A dança alvissareira das palavras-ninfas

Uma parente muito querida responde a uma notícia minha postada em rede social, dizendo que a notícia era “alvissareira”. Fiquei muito feliz, mesmo não sabendo exatamente o que significava. Afinal é fácil imaginar uma notícia alvissareira voando por aí, passarinhando, ou uma notícia alvissareira passando jovialmente pela multidão em alguma festividade medieval, lançando pétalas de flores e cantando temas pastorais. Por isso a notícia alvissareira havia de ser coisa boa, fosse o que fosse dizer-se dela ser alvissareira.

Claro que se pode imaginar uma notícia alvissareira como uma espécie cínica de mexeriqueira, notícia que, se fazendo de casta, lança por aí rumores e boatos, alvissaricando sua desfaçatez pra cá e pra lá, ah!, essa alvissareira sem vergonha. Mas fica claro a mim que não era isso de que se tratava, que essas eram boas alvíssaras, alvas alvíssaras, alvíssimas, borboletando coisas simpáticas no estômago de quem se quisesse bem.

Eventualmente fui procurar o que, afinal de contas, significava “alvissareira” de acordo com os formalizadores e decanos de nossa língua, e acabei descobrindo que alvissareira era promissora – assim minha notícia alvissareira era um presságio de coisas boas, era uma boa notícia; por isso, lancem as alvas salvas, lancem às favas as más ideias, calcem as vísceras com coisas boas e simpaticíssimas, chegaram as boas alvíssaras.

Curiosamente via, ao mesmo tempo, que a incrustação de um significado de acordo com a lei não intimidou as saltitantes alvíssaras que insistiam em sua dança sátira, alvissareiro para elas que aparentemente gostam da liberdade última de serem palavras-seres e não palavras-signos, para além de suas funções proletárias lançarem-se alegres a suas composições com o tempo, com suas companheiras palavras, particularmente as mais leves, alegres, mas também às barbudas e bravas, danças soltas, santas, safas, danças todas em palavras de alegria – ou seja, jamais palavras empaladas.

Quando eu de mim encaro o osso, e quando aperta no pescoço a solidão de ser-se moço demais solto do que aí fora caminha, as palavras alvissareiras são aquelas que dançam entre si e soltam-se de todo compromisso com a significação, dançam sátiras com a liberdade que é o avesso da poesia violência imposta à linguagem para o bem da expressão, liberdade que é a poesia proposta à linguagem para o bem da comunhão. Dançam para mim, e por fazerem-no bem fazem-me bem, mas ao fazê-lo como o fazem espero que façam bem a ti tambem, a ti que me visita quando aqui vem, e no fundo sinto que fazem por si, pelo êxtase de serem maiores que si, estarem além – além do mal, além do formal, além do bem.

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