Prolegômenos e desvarios para uma biologia endógena da escrita

  Tales Ab’Sáber termina a introdução de O Sonhar Restaurado dizendo: “ofereço ao leitor o trabalho de alguns anos de minha vida, na esperança de poder, de uma forma ou de outra, chegar a reelaborá-lo nos próximos, considerando então a contribuição criadora das leituras possíveis”.

  A colocação me fez repensar uma compreensão que por muitos anos tive acerca do processo de escrita. Sempre me pareceu que a escrita é o processo de parto de uma ideia que até então era nada mais que uma ideia, e que no momento em que o texto é fechado ou entregue ele nasce e “é do mundo”. A colocação de Tales me inspirou a rever essa condição, e hoje vejo-a de forma que acho que me ajuda mais do que a que sustentei até hoje.

  Me parece que um texto, na medida em que é formulado enquanto idéia, já está “concebido” – a concepção de texto que o futuro escritor tem para si já é um texto recém-nascido.

  No gesto da escrita, o texto vai crescendo e tomando forma, se desenvolvendo. Esta (a materialização de um texto) é a infância do texto, ainda imaturo e dependente de seu escritor. É quase inevitável, a esta altura, que texto e escritor passem por problemas: mal-entendidos, atritos, incompatibilidades; o texto, no entanto, é absolutamente dependente da dureza e da ternura do escritor para que venha a se desenvolver bem (isto é, em direção à plena expressão de sua potência, considerados seu ímpeto, o contexto e as possibilidades do escritor-genitor).

  A publicação, ou seja, o momento em que a escrita é compartilhada, expressa o momento de emancipação mútua, em que escritor e texto se des-dependem para que cada um siga seu rumo – carregadas, indeléveis, as marcas que carregam do período em que compartilharam as vidas entre si.

  Por quê penso isso? Porque costumava pensar que textos não escritos ou não publicados eram abortos, eram textos não-nascidos. Mas essa era uma visão demasiado culposa e espontaneísta sobre o processo.

  Textos não escritos são não-eus em mim; na medida em que não os publico, mesmo que os esqueça, tenho-os comigo, nessa minha casa que não é só minha (toda preenchida de estranhos). Nem sempre a não-publicação tem um caráter de perda ou ruptura/trauma como o seria se estivessem em causa abortos. Além disso a perspectiva da publicação como parto sugere uma identificação íntima entre autor e texto à qual o texto recém-publicado dificilmente faz justiça, e isso porque entre a idéia do texto ainda dentro da cabeça do autor e a publicação do texto efetivado se passa muita coisa.

  Penso, por exemplo, nos textos meus que recentemente vi publicados em revista: há muitas alterações que me desagradam; ainda mais que isso há insatisfações minhas com o texto que são intransponíveis e independentes de qualquer outra pessoa – frustrações que a linguagem compartilhada, a temporalidade da escrita e da leitura, as contingências de eu quando escrevendo e por aí vai. Esse texto que vai ao mundo com meu nome é cria minha, mas fala por si – tivemos alguns desentendimentos ao longo do caminho, e tudo que sei é que fiz o que pude para que ele fosse feliz, por seus rumos e pelos efeitos que causa.

  Penso, também, no mestrado que estou fazendo: mesmo com o pouco material que tenho escrito, e mesmo estando distante de uma formalização conclusiva, não posso de forma alguma compreender que estou lidando com um ainda-não-nascido ou com  um feto em mim: lido com um jovem, que por um lado me cobra e me testa e me irrita ao mesmo tempo em que, por outro, começa a mostrar suas feições e um certo caráter que insinua alguém que se sustenta por conta, para minha alegria e júbilo.

  Há algum tempo já estou “de bem” com textos não lidos, esses não-eus que tenho em mim oriundos de outros. Hoje acho que chego a um primeiro entendimento com meus textos não-escritos meus; não sei até que ponto posso ou poderia ficar à vontade com eles (afinal é difícil pensar de outra forma senão que a casa é minha!), mas reconheço uma certa dignidade em sua condição – como naqueles momentos de esplendor e singeleza em que reconhecemos a grandeza das formigas, ou das outras pessoas “normais” nas janelas dos outros prédios, ou nas coisas simples da vida.

nota: curiosamente, relendo o texto, percebi que as idéias que expresso não concordam com as de Tales na passagem citada; ainda devo a ela pela inspiração.

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