O último elefante branco

Quem diria: o moleque cresceu. Joguei a bola tratando-o como um café com leite e ele respondeu sem hesitação, sem meias ações, intolerante: acertou a bola em cheio, com firmeza; olhou para mim, sorriu e disse: “faz tempo, não é, tio?”.

Quem diria. Decidi trata-lo como adulto, a partir dali.

Jogamos por mais de uma hora, o pessoal à mesa provavelmente esqueceu-se de nós, e quando por fim demos a partida por encerrada, exaustos, percebemos que todos tinham se recolhido às redes ou às camas e tiravam seus cochilos vespertinos. Ele me convidou para uma cerveja e aceitei, disfarçando minha surpresa diante da naturalidade com que apresentou a proposta. “E a escola?”, perguntei; “tudo bem, é tranquilo. Mas não me interessa: a Doutrina me irrita”, ele respondeu.  De fato, um adulto; na minha opinião, na verdade, mais adulto que os adultos com que convivia no trabalho e mesmo em casa.

Foi nesse ponto que as coisas se tornaram interessantes. Pela surpresa diante de sua firmeza eu tinha me sentido propenso a inverter minha leitura inicial, e a partir da criança que via por hábito passei a enxergar uma espécie de adulto profetizado, maior que um adulto “normal” justamente por ter-se imposto a despeito de mim. Provavelmente teria levado essa propensão como base da conversa – com o que teríamos tido uma conversa provavelmente muito estranha e infrutífera – não fosse sua postura inquietante a partir desse cenário: pegou duas cervejas de seu pai da geladeira, passou-me uma, abriu a sua e sentou-se no chão, em pose de indiozinho, olhando brilhante para mim, como uma criança à espera de uma historia da carochinha. A bem da verdade nada daquilo fazia muito sentido, e talvez eu devesse ter visto nele só mais um adolescente incerto entre a meninice ingênua e a aborrescência mais pedante, resvalando de quando em vez no que em breve se convencionaria chamar de adultidade. Fato é que eu não entendi a cena dessa sóbria razoável maneira, e vi naquele moleque a chance de um encontro, um verdadeiro encontro, em que poderia falar das coisas que já não falava mais desde que o Herzog sumira. Enfim: abri minha cerveja, tomei um longo gole, olhei para ele  como quem tem calma e desembestei.

“Cara, engraçado você falar isso a respeito da Doutrina, sabia? Eu sinceramente não nutro grande amor por ela, mas espanta que ela te pareça irritante, chega mesmo a me dar esperanças. Sabe por quê? Porque no meu entendimento ela sempre foi anestésica, e essa seria sua força. Eu, pessoalmente, não encontro apoio na Doutrina há muito tempo – começou, a bem da verdade, quando eu tinha mais ou menos sua idade. Na época era mais frequente que as pessoas fugissem à Doutrina, era parte mesmo da juventude – muitos da minha época engajavam-se  no que a gente chamava então de Militância, eram muitas as formas de militância, encontrávamos uma que nos dissesse algo, como se fosse uma Doutrina não ratificada pelo Cuidado, entende? A partir dessas tais Militâncias a gente contestava a Doutrina, dizia de seus problemas, dizíamos do que nos irritava et cetera. Mas enfim, isso foi deixando de fazer sentido diante dos Implementos e dos Planos, que não existiam então; quando os Planos e Implementos surgiram as Militâncias passaram a ser vistas como incompatíveis com o Cuidado – inclusive a gente fazia uma distinção que hoje não dá para explicar, porque chamávamos a uma parte imensa do atual Cuidado de Mercado, e todas militâncias achavam o Mercado uma coisa muito ruim (como eu mesmo acho até hoje). Enfim, eu mesmo achava a Doutrina irritante, mas fui percebendo que ela era maior que eu, e desde então guardo minhas pesquisas para mim, nem a Elsa sabe delas. É. Pesquisas? Bom, é o nome que eu dou, fica mais fácil assim porque no meu trabalho regular eu faço pesquisas, mas há uma parte dessas pesquisas que do ponto de vista da Doutrina é Erro, se alguém soubesse eu provavelmente seria Corrigido, por isso não conto à Elsa – você deve ter percebido que ela não tem nenhuma crítica à Doutrina. Enfim, as pesquisas que faço, faço-as com uma coisa antiga, chamado “rádio de ondas curtas” – imagina, hoje em dia não existem nem rádios, imagina os rádios de ondas curtas. Bom, usando o rádio de ondas curtas eu acompanho noticiários de outros territórios, Selvagens, para além da Barreira. Sério, juro! A Doutrina ensina que no Selvagem não há nada, mas o fato é que há pensamentos e culturas e vidas, há música e tradições, há pessoas como eu e você, mas vivendo sem a Doutrina, além da Doutrina e, bom, eles usam rádios e têm “cultura aberta” (outro dia te explico, você não entenderia) e com meu rádio de ondas curtas eu consigo acessar o que eles dizem e transmitem em seus rádios. É mais ou menos assim: sabe a Globo? Então, houve um tempo em que a Globo era uma empresa de comunicação, e haviam outras, e elas tinham opiniões diferentes… opiniões? Nossa! Então, imagine que as pessoas não pensam todas de acordo com a Doutrina, mas têm doutrinas diferentes, formadas a partir de seus pensamentos… isso inclui uma série de opiniões. Enfim, a Globo algum tempo atrás era uma empresa de comunicação entre outras, e nessa época transmitiam-se programações diferentes, a pessoa seguia a que sentisse maior afinidade. Enfim, no Selvagem ainda há isso, e eles ouvem músicas diferentes, e as pessoas dizem suas opiniões, é tudo muito curioso e fascinante – imagine, minha grande dificuldade é desligar meu rádio e voltar ao Cotidiano”.

O menino parecia fascinado com aquilo tudo, me olhava fixamente, parecia disperso internamente, envolvido em mil pensamentos – suponho que estivesse descobrindo naquele momento que o que sentia incomodando-o era uma opinião, divergente em relação à Doutrina. Talvez estivesse pensando que não fosse apenas seu ritmo de aprendizado que fazia a Doutrina parecer-lhe irritante. Nunca saberei se isso ele descobria por si ou se era algo que eu incutia nele. Eu me sentia inebriado, era fantástico contar aquilo tudo a alguém, e por isso avancei:

“Há uma historia que quero lhe contar: a historia do Último Elefante Branco. Um tempo atrás tínhamos acesso a notícias a respeito de animais, animais selvagens – selvagens porque não serviam para que os comêssemos, e sim, é daí que o termo vem. Enfim, esses animais selvagens eram fascinantes, e quando eu era pequeno podíamos inclusive visita-los em locais onde eles ficavam guardados, com num museu, mas para animais, chamado zoológico. Isso tudo foi antes das Reformas, antes do Herzog sumir – desculpe, Herzog foi um companheiro meu de adolescência, você não o conheceu; enfim, houve um período muito confuso, o pessoal aqui de casa chama de Revolução, na escola devem chamar assim também, na época os nomes variavam – Contestação, Revolução, Golpe, vários nomes, enfim: nesse período os tais zoológicos foram sumindo, e foram sumindo também as Militâncias, a Globo foi se tornando o que ela é hoje, e nesse período circulou uma historia muito bonita, a respeito do Esperança. Dizia-se que os animais selvagens estavam desaparecendo, matando-se uns aos outros e confundindo-se e oferecendo-se aos Reguladores, que os Corrigiam sem hesitação. Dentre os animais selvagens o Elefante Branco era bastante atípico: ele não lutava, ele fazia-se notar; ele não gritava, ele era grande; ele não resistia, ele insistia. Entre as Resistências havia muita conversa, mas eu e o Herzog acreditávamos que o Elefante crescia a cada dia, na mídia diziam que ele estava doente, que ele não tinha mais chances e falavam sobre a data marcada para sua Correção (no caso dele não era Correção, ele seria sacrificado). Eu e Herzog nos agitávamos, sabíamos que aquilo não fazia sentido, sentíamos que o sacrifício do Elefante Branco não seria algo bom, seria só mais um passo, provavelmente o último passo, no avanço daquilo que à época chamávamos, eu e ele, exatamente de Avanço. Isso, Avanço era o nome que dávamos ao que chamam de Revolução, e que o povo das Militâncias chamava de Golpe ou Contestação; chamávamos de Avanço para tirar sarro, porque na época havia uma bandeira e nessa bandeira se afirmava que o centro era a Ordem e o Progresso – isso não vai fazer sentido nenhum para você, não se preocupe. Enfim, sentíamos que o sacrifício do Elefante Branco não deveria acontecer, pelo menos não daquele jeito. A Globo tinha marcado a transmissão ao vivo para o dia do sacrifício, e havia um clima de expectativa imenso, todos estavam em frente à televisão para o grande evento de nossa época; pois o que aconteceu?: diante de todos,  enquanto o locutor fazia os discursos e a cena, transmitindo o entendimento de que a Globo sentia muito pelo sacrifício do Elefante Branco (o que sabíamos não ser o caso, mas enfim), durante esse clima geral de expectativa e anestesia, diante do olhar pacífico, elefântico, de todos, o Elefante Branco explodiu. Explodiu, juro, era um animal imenso e quando explodiu voaram para todos os lados coisas medonhas, terríveis. Houve uma comoção terrível, o locutor deixou escapar um palavrão, a transmissão foi interrompida, o que só fez aumentar a confusão, e aí deflagrou-se uma noite terrível, que equivale ao que na escola devem chamar de Instalação. Foi na noite de Instalação que o Herzog sumiu, porque foi ele quem plantou a bomba no Elefante. Eu mesmo saí ileso porque eles não chegaram a mim – na verdade nem procuraram responsáveis, naquela noite as coisas foram definidas sem maiores sustos ou surpresas”.

O menino me olhava e parecia confuso. Eu ouvira conversas na sala e antecipara um pouco o fim da historia, mas não havia mesmo como tornar aquilo razoável.

“Veja, como te disse, não fale disso com ninguém. Não imagino que vá entende o que te disse, pelo menos não agora. Fiquei feliz de ter jogado com você, e de termos tido essa conversa. Espero que consiga se cuidar. Não fale disso com ninguém, certo?”.

Imagino que ninguém se surpreenda com o desenrolar disso tudo: o menino passou a ir muito mal na escola e foi Readequado, empregado em serviços mecânicos, menores.

Não sei se essa transmissão chega a alguém, nunca recebi resposta. Se há alguém aí fora recebendo e não consegue ou não pode responder explicitamente, peço que toquem Yellow Submarine amanhã, por volta das vinte e uma horas, como afirmativa.

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Um comentário sobre “O último elefante branco

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