Morre um poeta

“Pro homem no barraco já começa mais um dia”; Eder acorda feliz com o verso, mas a sequência lhe escapa quando olha o relógio – o chefe não vem hoje, ele precisa chegar mais cedo e checar a escala, ligar pra quem costuma não vir, enfim: atrasado, já. “Busca a felicidade, esbarra na verdade/ Desiludida, desaprendida/ É a verdade de saber não ser seu próprio senhor”, saem mais alguns versinhos enquanto toma banho. Veste-se, pega um saquinho de Torcida, sabor camarão, e a chave de casa.

– Amor, tudo bem por aí? Tô saindo, tá?

– Hm…

– Beijo!

“Corre, negão, trabalha, negão”: lá dentro cala um poeta; lá dentro morre um poeta.

Guarda o Torcida na mochila, dá um pique e ganha dois minutos pro café com bolo da tia, na porta do trem.

– Valeu, tia!

O trem entope, sobre gente, muita gente. Um mar de gente. A estação convulsiva de gente, e a minhoca de metal fertilizando os bairros ricos com a gente-adubo – assim a terra respira, o concreto come o morro, os Jardins mastigando mato, sempre muito mato pra pouco jardim. “E a minhoca de metal que corta as ruas”, e a minhoca de metal que corta as veias. E todo camburão, e toda lotação, e toda estação tem um pouco de navio negreiro. O trem lotado, e lá dentro cala um poeta; o trem lotado, e lá dentro morre um poeta.

O chefe manda whatsapp, pergunta se ele está chegando, manda umas mensagens curtas, rápido: o bebê deve ter acabado de dormir, ou ele ainda está no hospital e deu uma saída, de qualquer maneira são ordens, é o chefe mandando ordens. Arre! Chegando lá ele vê. Na verdade com essa coisa do whatsapp e do número do celular com a firma ele trabalhava o dia todo, estava sempre às ordens. O Pedrão deu cambau? Liga no celular do Eder, chama o Eder. Eder é ponta firme, Eder está sempre lá, Eder chega rápido, Eder vende as férias. O chefe quer descansar? Põe na conta do Eder, soca o Eder no vagão, soca o Eder no camburão, o Eder segura; toda a situação tem um pouco de navio negreiro. E a ideia, a ideia lá corria solta, e papel nada, naquele mar de gente a ideia vira espuma, a gente transpira a burrice que o chefe vende a peso de ouro – e papel pra anotar, nada. A ideia lá corria solta, escorria, transpirava, e sumia: lá dentro cala um poeta, lá dentro morre um poeta.

Estação Brás.

Eder some no trabalho, afunda no trabalho, Eder-parafuso, Eder-chave de fenda, Eder-martelo, Eder-prego. Eder prego, paga de puxa-saco no trabalho, chega pregado no supletivo, manda mal na prova, toma prego no enem, sem chance pro Eder, Eder-zé ninguém. Poeta, Eder? Poeta, quem?

Lotação, correria, aula, e o professor libera as notas: prego. De novo: prego. Sem chance. A ideia lá corria solta, e o Eder tem futuro, mas não se dedica; o Eder é até inteligente, mas traça um caminho sem volta, tem filho muito novo, não tem estabilidade no emprego, não tem perspectiva?

– Eder, você está me ouvindo?, a coordenadora pergunta.

– Sim, senhora, estou ouvindo sim senhora.

– E o que pensa disso?

– Eu não penso não, senhora, ideia minha o chefe anota, o trem amassa, o trampo cospe, a terra come.

– Bonito isso, Eder; você gosta de poesia?

– Gosto, sim, senhora. Mas a poesia não gosta de mim.

Eder está sem cabeça para assistir as aulas. A coordenadora vai suspirar, vai ter pena, “pobre Eder”, branquela da porra, não entende nada. Encosta no balcão, pede um goró, dá um tempo.

A poesia, que não gosta do Eder, faria ali uma batida policial, e ele seria detido, e apanharia da polícia, e sairia de lá dias, semanas, meses depois, “o homem na estrada recomeça sua vida”. Mas a poesia não gosta do Eder, e o Eder sabe; não tem batida policial, não há os dias e as semanas e os meses, e o homem na estrada não recomeça sua vida.

A poesia não gosta do Eder, mas o Eder gosta da poesia. Lá dentro cala um poeta.

– Amigo, arruma pra mim um guardanapo e uma caneta?

A ideia lá corria solta. Subia a manga amarrotada, social. Caneta, papel, e a ideia… sumia? Cadê a ideia? Como era? “Pro homem no barraco só começa mais um dia/ mais infelicidade/ apanhando da cidade/ …”. E agora? A ideia sumia.

Lá dentro morre um poeta.

Eder puxa o celular.

– Jéssica, tô chegando mais cedo em casa, mas tá tudo bem, fica tranquila. Passo no mercado e compro farinha. Beijo.

No caminho pro camburão, digo, pro trem, uma batida policial; Eder vê e sabe, a iminência bate, mas ele sabe que não importa, eles vêm quando quiserem; Eder abaixa a cabeça, mira a entrada da estação e trota suave, manso, torcendo pra chegar.

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