A lagarta e a náusea

[1]Há não muito tempo atrás, ainda numa outra vida, eu andava tranquilo pela rua, e estava sem máscara sem me sentir nu, e havia pessoas a conduzir suas vidas por ali; e lá ia eu, e de repente vi à minha frente uma lagarta – uma lagarta gorda, seus múltiplos passos a dar minúsculos passos, e assim ela ia, sem saber aonde ia, ainda que no fim das contas tudo que conseguiria seria alcançar o outro lado da calçada.

Que vida, a dessa lagarta! Uma vida em preâmbulo a uma outra, ela lagarteando em direção à borboleta pujante que ela um dia quiçá seria; mas ela seguia, estupidamente, sua vida ameaçada pelos múltiplos passos das múltiplas pessoas, cada uma delas por um fio de interromper aquela vida – e cada uma delas à beira de serem, a qualquer momento, também elas interrompidas.

E a lagarta, bizarramente, era toda verde e amarela. Verde cor de veneno, e amarelo cor de veneno, cores que ela trajava, estúpida, certamente orgulhosa da borboleta pujante que seu destino previa – ainda que, por certo, seu destino ela mesma não via. E eu passei por ali, certamente tão estúpido quanto ela, sem me ocupar com ela por mais que um devaneio, e o devaneio borboleteou no fado estúpido de uma pujanta lagarta tornada meleca numa calçada qualquer de uma cidade grande demais para se importar.

E pensei que não havia borboleta nenhuma ali a se velar, luto de borboleta alguma que nem sequer existiu. Pois tudo que havia era uma lagarta, gorda e lerda, perdida de si em um mar de asfalto que tragaria milhões delas sob as solas de seus estupidificados transeuntes antes que uma flor sequer brotasse em meio ao asfalto.

E eu poderia ter chorado, e acho que eventualmente chorei, a fertilidade da estupidez que grassa nas calçadas, e nas solas dos sapatos, e nos destinos pisoteados das milhões de lagartas que não verão borboleta alguma.

E eu talvez teria parado, mas eu sei que não parei, e não haveria como parar, não quando sei que não há parada possível, não quando a contramão urge, determinando um trôpego tráfego voando inexorável a lugar nenhum.

E em algum lugar proliferam sonhos, sonhos em que as milhões de lagartas são diligentemente pisoteadas, e em que seus sucos viscosos regam as calçadas e fazem germinar flores, flores cujas cores não se percebem e cujas pétalas não abrem e cujo nome não se diz, e essas flores encantam os sonhos e aqueles que sonham os sonhos, ainda que suas flores não ostentem cores ou pétalas ou cheiros ou nomes, e esses sonhos proliferam os devaneios desses sonhadores a chorar essas flores como quem chora as borboletas.

E se fez completo silêncio. Se paralisaram os negócios. Bondes e ônibus e o rio de aço do tráfego passou ao longe, e longe e longe escasseou e sumiu. Uma flor, quiçá, poderia ter nascido, a borboletear futuros jamais vistos, a inventar cores e cheiros.

Mas fez-se tédio, e nojo, e ódio, e a lagarta, desfeitas as borboletices de um futuro florido, imagino que esteja flanando por aí, provavelmente ostentando umas máscara que meticulosamente protege seu queixo enquanto ela rigorosamente não se importa em absoluto.


[1] Este texto dialoga proximamente com o poema “A flor e a náusea”, de Carlos Drummond de Andrade, que pode ser acessado neste link (é o último poema, ao final da página): https://www.germinaliteratura.com.br/cda.htm

2 comentários em “A lagarta e a náusea

  1. Confesso que me emocionei…por expressar poeticamente algo que me parece tão familiar.
    Dialoga gentilmente e se enlaça ao poema de Drummont!

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