O homem triste

Por onde o homem triste passa, deixa atrás de si um rastro de fogo, chamuscando, como querendo apagar e tornar-se cinzas, mas que ainda por longos dias insiste, insiste, como se o calor que o consumisse emanasse do coração mesmo da terra.

Imagina-se, porque faz sentido, que o rastro de fogo que o homem triste deixa atrás de si é a destruição do que de vivente por lá pulsava, como se o fogo deixasse cinzas que não deixam nada além de si habitar aquele caminho; o curioso, e que muitas vezes não se nota, é que conforme o fogo vai se habituando ao frescor à sua volta e conforme desabitua de queimar, insinua-se à sua volta novamente as cores e cheiros e sabores do todo dia que o homem triste não viu e não vê, e essa fauna aconchega-se ao redor do fogo como quem perdeu o medo da novidade e já não sente pendores de se esconder; o fogo e as cinzas que o homem triste deixa atrás de si perdem então o que de lúgubre tivessem, e viram companhia viva às cotidianices ao derredor, dão mesmo uma nitidez maior ao que por ali circula.

Há quem diga que a primavera nada mais é que a alegria do mundo, esquecido de si e do homem triste. Há quem diga que o inverno nada mais é que o ressentimento do mundo, saudoso de si e desalimentado de ver em si o homem triste a pulsar entristescências. Há quem diga que o homem triste é o mais verdadeiro, mais perene dos homens, sendo dos homens o que deles brilha para além do sol, o que deles orienta para além da lua, a sombra que dirige, o medo que aquece o coração dos monstros.

Pode-se pensar que o homem triste é como o avatar do destino: terra deu, terra come – o homem triste justamente o pêndulo desse pêndulo (da terra, a fome). Pensando assim vê-se que, a despeito da aparência desoladora, quando a terra come é porque ela há de dar de novo, e sempre, novos e surpreendentes frutos e, filhos da terra que somos, melhor é se soubermos que somos hoje nada mais que o adubo-ainda-não-cagado do amanhã. O fogo do rastilho do homem triste é o prenúncio, a alvorada das cinzas de onde o ainda-não-nascido se fará ver, a despeito de nós.

Ele nunca olha pra trás, e nunca é visto de frente. Há de ver-se como um pobre coitado, latas vazias amarradas a seus sapatos, tilintando atrás de si ao som alegre das crianças tirando dele um sarro cruel. Há de ser visto, conforme passa, como um ser sem rosto, sem feição, sem esboço de beleza, um homem vazio a deixar atrás de si um vácuo de vida. E nesse intervalo entre o que de si ele deformadamente vê atrás de si e o que de si vêem conforme fantasiosamente vêem nele alguém passado, o homem triste passa como o vão, a calha por onde a vida corre.

E é assim que o homem triste segue, arrastando sua passagem e promovendo sua passagem e as passagens, deixando atrás de si um arco-íris de sublime destruição. Dizem que é comum encontrar homens a ver-se próximos do homem triste, como se se chegassem a ele para uma foto, posando diante do fundo sombrio que alucinam (o homem triste e o outro) atrás de si; dizem também que os homens que encontram a si mesmos em meio ao labirinto que é ser-se existente desamarram dos pés do homem triste as latinhas que tilintam e abrem diante do homem triste a pacificação de saber-se bom, posto que o homem triste passa e repassa o caminho de cada um de nós.

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