tempo atrás, interrompida pelo estúpido tempo, pela estúpida ideia de pular, pelo estúpido asfalto. A menina morreu, meu Deus do céu! A menina pulou, a menina caiu… a mina morreu porra!

  Inclinou-se rapidamente; respirava pela boca, ofegante; os pulmões eram tragados pelo cinza, pelo inclemente cinza; cadê o sol?; as mãos tentavam em vão segurar os joelhos.

  Tentou lembrar da sensação de vento no rosto; imaginou o Steven Seagall no carro conversível, o vento gelado no rosto e a noite aberta – o ar, o frescor, o bem-estar. Lembrou do sol, o sol clemente, restaurador, o sol vitalizante. Lembrou das propagandas ridículas de hidratantes e sabonetes. Lembrou do Steven Seagall. Lembrou do Spider.

Lembrou-se planando

Lembrou da queda

e do saxofone

e do cinza

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2 comentários sobre “Do Majestic ao Partenon

  1. Gostei, li os 2 textos… Abrir-se-vos-á, e este aqui… bom dialogar com estes textos… tenho acompanhado a personagem Alê Mathias, criada pela Dayane… que nasceu de uma necessidade urgente, reforçada por uma conversa de domingo… sempre bom ter por perto textos que desassogam, para produzir algo novo.

    Abraço

  2. Pingback: da queda – Errâncias

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